quinta-feira, 30 de março de 2017

A censura teatral no Brasil Império

Como a censura da peça “Os diamantes da Coroa”, de Eugène Scribe, nos ajuda a compreender os órgãos de censura teatral da Corte, no Brasil, e os seus cuidados com as narrativas sobre o passado.

Por Denise Scandarolli
Em 1777, durante os últimos tempos de reinado de José I e da minoridade de Maria Francisca, sua filha e futura rainha, Portugal enfrentava uma severa crise financeira e agrícola, sua população sofria com a fome e com o frio. A situação se agravava dia a dia e a miséria do povo inquietava Maria Francisca. Como solução para o problema, a futura rainha de Portugal resolveu substituir os diamantes pertencentes à Coroa Portuguesa por cópias fiéis feitas de cristais lapidados, com a ajuda de um falsário, conhecido como Rebolledo, que ela havia conhecido nas prisões da Inquisição.
Maria Francisca monitorou cuidadosamente o trabalho de Rebolledo e quando as cópias das joias ficaram prontas ela as colocou no lugar das verdadeiras, as quais tinham grande valor, o suficiente para recuperar as finanças do país. A futura rainha de Portugal disfarçou-se, então, de chefe de um bando de contrabandista, passando-se por uma mulher da região da Boêmia, de nome Catharina, estratégia para poder negociar as pedras da Coroa sem macular a casa real com contravenções. Assim como havia sido planejado, a venda das pedras preciosas trouxe grandes somas aos caixas do Estado, possibilitando que Portugal conseguisse superar a difícil situação na qual se encontrava. O que não se esperava é que a futura Rainha seria desmascarada.
Este é o enredo do opéra-comique [1] Le diamants de la Couronne, de Eugène Scribe, com música de Daniel-François-Esprit Auber, submetido ao parecer censório do Conservatório Dramático Brasileiro, pelo diretor da Compagnie Lyrique Française, em 1846. A intenção era apresentar a peça no Teatro de São Francisco, um dos pequenos teatros do Rio de Janeiro. Mas, a peça não agradou em nada o grupo de censores.
Conservatório Dramático – Sentinela para um Brasil apropriado
Em 23 de agosto de 1839, o secretário do Estado dos Negócios da Justiça, José Carneiro de Campos, oficializou um conjunto de normas de regulamentação teatral, dita como Instrução para a polícia do Theatro de São Pedro de Alcantara [2]. Estas regras tinham como objetivo o controle tanto do que ocorria no palco como das práticas da plateia.
Primeira edição do libreto de “Os Diamantes da Coroa”. Fonte: Bibliothéque Musée de L’opéra – BNF (liv 19 OC 84).
No que se refere ao público do teatro, a intenção principal era civilizar os comportamentos, educar os frequentadores das salas de espetáculos para que agissem dentro dos padrões estabelecidos no documento, com determinações como a do § 3º , de que ninguém poderia dirigir em voz alta palavras e gritos a quem fosse, “exceto aos atores as de bravo e capuct, ou foras”, cabendo como pena a quem desrespeitasse a determinação, 2 a 6 dias de cadeia; ou ainda, a do § 7º,  de que ficava proibido que se jogasse moedas, pedras, laranjas, dentro ou fora do teatro. O comportamento das pessoas nos momentos em que a Família Real estivesse na sala de espetáculo também foi regimentado, impondo novas condutas e práticas antes pouco usuais para a maioria dos frequentadores do teatro.
Mas, estas normas exercidas como poder de polícia e cujas penas às infrações iam do pagamento de multas à cadeia, não funcionavam apenas como mecanismos civilizatórios, que ensinariam o público brasileiro a se comportar da maneira como acreditava-se, ou até idealizava-se, ser o comportamento do público dos principais teatros europeus; funcionavam também como uma forma eficaz de elitização desse espaço. Tal elitização era marcada por proibições como a imposição de vestimentas específicas para os frequentadores, descrito no § 5º onde impõe-se que “ninguém poderá estar na plateia ou a frente dos camarotes sem estar decentemente calçado e vestido de casaca, sobrecasaca ou farda”.
Enquanto a regimentação da plateia tinha como argumento a civilidade, as normas referentes ao palco prezavam pela moralidade. Este mesmo conjunto de normas oficializa a censura das peças, determinando a apresentação das obras apenas após a aprovação pelo inspetor do teatro, fossem elas peças completas, récitas ou pantomimas. A ação dos atores em cena também passou a ser oficialmente alvo de fiscalização, pois esses ficaram proibidos de alterarem as peças já liberadas pela comissão censória, e o § 2º ainda determinava que os atores “que nas pantomimas e danças apresentarem atitudes, desonestas, obscenas e ofensivas da moral pública” seriam multados e caberia pena de 4 a 8 dias de prisão.
Esse controle da cena e do público, do corpo e da percepção, foi imposto primeiramente às apresentações do Teatro de São Pedro de Alcantara, até a chegada ao Rio de Janeiro, em 1840, de uma trupe teatral francesa.
O grande número de peças colocadas em cena pelos artistas franceses, sob direção de Ernest Gervaise, impôs uma nova dinâmica à vida teatral do Rio de Janeiro e fez com que as normas, antes válidas de maneira efetiva para o Teatro de São Pedro de Alcantara, fossem estendidas às demais salas de espetáculo da Corte. Sendo assim, fundou-se, em 1843, o Conservatório Dramático, o novo órgão de controle da produção teatral na Corte, que veio suprir as lacunas deixadas pela criação da comissão de censura de 1839, a qual, na prática, acabava limitando-se à regulamentação do teatro de São Pedro.
Os artigos orgânicos da associação que formava o Conservatório foram aprovados pela Secretaria de Estado dos Negócios do Império, em 24 de abril de 1843. Segundo este documento, seriam criadas tantas comissões de censura quanto fossem necessárias. As regras para o julgamento das obras tinham por fundamento preestabelecido a veneração à “santa religião; o respeito devido aos poderes políticos da nação e as autoridades constituídas; a guarda da moral e decência pública; a castidade da língua; e aquela parte que é relativa à ortoépica” [3]. Partindo da concepção funcional da arte teatral, o Conservatório Dramático, presidido por Diogo Bivar, juntamente com a Polícia da Corte, passou a garantir a manutenção da moral e das regras de preservação acima citadas, subtraindo o que não se enquadrasse dentro dos parâmetros considerados mais apropriados por quem tinha o poder do veto.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” – A saída para uma narrativa incômoda do passado
Apesar das ressalvas que circulavam no meio letrado e político sobre algumas ideias presentes em obras francesas, uma das ações de maior repercussão dos censores foi o veto à obra de Scribe e Auber, Les diamants de la Couronne, representada pela primeira vez, sem maiores prejuízos, em março de 1841, no Théâtre de l’Opéra-Comique, em Paris.
O primeiro pedido de licença para a apresentação de Les diamants de la Couronne em um teatro do Rio de Janeiro foi feito ao Conservatório Dramático pela Compagnie Dramatique Française, em 1844. Já supondo que a história narrada na peça pudesse causar problemas para a sua liberação, o diretor do teatro francês substituiu o local onde os eventos ocorriam, colocando a Suécia no lugar de Portugal. A artimanha não funcionou, a peça foi censurada.
No seu parecer, José Pereira Lopes Cordal argumentou que o ato da rainha representava um comportamento inverossímil, incompatível com a defesa da veracidade histórica propagada pelo Conservatório e nada mais era do que mais um desvio do romantismo francês que não se preocupava com a coerência das informações e da transposição dos termos para o lugar onde se passa a trama, sendo assim, contrariava a “dignidade do Conservatório” [4].

“Os Diamantes da Coroa”, caracterização dos artistas Fonte: Bibliothéque Musée de L’opéra – BNF (C261)
O argumento do inverossímil na ação de uma rainha que se mete com falsários está diretamente associada ao enredo, por se tratar de uma peça fundada em uma narrativa que cria um fato histórico, argumento reforçado pelo segundo censor, Francisco de Paulo de Azevedo, que em seu parecer reforça a imoralidade da peça por colocar uma soberana à frente de uma quadrilha de ladrões [5].
Depois da proibição inicial, outro pedido de avaliação foi feito em 27 de setembro de 1846, quando a Compagnie Lyrique Française, sediada no Rio de Janeiro, submete novamente a peça à censura do Conservatório, agora sem modificar em nada o libreto de Scribe, pedido que causa maior frenesi nos pareceristas censórios.
O primeiro a negar a licença foi Diogo Bivar. Para explicar sua decisão ele inicia o parecer com a narrativa da peça, contando a “disparatada colocação de uma figura Augusta portuguesa como parceira de falsários”, concluindo em seguida que “se o autor do drama estudasse a história e geografia de Portugal em vez de fazer composições tão absurdas, empregava melhor o seu tempo” [6]. Para ele, as escolhas de Scribe ao escrever o texto são fruto do momento no qual se encontrava a literatura francesa, “versada pela maior parte em desconceituar os reis, o fim não é duvidoso, para consegui-lo desfigura os fatos mais conhecidos, inventa as calunias mais atrozes (…) tudo lhe serve tanto que a palavra rei seja sujada de imoralidades e vício” [7].
O absurdo da obra, aos olhos do censor, é a contrariedade à “verdade histórica” e a difamação de figuras reais. Outro censor do Conservatório, Tomas do Nascimento Silva, por sua vez, opõe-se à representação da obra justamente como forma de manter a honra da família real brasileira, a qual, para ele, o texto punha em xeque. Mas, Silva propõe uma saída, “se a cena fosse figurada em algum dos pequenos estados (…) com nomes que não fizessem a mais pequena alusão podia admitir-se” [8].
Entendidas as possibilidades oferecidas pelo censor, o diretor da companhia francesa submete outra vez a peça à análise, em dezembro de 1846. Mas, agora, os acontecimentos narrados na peça se passam na Dinamarca, em 1387, no final do reinado de Waldemar III e de sua filha Margarida [9], distanciando a possibilidade de ligação histórica da família real brasileira de um ato de contravenção, mesmo que esse ato fosse objeto de uma peça teatral e não em de texto historiográfico.
Para os censores, isso bastou para isentar a peça da acusação de imoralidade. Tudo bem a contravenção se passar numa casa real distante no tempo. No parecer de Camilo José do Rosário, a liberação da peça é justificada pela mudança da situação da cena, transportada para uma época remota, e pela mudança dos nomes de personagens, “e todas as atenções que se pode apontar à Portugal, como ofensivas à Família Real, ficam descartadas com estas alterações em todo o drama” [10], finaliza.
Para garantir que a ilusão do teatro não subverta a História de Portugal, o empresário responsável pelo espetáculo ainda se compromete a modificar o vestuário, colocando todos os artistas com trajes da Idade Média, sem nenhuma referência à cultura e aos costumes portugueses.
Longe dos perigos de macular o nome real português por conta de um “fato histórico” narrado por uma peça teatral, José Pinto Lopez, em seu parecer, afirma que não vê problemas na forma como a obra foi apresentada, até porque é em francês e cantada, então poderia passar [11].
Depois de satisfeitas as exigências da censura do Conservatório Dramático, em 31 do mesmo mês, Diogo Bivar assina o ato de autorização da peça, com a conclusão de que a mesma é liberada, pois “mudaram-se os nomes das personagens, mudaram o lugar da ação e todo o que pudesse ter relação com as atuais casas reinantes do Brasil e Portugal, e mesmo com o reino de Portugal em seu passado”[12].
Apesar das inúmeras colocações que apareceram nos Folhetins sobre o caso, e em comentários de leitores publicados em periódicos, satirizando a ação da censura do Conservatório ao negar um passado possível para si e autorizar um passado distante e menos crível, a missão da censura foi cumprida – a de cercear a narrativa do texto teatral, determinando, assim, a história que achavam conveniente de ser difundida para o grande público.

Notas
[1] Gênero operístico francês.
[2] Instruções para a polícia do Theatro de São Pedro de Alcantara, de que faz menção o aviso desta data 23/08/1839. Seção de Manuscritos, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Doc. I – 30, 06, 075 nº 11.
[3]Biblioteca Nacional, setor de Manuscritos, Papéis avulsos do Conservatório Dramático Brasileiro, L-II-34, 29, 039
[4] Biblioteca Nacional, setor de Manuscritos, Papeis avulsos do Conservatório Dramático Brasileiro,  I-8, 5, 48. Documento 3.
[5] Biblioteca Nacional, setor de Manuscritos, Papeis avulsos do Conservatório Dramático Brasileiro,  I-8, 5, 48. Documento 5.
[6] Biblioteca Nacional, setor de Manuscritos, Papeis avulsos do Conservatório Dramático Brasileiro,  I-8, 4, 55. Documento 1.
[7] Idem, ibidem.
[8] Idem, ibidem.
[9] Biblioteca Nacional, setor de Manuscritos, Papeis avulsos do Conservatório Dramático Brasileiro,  I-8, 5, 48. Documento 73.
[10] Idem, ibidem.
[11] Biblioteca Nacional, setor de Manuscritos, Papeis avulsos do Conservatório Dramático Brasileiro,  I-8, 5, 48. Documento 4.
[12] Biblioteca Nacional, setor de Manuscritos, Papeis avulsos do Conservatório Dramático Brasileiro,  I-8, 5, 48. Documento 5.

Denise Scandarolli – Doutora em Musicologia pela Université Paris IV-Sorbonne e em História pela Unicamp, atualmente realiza estágio de pós-doutorado em Estudos Literários na Université du Québec à Montréal (UQÀM).

1981: Atentado contra Ronald Reagan

No dia 30 de março de 1981, um atentado a tiros feriu o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, que estava a apenas dois meses no cargo.
USA Attentat auf Präsident Ronald Reagan 1981 (picture-alliance/dpa)
Em 30 de março de 1981, Ronald Reagan ocupava há dois meses o cargo de presidente dos Estados Unidos quando foi vítima de um atentado a tiros durante encontro com sindicalistas num hotel em Washington. Imediatamente depois dos primeiros tiros, os seguranças jogaram o presidente no chão. 
Logo após o atentado, emissoras de rádio e televisão americanas anunciavam que Reagan havia sobrevivido.  Segundo as primeiras notícias oficiais, o presidente ficara ileso. No entanto, essas informações logo foram corrigidas, pois um dos seis tiros disparados atingira Ronald Reagan no pulmão esquerdo.
Um membro de sua equipe de assessores declarou que ele estava consciente e em estado regular no Hospital George Washington. Na realidade, seu estado era crítico, mas ele sobreviveu, e também seus dois colaboradores se recuperaram do atentado. Além de Reagan, ficaram feridos o então secretário de imprensa da Casa Branca, James Brady, o agente do serviço secreto Tim McCarthy e o policial Thomas Delahanty. Brady, que levou um tiro na cabeça, acabou ficando paraplégico. Até sua morte, em 2014, ele dedicou a vida a exigir um maior controle sobre armas no país.
Inspirado em Taxi driver
O mundo ficou em choque com o atentado. Uma reação imediata foi a queda das bolsas de valores: afinal, era o segundo atentado contra um presidente americano no século. Ronald Reagan, no entanto, só faleceria em 2004, aos 93 anos, vítima de complicações do mal de Alzheimer.
 Hinckley com dois agentes
John Hinckley foi preso após os disparos
O autor do atentado, John Hinckley, foi preso logo após os disparos. O rapaz, de 25 anos, tinha problemas mentais. Ele era obcecado pela atriz Jodie Foster e a tiranizava através de cartas. Certa vez, chegou a repetir uma ameaça feita no filme Taxi driver, estrelado por ela e Robert de Niro: "Se você não me ama, vou matar o presidente".
Cinco anos mais tarde, ele cumpriu a ameaça. Ao atirar contra Reagan, pretendia impressionar Foster. A atriz, então com 19 anos, ficou tão chocada que se retirou da vida pública. Em tribunal, Hinckley foi considerado inimputável: como doente mental, não podia avaliar as consequências do crime e acabou sendo internado numa clínica psiquiátrica.
Aos 61 anos, foi libertado em setembro de 2016, para morar com a mãe em um condomínio fechado em Williamsburg, Virginia. Um juiz federal  ordenou a libertação de Hinckley do Hospital St. Elizabeth, em Washington, considerando que ele já não representava perigo para si mesmo ou para outros. Hinckley não foi considerado culpado por razões de insanidade em um julgamento em 1982 e foi diagnosticado com depressão e psicose, sendo que ambos estão em remissão, de acordo com seus médicos.
A família de Reagan e sua fundação se opuseram à libertação de Hinckley, alegando ele continuava a constituir uma ameaça "para si e para os outros".  Jodie Foster não fala sobre Hinckley desde 1981.
O tiroteio levou à melhoria dos controles de armas, com um projeto de lei que leva o nome de Brady, que impôs verificação de antecedentes e um período de espera. O Serviço Secreto dos EUA, cujo trabalho é proteger o presidente, também endureceu seus procedimentos de segurança.

domingo, 26 de março de 2017

Instituto Histórico convida para o I Fórum Sul-Brasileiro de IHs


Dos engenhos de açúcar à Carne Fraca: como a pecuária ajuda a contar a história do Brasil



Bois em fazenda na cidade mineira de UberabaDireito de imagemMUSEU DO ZEBU
Image captionPrimeiros bois a chegar ao país também eram empregados nas fazendas de açúcar como bestas de carga e força motriz
Muito antes da Operação Carne Fraca, que denunciou um esquema de corrupção envolvendo frigoríficos e fiscais agropecuários, a pecuária no Brasil era só para os fortes - bois e seus donos.
Encomendados por senhores de engenho, os primeiros bovinos a chegar ao país eram empregados nas fazendas de açúcar do Brasil Colônia como bestas de carga e força motriz, além de fonte de comida e couro.
Segundo o Centro de Referência da Pecuária Brasileira - Zebu, as primeiras reses desembarcam no país por volta de 1534, vindos da então colônia portuguesa de Cabo Verde, na África.
Desde então, a pecuária se tornou um dos setores mais rentáveis da economia brasileira, movimentando R$ 400 bilhões em 2016 - mas a expansão da atividade jamais se dissociou de polêmicas e escândalos.

Ocupação de territórios

Conforme os rebanhos cresciam, o gado deixou de ser usado unicamente na lavoura de cana e se tornou crucial para a ocupação de territórios da jovem colônia.
Em artigo publicado em 1995 na revista Le Portugal et l'Europe Atlantique, le Brésil et l'Amérique Latine, a historiadora Maria Yedda Leite Linhares (1921-2011) remonta o crescimento da pecuária no Brasil às sesmarias, terras distribuídas pela Coroa e destinadas à produção agrícola.
Linhares conta que, para conseguir ocupar os territórios, os sesmeiros costumavam arrendar áreas menores a sitiantes que possuíam rebanhos. Era importante preencher as áreas porque terras livres podiam ser retomadas pela Coroa para serem redistribuídas.
Começa então a grande marcha bovina para o interior: o gado avança de São Vicente (SP) até os campos de Curitiba; de Pernambuco, para o Agreste e o Piauí; da Bahia, para o Ceará, o Tocantins e o Araguaia. Nos séculos seguintes, os rebanhos ocupariam ainda o Semiárido, Minas Gerais, o Rio Grande do Sul, o Cerrado e franjas da Amazônia.
Linhares diz que está superada a noção de que as fazendas de gado pioneiras se caracterizavam pela natureza livre do trabalho de peões e vaqueiros, em contraste com a escravidão nos engenhos de cana.
"Tal avanço sobre a terra nada teve de pacífico, sendo numerosos os registros de reação violenta das populações indígenas à incorporação de sua força de trabalho nas fazendas de gado", ela afirma.
Em Os índios e a civilização, o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) descreve o avanço da pecuária em terras dos povos Timbira, no sul do Maranhão.
Bois em UberabaDireito de imagemMUSEU DO ZEBU
Image captionAlguns mascates fizeram fortuna conduzindo e vendendo pequenos rebanhos de fazenda em fazenda
"À custa de tramoias, de ameaças e de chacinas, os criadores de gado espoliaram a maioria deles, e os remanescentes de vários grupos se viram obrigados a juntar-se nas terras que lhes restavam, insuficientes para o provimento da subsistência à base da caça, da coleta e da agricultura supletiva desses índios."
No século 19, a atividade se transforma com a chegada de raças zebuínas da Ásia, mais adaptadas ao clima tropical. Até então, boa parte do rebanho brasileiro era composto por raças taurinas, de origem europeia.
Alguns fazendeiros do Triângulo Mineiro viajam eles próprios à Índia para buscar os animais, identificados pela presença de corcova (cupim) e pelas orelhas longas.
Outros pecuaristas compram as reses de mascates, vendedores ambulantes que conduzem pequenos rebanhos de fazenda em fazenda. Alguns mascates fazem fortuna e mandam construir palacetes nas principais cidades da região.

Perón e o primeiro impulso à exportação

Nos anos 1940, com a ascensão de Juan Domingo Perón à Presidência da Argentina, novos mercados se abrem para o Brasil.
Pesquisador de pecuária do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da escola de agricultura da USP (Esalq), Sérgio de Zen diz que naquela época a Argentina era a grande fornecedora de carne bovina do mundo.
Ele conta, porém, que o intervencionismo de Perón fez com que multinacionais do setor buscassem o Brasil como alternativa.
É nessa época que empresas como a inglesa Anglo e a americana Swift se instalam no país, trazendo técnicas industriais para o abate e o processamento da carne.
Com o fim da Segunda Guerra (1939-1945), diz Zen, a pecuária se reorganiza na Europa e avança nos EUA e na Austrália. O Brasil sofre com a competição, e as multinacionais deixam o país, pressionadas também pela concorrência com abatedouros clandestinos.
Homem trabalha em frigoríficoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNa década de 1970, a agricultura avançou e até hoje a pecuária é tida como a principal responsável pelo desmatamento da Amazônia
Na década de 1970, o avanço da agricultura pelo Cerrado dá novo fôlego ao setor. Com a correção da acidez dos solos e a introdução de capins mais adaptados ao bioma, a raça zebuína Nelore se consolida como a principal variedade do país.
Hoje o Centro-Oeste é a principal região produtora do Brasil, mas a expansão de capins exóticos - especialmente do gênero braquiária - ameaça a vegetação original remanescente.
A ditadura militar também estimulou a atividade ao promover a colonização da Amazônia. A construção da rodovia Transamazônica (1968-1974) empurrou a fronteira pecuária até o sul do Pará, enquanto a oeste fazendeiros - muitos deles paulistas e gaúchos - substituíam florestas por pastagens em Mato Grosso, em Rondônia e no Acre, às margens da BR-364.
Até hoje, a pecuária é tida como a principal responsável pelo desmatamento da Amazônia. Áreas destruídas pelo fogo podem se tornar pastagens sem grandes custos, e a mobilidade dos bois permite que sejam criados longe de estradas e centros de consumo.
Além disso, o gado criado em áreas desmatadas ilegalmente pode ser abatido e comercializado por frigoríficos regulares, o que dificulta seu rastreamento.
Na Amazônia, assim como em boa parte do Centro-Oeste, os rebanhos têm espaço, água e clima favorável o ano todo, uma grande vantagem competitiva em relação à Europa ou aos EUA, onde os invernos são rigorosos e os animais passam ao menos parte do ano confinados.

Especulação bovina

Mesmo com a expansão territorial, o setor ainda enfrentava turbulências. Entre as décadas 1980 e 1990, nos anos de hiperinflação, o gado se tornou uma alternativa à moeda que desvalorizava rapidamente. Os animais eram comprados e logo revendidos para que se lucrasse com a especulação.
Só após a estabilização da economia com o Plano Real, em 1994, o setor é forçado a se tornar mais eficiente.
Avanços tecnológicos possibilitam que mais bois sejam criados em menos espaço. No fim dos anos 1990, a epidemia de vaca louca na Europa e a de febre aftosa na Argentina abrem espaço para o gado brasileiro.
A pressão de compradores estrangeiros e de ambientalistas quanto ao desmatamento da Amazônia e à qualidade da carne leva a indústria nacional a endurecer o controle sobre o abate.
As autoridades sanitárias também se tornam mais rigorosas. Sérgio de Zen, da Cepea-Esalq, diz que um estudo de 2012 apontou que naquele ano só 6% dos abates ocorriam sem fiscalização.
Homem carrega carne para frigoríficoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionBrasil passou disputar com a Índia o posto de maior exportador mundial de carne bovina e se tornou o segundo maior produtor, atrás dos EUA
Nos anos Lula e Dilma, o governo estimula a concentração do setor com sua política de "campeões nacionais". Sob a gestão de Luciano Coutinho, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) injeta recursos em alguns grupos, que incorporam outros e se tornam gigantes globais.
A Sadia se funde com a Perdigão, dando origem à Brasil Foods (hoje BRF); o Grupo JBS compra as redes de frigorífico Bertin e Independência e passa a controlar algumas das principais marcas do mercado, como Swift, Friboi e Seara.
A financeirização da pecuária atinge níveis inéditos. O Brasil passa a disputar com a Índia o posto de maior exportador mundial de carne bovina e se torna o segundo maior produtor, atrás dos EUA.

Novas técnicas

Pesquisador-chefe da subdivisão de gado de corte da Embrapa, agência de pesquisa subordinada ao Ministério da Agricultura, Cléber Soares diz que hoje a expansão da atividade não necessita de novas áreas.
Ele afirma que nas fazendas bovinas do Brasil se produzem hoje, em média, 90 quilos de carne por hectare ao ano, mas que é possível produzir até 600 quilos com a adoção de tecnologias já disponíveis.
Soares aposta em sistemas que integram, numa mesma fazenda, pecuária, plantações de soja ou milho e florestas comerciais. Hoje boa parte do gado brasileiro se alimenta só de capim. Quando é possível complementar a dieta com cereais, Soares diz que os rebanhos requerem menos espaço.
O pesquisador também aposta no contínuo aperfeiçoamento dos animais e conta que, séculos após importar seus primeiros bois e vacas, o Brasil se tornou o maior exportador de genética bovina do mundo.
Ele diz que, numa inversão de papéis, o país passou a vender inclusive para as regiões a que deve a formação de seu rebanho: hoje raças zebuínas brasileiras são exportadas para a Índia, e raças taurinas nacionais são despachadas para a Europa.
Fonte: BBC

Antes de fevereiro


A profundidade da crise social, econômica e militar na Rússia, somada à consciência política e organização da classe trabalhadora, estavam muito à frente de qualquer outro lugar do mundo no inverno de 1916-1917
“Nós, da geração mais velha, talvez não vivamos para ver as batalhas decisivas da revolução que se aproxima”, avisou Lenin em uma apresentação para um grupo de jovens suíços no 12° aniversário da revolução derrotada de 1905. A justaposição de suas observações e a queda do czar Nicolau II, apenas seis semanas depois, criou o cenário para uma piada clássica do movimento marxista: “Não se atrase para o protesto, pois a revolução pode começar!”
Mas estava claro em sua obra que Lenin, a essa altura, sabia que a situação política em sua pátria-mãe poderia explodir a qualquer momento. Por trezentos anos a dinastia dos Romanov governara, com mão de ferro, um império na Rússia que se expandia sendo os falantes de russo a minoria.
Longe de agonizarem no isolamento, os czares deixaram sua marca reacionária na Europa Ocidental, recrutando vastos exércitos camponeses para apoiar a monarquia e a reação frente aos movimentos democráticos e nacionalistas da Revolução Francesa de 1789 em diante. Os Romanov até conseguiram atingir o topo da lista dos inimigos mortais na frase de abertura do Manifesto Comunista. Ainda assim, na aurora do século XX, as fundações deste império estavam severamente abaladas.
Em sua História da Revolução Russa, Leon Trotsky explica a volatilidade da sociedade russa, apontando o descompasso inevitável do desenvolvimento econômico global. Nicolau estava sentado sobre sobre uma miríade de territórios e povos – um pequeno exemplo disso era seu próprio título oficial: “Imperador e Autocrata de todas as Rússias, de Moscou, Kiev, Vladimir, Novgorod, Czar de Kazan, Czar de Astrakhan, Czar da Polônia, Czar da Sibéria… e Grão-duque de Smolenski, Lituânia… e mais, e mais, e mais”.
Antes de mais nada, o czar era o maior latifundiário dentre a classe dos barões de terras que resistiram por um século ou mais em relação à contraparte feudal da Europa Ocidental – a servidão só foi abolida em 1861. Essa classe de trinta mil aristocratas possuía, aproximadamente, 765 milhões de quilômetros quadrados (as propriedades tinham, em média, 21,85 km²), mais terra do que possuíam 50 milhões de camponeses pobres e médios.
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Vladimir Ilyych Lenin fala a tropas do Exército Vermelho diante do Teatro Bolshoi, em Moscou, em 1920; embaixo à direita estão Leon Trotsky e Lev Kamenev
Além de compor “um programa pronto para a revolta agrária”, os números também denunciavam o aumento da distância entre o poder produtivo Europa Ocidental em processo de industrialização e a Rússia agrária. Preocupado que o atraso tecnológico pudesse colocar em perigo seu poderio militar, o czar apoiou-se nos bancos franceses e ingleses para financiar um exército moderno e altamente centralizado, assim como uma indústria metalúrgica centrada em São Petersburgo e alguns outros lugares. Algumas das maiores fábricas do mundo saíram do solo russo, concentrando em si uma nova classe de pessoas que não tinham nada para vender, senão sua força de trabalho. Em Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, de 1899, Lenin estimava que, por volta de 1890, os trabalhadores assalariados no país somassem dez milhões.
O czar buscou fundir este “amálgama” com a chibata.  Gangues antissemitas, conhecidas como Centenas Negras, rondavam a zona rural aterrorizando judeus, o nacionalismo da Grande Rússia impedia o ensino em línguas locais e as greves eram resolvidas por meio da força militar. Na esperança de conseguir um porto na costa ocidental, ao mesmo tempo em que atiçava o fogo do patriotismo, a coroa declarou guerra contra o Japão, em 1904, mas os equipamentos e estratégia superiores dos japoneses logo despertaram o ímpeto da oposição interna.
Em nove de janeiro de 1905, centenas de milhares de trabalhadores, estudantes, e pobres marcharam atrás de um eclesiástico, Padre Gapón, implorando que o czar diminuísse o fardo que carregavam. Eles foram recebidos com baionetas e munição real que deixou centenas de pessoas sangrando até a morte nas ruas.
O “ensaio geral” de 1905, como ficou conhecido, expôs uma indignação social multifacetada: campesinato contra latifundiários, trabalhadores contra patrões e, virtualmente, o país inteiro (incluindo alguns setores da classe média e até alguns capitalistas) contra a monarquia.
Ao final de tudo, os marinheiros amotinaram-se no Encouraçado Potemkin, camponeses incendiaram mansões em um sétimo das províncias, e uma nova frase passara a integrar a consciência da esquerda internacional, como Lênin definiu, “formou-se uma peculiar organização de massa, o famoso Soviete de Deputados Operários, reunindo delegados de todas as fábricas”.
Rosa Luxemburgo – uma das fundadoras da Social Democracia do Reino da Polônia e Lituânia – generalizou para além das condições russas, anunciando a “greve de massas [como] a primeira forma natural, impulsiva, de toda a luta revolucionária do proletariado”.
Em meio à revolução, a esquerda socialista desabrochou. Nos anos que antecederam o famoso Congresso do Partido Operário Socialdemocrata Russo, em 1903, quando os bolcheviques e mencheviques uniram-se e, em seguida, se dividiram – e onde se deram também as complicadas negociações com muitas organizações socialistas de base étnica, tais como judeus, poloneses, finlandeses e outras nacionalidades – havia, talvez, cerca de dez mil partidários afiliados nas diversas facções. Até o chamado Congresso da Unidade, na primavera de 1906, outras dezenas de milhares de filiações ocorreram, e até o Congresso do Partido Operário Socialdemocrata Russo (incluindo suas ramificações nacionais), de 1907, os membros subiram para quase 150 mil, apesar da repressão brutal.
De tão aterrorizado que estava, o czar concedeu uma concessão à revolução, uma espécie de parlamento de brinquedo chamado Duma. Inicialmente, os trabalhadores urbanos sequer tinham o direito a voto aí, embora o corpo depois tenha sido alterado possibilitando a eleição de um delegado para cada dois mil latifundiários, frente à razão de noventa mil para a eleição de delegados entre os trabalhadores. Essa migalha oferecida era mais do que o desejado por Nicolau e ao mesmo tempo, sequer próximo do suficiente para aplacar a revolução; o Estado, então, transformou a Rússia em um cemitério – quinze mil pessoas foram executadas, vinte mil feridas, quarenta e cinco mil exiladas. O sangue aplacou o fogo, ao menos por um tempo.
No começo de 1912, as greves estavam em alta novamente até que a tampa estourou em uma cidade siberiana de mineração de ouro chamada Lena, onde tropas czaristas atiraram contra centenas de grevistas. A classe trabalhadora ressurgiu como uma fênix das cinzas, os partidos socialistas expandiram-se novamente, e as greves proliferaram. Em 1914, o jornal socialista Pravda tinha uma circulação diária de trinta a quarenta mil exemplares – em um país predominantemente analfabeto.
O verão de 1914 testemunhou a Rússia tensionada ao limite – o status quo tornara-se insustentável. Nicolau declarou guerra à Alemanha em 19 de julho de 1914. Desta vez, mais do que um conflito contido com o Japão na sua fronteira oriental, a guerra contra a Alemanha e o Império Austro-Húngaro trouxe a fome e a pestilência às portas da monarquia. 
No entanto, nos primeiros dias da guerra, uma onda de entusiasmo patriótico sustentou o posicionamento do czar. Centenas de milhares de garotos e jovens camponeses correram para juntar-se ao exército e os grupos nacionalistas polvilhavam as praças das cidades e das vilas.
Ao mesmo tempo, todos os conflitos que conduziram a 1905 voltaram a efervescer. A Grande Guerra entregava “túmulos compactos”[1] para as massas russas em uma escala quase impossível de imaginar. A I Guerra Mundial patrocinou o espetáculo do sistema social mais atrasado e subdesenvolvido do continente, enfiado até a cabeça em uma luta de vida ou morte com a mais avançada economia industrial do mundo. Os resultados foram aterradores.
Três milhões de soldados do exército imperial do czar morreram, outros quatro milhões foram feridos, e algo em torno de três milhões de civis morreram por causas relacionadas à guerra – isso tudo numa população aproximada de 175 milhões. Frente à tecnologia militar alemã, o czar enviou centenas de milhares de soldados precariamente armados e mal equipados para a morte certa. Ao longo dos invernos de 1915, 1916, e 1917, dezenas de milhares de soldados simplesmente morreram congelados em suas trincheiras.
Enquanto isso, a corte real afundava em novos níveis de devassidão. Um eclesiástico místico chamado Grigori Rasputin detinha o controle sobre a czarina Alexandra, exigindo que seu marido punisse todos os sinais de deslealdade, tal como Ivan, o Terrível havia feito. A influência dele era tamanha que os aristocratas russos o assassinaram, na esperança de reconquistar a influência sobre Nicolau e sua política de guerra. Tendo, por séculos, bebido do poço real, os barões agora temiam ser envenenados por seu corpo político putrefato. Como Tsuyoshi Hasegawa relata, o casal real “recusava-se a entender o mundo exterior”.
Os levantes camponeses aumentaram conforme a guerra se arrastou, assim como em 1905, mas agora eles já se concentravam em uma nova forma; a dizer, no conflito entre os oficiais da aristocracia e os soldados camponeses nas trincheiras.  Cada vez que um oficial ordenava um avanço suicida sob fogo alemão, não eram somente as vidas desses soldados do campo que estavam em jogo, mas também o próprio futuro da família que dependia do retorno dos seus filhos ao lar, tanto para o cuidado como para o trabalho. Além disso, alimentar o exército tirava o sustento das famílias rurais e as sementes para as colheitas do ano seguinte.
Talvez Nicolau, ou pelo menos a monarquia, sobrevivesse à crescente raiva do campesinato, às catastróficas perdas militares, e ao descontentamento dentro de sua própria classe. Porém, um inimigo ainda mais potente se erguia. Assim como a guerra enchera as trincheiras de sangue, ela enchera São Petersburgo de proletários. A mesma classe trabalhadora que havia lutado contra o regime até o impasse de 1905 e que sofrera terrivelmente por seus esforços, era responsável agora por produzir e distribuir cada rifle, cada projétil, cada estojo, cada vagão, dos quais dependia a guerra do czar.  E mais: Nicolau não tinha escolha senão fortalecer esse adversário.
Hasegawa relata que, entre 1914 e 1917, o número de trabalhadores em São Petersburgo cresceu de aproximadamente 242 mil para 392 mil, algo próximo de 62%, sendo as mulheres um quarto de todos os trabalhadores. As greves esfriaram no começo patriótico da guerra – por exemplo, enquanto aproximadamente 110 mil trabalhadores entraram em greve antes da guerra, em 1914, em homenagem ao Domingo Sangrento, apenas 2.600 pararam em 9 de janeiro de 1915. Entretanto, conforme os esforços de guerra colapsavam, as greves voltaram se proliferar. Em um período de seis meses, entre setembro de 1916 e fevereiro de 1917, por volta de 589.351 trabalhadores pararam e cerca de 80% deles participavam de greves políticas.
Além disso, em meio a esse movimento de massas, as obstinadas organizações socialistas construíram uma longa luta para implantarem-se entre os trabalhadores. Milhares de revolucionários perderam suas vidas em 1905, ou em decorrência da repressão que se seguiu; outros milhares foram recrutados e enviados para o front em uma tentativa de expurgar o movimento operário de organizadores forjados no calor da batalha. Na verdade, a polícia czarista chegou perigosamente perto de erradicar a esquerda socialista organizada em diversos momentos; no entanto, as sementes de mais de uma dúzia de anos de confrontos, organização de partidos clandestinos e educação socialista tinham firmado raízes.
Ao contrário da Alemanha e da França, nas quais as lideranças das organizações socialistas mais importantes apoiavam suas próprias classes dominantes na I Guerra Mundial, a maior parte do movimento socialista russo adotou princípios internacionalistas contrários à guerra. Como um todo, São Petersburgo estava repleta de socialistas revolucionários, organizados em grupos operacionais em diversos estados de competição e cooperação, incluindo bolcheviques, mencheviques, internacionalistas,[2] SRs, e até anarquistas.
É claro que, dentre eles, havia alguns patriotas sociais famosos, sendo o mais notável o líder menchevique direitista Georgi Plekhanov, o “pai do marxismo russo”, que, tanto Lenin quanto o menchevique-internacionalista Julius Martov, um dia consideraram como mentor.
Por fim, as primeiras semanas de 1917 chegaram perto de encontrar o que Lenin sugeriu serem as premissas para a “lei fundamental da revolução”, ou seja:
“Somente quando as ‘classes baixas’ não quiserem viver da maneira antiga e as ‘classes altas’ não conseguirem sustentar a velha forma é que a revolução poderá triunfar”.
No Império russo, a classe trabalhadora não estava sozinha na resistência contra as condições surgidas da guerra.  Karl Liebknecht rompeu com a liderança pró-guerra do Partido Socialdemocrata Alemão e votou contra os financiamentos à guerra no parlamento; na cadeia, Rosa Luxemburgo escreveu o Panfleto Junius; soldados franceses e alemães declararam uma trégua unilateral de Natal e a esquerda do Partido Socialista Americano e a Trabalhadores Industriais do Mundo[3] opôs-se veementemente à vontade bélica de Woodrow Wilson.
No entanto, a profundidade da crise social, econômica e militar na Rússia, somada à consciência política e organização da classe trabalhadora (em conjunto com as crescentes revoltas entre os soldados, camponeses, estudantes e nacionalidades oprimidas), estavam muito à frente de qualquer outro lugar do mundo no inverno de 1916-1917.
Acima de tudo isso, havia a bela ilusão (se não universalmente difundida, ao menos suficientemente comum) que mantinha unido o amplo movimento anticzarista. Isto é: decepar a cabeça da monarquia para que a paz, a democracia e a prosperidade possam chegar à Rússia.
Não demorou muito para o movimento revolucionário russo colocar sua teoria à prova. Fevereiro foi apenas o começo.
 Notas
[1] Graças à grande quantidade de cadáveres, os túmulos eram feitos quase sem espaço entre um e outro. (N. T.)
[2] Internacionalistas ou mejraióntsy eram uma facção independente do Partido Social Democrata Operário Russo. Em abril de 1917, o grupo decidiu unir-se aos Bolcheviques. (N. T.)
[3]  Industrial Workers of the World (IWW), central sindical americana fundada em 1905. (N. T.)

*Publicado originalmente no site Jacobin e traduzido por Rafael Bonavina para o blog Junho.
Fonte: Opera Mundi