sábado, 16 de setembro de 2017

Seleção de Voluntários - AHR


O Arquivo Histórico Regional (AHR), laboratório vinculado ao Programa de Pós-Graduação em História da UPF, abre vagas para voluntários visando a iniciação dos graduandos da UPF  em atividades de gestão e organização de arquivos.  As atividades compreenderão aspectos teóricos e práticos envolvendo a conservação do acervo documental e bibliográfico, o que implicará no treinamento dos voluntários em técnicas de conservação, higienização e digitalização do acervo. O acompanhamento e avaliação dos estagiários, e estagiárias, será feito pela coordenação do AHR em conjunto com os funcionários. 

Público alvo

Graduandos do Curso de História e cursos afins da  Universidade de Passo Fundo que tenham conhecimentos básicos de informática. Máximo de voluntários no período: 5.

Exigências

Ser acadêmico da UPF e realização de trabalhos em um turno semanal (escolhido pelo pretendente e equipe AHR), por dois meses ininterruptos. 

Certificação

Os voluntários que cumprirem o período proposto receberão certificação emitida pela Coordenação do AHR, totalizando 30 horas de atividades teórico-práticas. 
ATENÇÃO: Havendo interrupção das atividades não será emitido certificado parcial!

Inscrição

Os pretendentes devem enviar os documentos e informações abaixo relacionadas ao email ahr@upf.br até o dia 29 de setembro.

  • Histórico do Boletim Acadêmico
  • Currículo 
  • Endereço completo
  • Contatos: fone e email
  • Justificativa de interesse em participar como voluntário (carta de intenções)
  • Indicação do turno preferencial para realização das atividades voluntárias (matutino ou vespertino)
Cronograma

Até 29 de setembro - envio dos documentos e informações ao email AHR
Até 03 de outubro - entrevista com candidatos e seleção dos voluntários na Coordenação de História
A partir de 09 de outubro - início das atividades 
Até 09 de dezembro - fim das atividades
Até 20 de dezembro - emissão de certificação pela coordenação do AHR

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Resultado da seleção para estagiário no AHR

Prezados colegas,
após a entrevista com cada candidato ficou definida a seguinte ordem de classificação:

SELECIONADO 
Alex Lourençato

SUPLENTES (caso haja desistência da vaga)
João Vitor da Costa Benedetti
Vítor Mateus Viebrantz

Agradecemos a todos os inscritos!
Att. Gizele Zanotto
Coord. AHR

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Alunos de História realizam Módulo II da Oficina de Pesquisa e Ensino de História




Nesta terça-feira, 12 de setembro, alunos do curso de História - finalistas do curso - participaram do Módulo II da Oficina de Pesquisa e Ensino de História, desta vez dedicada ao tema Interpretação, síntese e escrita histórica, atividade ministrada pela professora Marlete Dietrich (PPGL-UPF).

Destinada aos graduandos do Curso de Graduação em História, a Oficina de Pesquisa e
Ensino de História é constituída de 4 módulos que agrupam grandes temas, divididos em nestes encontros: informática, historiografia, metodologia da pesquisa e do ensino de história, e escrita historiográfica. Esta oficina apresenta as atividades de forma clara, buscando fazer ligações entre os conhecimentos dos alunos e visa dialogar com as diversas disciplinas em curso, transversalisando numa perspectiva de formação integral e global. Desenvolver-se-á pela metodologia de interpretação, síntese e escrita histórica, bem como atualização de temáticas de gênero, etnicidade, imigrações/migrações, religiosidade, meio ambiente, cotidiano, política, entre outros, sob atividades diversificadas e experimentais etc.

A atividade está sob coordenação da professora Ironita Machado e ainda prevê dois módulos: Historiografia e Metodologia de pesquisa e do ensino de história e Historiografia e Metodologia de pesquisa e do ensino de história: temas transversais.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Turma do IV nível do Curso de História visitou Teatro Múcio de Castro e Instituto Histórico de Passo Fundo



Na noite de 1 de setembro de 2017, uma turma de estudantes do Curso de Graduação em História da UPF participou do lançamento do documentário "Mãos que desenham a cidade", no Teatro Municipal Múcio de Castro, um dos dez episódios produzidos pelo programa Momento Patrimônio, coordenado pela profa. Ironita Machado, em comemoração aos 160 anos do município de Passo Fundo. Logo depois, a turma ouviu os comentários do historiador Fernando Miranda e visitou a sede do Instituto Histórico de Passo Fundo (IHPF), sob a orientação do mestrando Djiovan Carvalho.

Estas atividades educativas fazem parte da programação da disciplina Prática e Estágio I de Arquivos e Museus. A turma visitou, semanas antes, o Museu Zoobotânico Augusto Ruschi (MUZAR) e visitará, a seguir, o Museu de Artes Virtuais Ruth Schneider, o Museu Histórico Regional e o Arquivo Histórico Regional. Neste último, fará pesquisa documental durante alguns turnos.

1977: Guilhotina é usada pela última vez na França


Hamida Djandoubi foi o último executado com a guilhotina; pena de morte foi abolida no país em 1981
Em 10 de setembro de 1977, a última pessoa a ser guilhotinada foi executada na França: Hamida Djandoubi, condenado à morte por tortura e estupro seguidos de morte, foi decapitado na prisão de Baumettes, em Marselha. A pena de morte seria abolida na França em 30 de setembro de 1981. A última execução pública remontava a 1939.

Em 28 de novembro de 1789, o médico Joseph Guillotin apresentou aos deputados da Assembleia Constituinte uma nova máquina para executar os condenados à morte. O engenho, projetado e fabricado em colaboração com o cirurgião Antoine Louis, era, segundo seus inventores, o meio “mais seguro, mais rápido e menos bárbaro”. Seria inicialmente chamado de 'Louison" ou "Louisette". No entanto, muito rapidamente, os parlamentares e os jornalistas apelidaram o invento de “guilhotina” ("guillotine"). O povo acrescentaria outro apelido: “a viúva”. A primeira execução aconteceria em 25 de abril de 1792, aplicada a um assaltante, Nicolas-Jacques Pelletier.
Wikicommons

Execução com uso da guilhotina em Lons-le-Saunier, leste da França, em 1897

 
O projeto de Guillotin, apresentado com o apoio de Mirabeau, não foi imediatamente aprovado. Mais um passo foi dado, em cinco de junho de 1791, com a lei que abolia a forca, a espada e a roda, bem como as torturas. O decreto estabeleceu que "todo condenado a morte terá sua cabeça cortada". Durante o Terror, de setembro de 1793 a julho de 1794, cerca de 50 guilhotinas seriam instaladas na França e quase 20 mil pessoas seriam executadas
A igualdade era uma das máximas da Revolução de 1789, inclusive na pena de morte. A intenção original de Guillotin foi declarada em um projeto que apresentou na Assembléia, baseado no princípio da uniformização das sentenças. "Os crimes do mesmo gênero serão punidos pelo mesmo gênero de pena, não importando a origem social do culpado". Para democratizar as penas de morte, Guillotin sugeriu a construção de um engenho para tal fim. "A mecânica tomba... a cabeça voa, o sangue jorra, o homem não existe mais". Por isso, passou o resto da sua vida tentando inutilmente desassociar o seu nome da máquina de matar.
Fonte: Opera Mundi

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Aula aberta do curso de História debaterá os 500 anos da Reforma Protestante


A Universidade de Passo Fundo (UPF) promove, por meio do curso de História e do Programa Pós-graduação em História, uma aula aberta sobre “Os 500 anos da Reforma Protestante”. O palestrante convidado será o professor Martin N. Dreher. A atividade acontece a partir das 20h no Centro de Eventos no Campus I da UPF. O evento é aberto a todos os interessados e não demanda inscrição prévia.

A Reforma Protestante está completando 500 anos em 2017, quando Martinho Lutero rompeu com a Igreja Católica, provocando profundas transformações na sociedade e criando milhares de igrejas evangélicas reformadas.

Integra também a programação desta data o lançamento do livro "A Religião de Jacobina" (Ed. Oikos) de Martin N. Dreher, que ocorrerá às 18h30min no Centro de Eventos.

O palestrante
O professor Martin N. Dreher é graduado em Teologia pela Escola Superior de Teologia, São Leopoldo. Possui doutora em História da Igreja em Ludwig-Maximilians-Universität München (1975), Alemanha, com a tese Igreja e Germanidade: Estudo crítico da história da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (1975).

A temática da tese determinou suas pesquisas futuras, suas conferências e publicações, mormente dedicadas à História da Igreja e à História da Colonização e Imigração na América Latina. Dedicou-se também ao estudo da Reforma Religiosa do século XVI e à publicação de fontes para o estudo do período. De 1978 a 1994 foi professor de História da Igreja e História do Dogma na atual Faculdades EST e de 1995 a 2011 na Unisinos - Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, RS, nos cursos de graduação e pós-graduação em História.

Dreher está aposentado desde 2011 e é membro de diversas associações científicas e vem se dedicando à produção textual relacionada com História da Igreja e da Imigração e Colonização na América Latina.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O ensino de História Regional nas escolas brasileiras

Em tempos de reformas educacionais profundas e apressadas no Brasil, como o Novo Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular, a História Regional mantém o seu vigor.

Por Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira
Com as inúmeras mudanças que ocorreram no mundo e no Brasil nos últimos anos, a escola deixou de ser atraente para muitos alunos. Como consequências, por exemplo, vemos o aumento da evasão escolar, da violência e dos índices de reprovação. Vários fatores ajudam a entender este fenômeno. Um deles é o ensino de conteúdos desvinculados do cotidiano dos estudantes. O Ensino de História, neste sentido, não é uma exceção. Muitas vezes, os conteúdos abordados em sala de aula ou nos materiais didáticos privilegiam uma História bastante distante da realidade de boa parte daqueles que estão em sala de aula.
Nos últimos anos, no entanto, esse cenário parece dar sinais de mudança. Embora o processo de globalização tenha contribuído para a valorização da História Global em detrimento da História Regional, alguns teóricos, entre os quais Stuart Hall, têm colaborado para problematizar algumas questões que, se não estavam extintas, encontravam-se adormecidas, como, por exemplo, as identidades regionais e as identidades étnicas. Assim, as Ciências Sociais, entre elas a História, produziram pesquisas com enfoques teóricos e metodológicos com base no elemento local ou regional. [1]
Local, regional, global – categorias que dialogam. Foto: Pixabay
A História Regional, segundo José D´Assunção Barros, constitui-se em uma maneira de abordar a História, de fazer (no sentido de escrever/produzir), que, neste caso, dá especial atenção ao uso das fontes regionais. Sua preocupação se volta para um espaço regional, que não necessariamente esta “associado a um recorte administrativo ou geográfico, podendo se referir a um recorte antropológico, a um recorte cultural ou a qualquer outro recorte proposto pelo historiador de acordo com o problema histórico que irá examinar”. Seu interesse central é observar este espaço regional ou as relações sociais que ocorrem em seu seio. Após esse procedimento adota-se a comparação com “outros espaços similares” ou insere o regional em um “um universo maior (o espaço nacional, uma rede comercial)”. Desta feita, a questão que diferenciaria a História Regional da História Local seria a comparação, uma vez que a História Local teria uma perspectiva de estudar “a realidade microlocalizada por ela mesma”. [2]
Enquanto característica de produção, grosso modo, teríamos historiadores de profissão escrevendo História Regional, enquanto os memorialistas se concentrariam na História Local. Segundo Jurandir Malerba, os primeiros memorialistas, cronistas medievais, teriam surgido na França entre os séculos XIII e XIV. No Brasil, teriam aparecido com mais propriedade na virada do século XIX para o XX, como fruto das transformações socioeconômicas que ocorriam no país por conta do processo de urbanização. Desta feita, nas regiões que sofriam estas mudanças, surgiram intelectuais que começavam a registrar estas alterações em suas localidades. [3]
Maria de Lourdes Janotti destaca algumas características na escrita memorialistas, como por exemplo: a) uma produção mais voltada para textos biográficos, na qual suas experiências pessoais e o senso comum são a fonte de suas narrativas; b) podem fazer uso de arquivos, porém não se preocupam em divulgar a origem de suas informações; c) usam de estilo literário rebuscado, dando especial ênfase aos grandes acontecimentos de suas localidades e dos grandes personagens/heróis locais e; d) a produção é justificada pelo fato de a história local ser digna de se tornar eterna e por isso deve ser escrita e perpetrada pelas gerações futuras. [4]
Vejamos, agora, porque olhar a História pelo viés da História Regional pode ser uma boa oportunidade para os professores de História reconquistarem o interesse dos alunos.
O Ensino de História e os PCN’s
Em 26 de junho de 1998, por meio da Resolução CEB nº 3, o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação (MEC), instituiu os chamados Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNs), entre os quais o de Ciências Humanas e suas Tecnologias, no qual a disciplina História estava presente. Quatro anos mais tarde, em 2002, o mesmo ministério lançou o PCN+, seu objetivo geral era complementar as orientações que haviam sido dadas nos PCNs e oferecer novas abordagens metodologias para abordagem dos conteúdos, tendo especial atenção à interdisciplinaridade e a contextualização. Os documentos, que passaram a orientar o Ensino Médio no país, provocou alterações importantes em diversas disciplinas escolares. No campo da História, os PCN recomendavam, entre outras medidas, o uso da perspectiva da História Regional, recomendação esta existente desde a década de 1930, mas que até aquele momento não era aplicada plenamente nas escolas.
No que pese a pouca participação dos professores na elaboração dos dois documentos, o PCN, dentro da disciplina História, destacava que a História Regional não deveria ser tratada nas escolas como um conteúdo isolado e nem tampouco como a fração estanque de uma disciplina. A História Regional, segundo o documento instituído pelo Governo Federal na época, constitui uma ferramenta metodológica importante para compreensão do mundo no qual o aluno está inserido. Os conteúdos de História mais amplos e gerais, sejam da História do Brasil ou da História geral, devem ser trabalhados a partir da realidade dos alunos por meio da História Regional. Tal procedimento permite abordar a multiplicidade de realidades e o “outro”, isto é, permitir que o aluno reconheça os diferentes indivíduos e que reconheça tal diferença como legítima.
A História Regional, sublinha ainda o PCN, deveria ser trabalhada não em oposição à Nacional e geral, mas de forma relacional. Desta forma, ela permitiria construir um discurso menos “totalizante” e que fosse capaz de mostrar as especificidades regionais. A proposta também foi defendida por Márcia Gonçalves. A autora destacou que a História Regional redimensiona a dicotomia centro/periferia e torna possível escrever uma outra História Nacional, que problematiza a construção da unidade denominada “Brasil” em suas dimensões territorial e política. [5]
Possibilidades da História Regional
Como estabelecido em tais documentos, também acredito que o ensino da História Regional deve contribuir para a formação de uma identidade que valorize as experiências vivenciadas pelos alunos e que faça com que estes reconheçam-se como agentes sociais de um mundo que pode ser transformado – tornando-se, portanto, cidadãos. A partir da perspectiva da História Regional é possível introduzir o aluno de modo ativo na sociedade a qual de fato pertencem, levando- a entender o quanto de sua vida é construída e o quanto de elementos externos ele tem dentro de si. É neste campo mais restrito que as relações sociais aparecem com maior nitidez – e no qual podemos distinguir com mais clareza a construção das identidades sociais e dos sentimentos de pertencimento. Ao mesmo tempo, é a partir desta chave que se pode resgatar experiências coletivas e particulares ligadas a um determinado espaço geográfico, seja o regional ou o local. A identidade, afinal, segundo Gonçalves, é construída a partir da História Regional. Mais ainda, a História Regional e a identidade nos auxiliam a dar eco às múltiplas possibilidades da vida cotidiana e sentido aos diversos mundos possíveis. Desta forma, a História Regional deixa de ser um mero conteúdo – ela se transforma em recurso didático.
Diana Briceño enfatiza que o conceito de identidade social compreende os conceitos de identidade cultural e identidade étnica, estando ambas ligadas a um território e a um passado coletivo. A autora destaca que o apego à região passa pela infância e pelo contato do indivíduo com a família e com a sua vizinhança, pela assimilação das tradições, pelas crenças e pelos costumes, entre outros elementos. Desta forma, enfatizar a História Regional permite aos alunos um contato com suas raízes e com o passado da sua comunidade, definida por uma série de fatores acumulados ao longo das gerações. [6]
Esse debate é fundamental para se pensar a revalorização da História Regional no currículo de História, haja vista que a “tradicional” História globalizante, ainda presente nos livros didáticos distribuídos pelo MEC e, ao que parece, ainda presente na recente Base Nacional Comum Curricular (BNCC), não é capaz de atrair os alunos.
A História Regional e os “novos” personagens
Como salienta Francisco Ribeiro da Silva, a valorização da História Regional não se dá apenas no Brasil. O fenômeno ocorre também na Europa, no centro do mundo ocidental, devido a alguns fatores, a saber: a) Estados-nações têm se dado conta de que, num mundo globalizado, o que vai manter sua identidade e individualidade é a cultura e não a economia; b) a permanência dos regionalismos e das regiões, assim como de suas identidades, posto que as nações não são mais justificadas pelo nacionalismo exacerbado do século XIX e; c) o peso do centro está cada vez menor; as periferias estão cada vez mais ativas e reivindicativas, exigindo políticas públicas para o seu desenvolvimento. [7]
Silva também destaca que a História Regional serviria para desenvolver a consciência cívica, a integração e a intervenção na comunidade; valorizar aspectos comuns e diferenças que podem diminuir rivalidades locais; despertar o amor à terra e perceber que a nação é feita de partes que devem ser descobertas e expostas ao todo.
A História Regional, conforme podemos ver, permite trazer “novos atores” para o campo da História. Alguns personagens que, quando muito, eram secundários ou que tradicionalmente eram totalmente “negligenciados” pela História tradicional, podem, a partir do prisma da História Regional, ser incluídos no processo histórico, caso dos ameríndios, das mulheres, das crianças, dos trabalhadores, dos escravos etc. Um avanço nesta direção é a Lei 10.639/2003, que determina o ensino da cultura e da história afro-brasileira e africana no Ensino Básico, lei esta expandida cinco anos depois pela Lei 11.645/2008, que acrescentou a temática indígena. As duas leis permitiram que negros e indígenas se tornassem personagens mais presentes e ativos nas narrativas historiográficas, até então dominada por protagonistas brancos e europeus.
Algumas considerações finais
Algumas perguntas são importantes: como podemos resgatar as experiências regionais na História, já que nem sempre o espaço é determinado por um passado mítico nacional e nem sempre a sua temporalidade se vincula a esta História? Ou ainda: porque determinados eventos da História Regional se convertem em eventos da História Nacional?
Apesar da qualidade dos trabalhos a respeito da História Regional, é difícil responder a tais perguntas. A História Regional no Brasil ainda engatinha. Deste modo, a lição lançada pelo Manifesto publicado na Revista Arrabaldes, em 1988, não foi incorporada à prática docente. [8]Naquela oportunidade, historiadores já consagrados, como Maria Yedda Linhares e Leandro Konder, entre outros, apoiaram propostas como essa, enfatizando que se deveria dar mais atenção aos estudos de História Regional e local. O que nos obriga a voltar a pensar nestas perguntas e em suas respostas dentro de um quadro mais amplo da História Regional no Brasil. Como pensar a história de municípios e/ou de regiões mais distantes espacialmente, temporalmente ou historicamente falando das capitais de seus estados? Como pensar a história destes estados que se apresentam distantes da História nacional, conduzida pelo eixo sul-sudeste?
Acredito, como muitos outros historiadores, que não há uma fórmula pronta, acabada e única que possa ser aplicada pelos historiadores regionais, sobretudo por aqueles professores de História que se predispõem a fazer uso da História Regional em sala de aula. Mas, se há uma coisa que todos podem fazer, é aceitar o desafio de estimularem os alunos a produzirem as suas próprias histórias. Só assim se poderá dar voz aos “novos” personagens da narrativa historiográfica (mulheres, sertanejas, negras, indígenas, orientais, crianças e etc.), fazendo com que não apenas a escola e a história façam sentido, mas também este novo cenário marcado pela globalização, pela redemocratização. Somente assim o aluno será capaz de se identificar com a História ensinada nas aulas.

Notas
[1] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
[2] BARROS, José D´Assunção. O campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 132 e ss. Citações pp. 152-153.
[3] MALERBA, Jurandir. “Notas à margem: a crítica historiográfica no Brasil dos anos 1990”. Textos de História, v.10, n.1/2, 2002.
[4] JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. “Historiografia, uma questão Regional? São Paulo no Período Republicano, um exemplo.” In: SILVA, Marcos (coord.). República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo: Editora Marco Zero, 1990. pp. 81- 101.
[5] GONÇALVES. Márcia de Almeida. “História local: o reconhecimento da identidade pelo caminho da insignificância”. In MONTEIRO, A. M. e GASPARELLO, A. M. e MAGALHÃES, M. S. (orgs.). Ensino de história: sujeitos, saberes e práticas. Rio de Janeiro: Mauad, 2007, pp. 175-185.
[6] BRICEÑO, Diana. “Los problemas que plantea la escritura de textos de Historia regional”. In Revista Iberoamericana de Educación, nº 41/2 – 10 de enero de 2007.
[7] RIBEIRO DA SILVA, Francisco. “História local: objetivos, métodos e fontes”. In Acta de Conferência Nacional. Porto: Universidade do Porto: Faculdade de Letras, 1999.
[8] Ver: https://pt.scribd.com/document/96193345/Manifesto-Arrabaldes

Sugestões Bibliográficas
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. Nordestino: uma invenção do falo; uma História do gênero masculino (Nordeste – 1920/1940). Maceió: Editora Catavento, 2003.
BARROS, José D´Assunção. O campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2010.
BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio. Brasília, 1999.
BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCNs+ Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 2002. 144 p
BURKE, P. (org.). A Escrita da história – Novas perspectivas. São Paulo: Edusp, 1992.
COLETIVO EDITORIAL ARRABALDES. “Manifesto Arrabaldes”. In Revista Arrabaldes. Rio de Janeiro: Petrópolis (RJ): ano I, nº 1, maio/agosto 1988, pp. 4-10.
MARTINS FILHO, Amilcar Vianna. Como escrever a história da sua cidade. Belo Horizonte: ICAM,2005.
MOREIRA, Luiz Guilherme S. & AZEVEDO, Maria Catarina da Silva. Atlas Histórico e Geográfico Escolar de São Pedro da Aldeia. São Pedro da Aldeia (RJ): Secretária Municipal de Educação de São Pedro da Aldeia, 2013. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/113279076/Atlas-SPA. Acessado em abril de 2017.
MOREIRA, Luiz Guilherme S. & CARNEIRO, Janderson Bax. Os índios na História da Aldeia de São Pedro de Cabo Frio – séculos XVII-XIX. Rio de Janeiro: Grafline, 2010.

Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira é Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professor da Universidade Veiga de Almeida (2010-2016); Professor das redes municipais de Armação dos Búzios e de Cabo Frio. Entre os trabalhos em História Regional destaca-se: Cabo Frio: 400 anos de história. Brasília: IBRAM, 2017; e o documentário A Pesca Artesanal em Armação dos Búzios (IPHAN). Menção Honrosa no Concurso de Monografias (Arquivo Geral do Rio de Janeiro, 2010).

1938 - Sob liderança de Trotsky, IV Internacional é fundada em Paris


Congresso de fundação contou com 30 delegados, representando 12 países

Em 3 de Setembro de 1938, num pequeno subúrbio nas vizinhanças de Paris, era fundada, sob a liderança de Leon Trotsky, já então expulso da União Soviética, a IV Internacional. Cerca de 30 delegados, representando 12 países, compareceram ao congresso de fundação, entre eles o brasileiro Mário Pedrosa.

Trotsky considerava o surgimento da IV Internacional a maior obra de sua vida. É de se estranhar, a um exame inicial, que a organização fundada por um punhado de pessoas originárias de outro punhado de países, parecesse a Trotsky um fato de suma importância. Trotsky, ainda que egresso do menchevismo, fora uma liderança bolchevique importante na Revolução Russa de 1917, tendo presidido inclusive o soviet de São Petersburgo, capital da Rússia à época.

Lênin confia então a Trotsky a formação de unidades militares – que viriam a se chamar de Exército Vermelho – a fim de combater o exército branco e forças militares invasoras de treze países estrangeiros, entre eles as principais potências imperialistas, na Guerra Civil Russa (1918-1922).

Vitorioso, Trotsky, reconhecido como um intelectual de brilho, com ligações com a elite intelectual interna e externa, impõe-se como um dos principais líderes da Revolução Bolchevique, já no comando da nação.

Com a morte de Lênin em abril de 1923, abre-se uma aguda luta interna pelo poder entre os partidários de Trotsky e os de Stálin. Os defensores desse último vencem a queda de braço e o elegem em congresso do Partido Comunista Bolchevique seu secretário-geral. A disputa se acirra, acabando com o exílio e posterior expulsão de Trotsky da União Soviética.

A importância dada à IV Internacional por Trotsky pode residir na frase inicial do Programa de Transição, manifesto de fundação da organização, de sua autoria: “A crise da humanidade é a crise da direção revolucionária”.

As internacionais anteriores haviam nascido a partir dos movimentos sociais e do fortalecimento dos sindicatos de trabalhadores e de seus partidos. Em particular, a III Internacional teve como berço o triunfo da Revolução Bolchevique de 1917. A IV Internacional, por seu turno, surge em meio à vigorosa presença do nazi-fascismo, ameaça direta aos revolucionários de esquerda em todo o mundo.

Era "meia noite no século" nas palavras do escritor Victor Serge. A humanidade caminhava para a sua maior tragédia: a II Guerra Mundial, sua destruição sem precedentes e seus 60 milhões de mortos.

As forças produtivas existentes já poderiam permitir que toda a humanidade vivesse com dignidade e solidariedade. Todavia, a competição capitalista, na sua fase imperialista, levou as nações capitalistas a lutarem entre si. A Alemanha, derrotada na I Guerra Mundial, emerge fundada numa ideologia racista de extrema-direita.
Trotsky avaliava no Programa de Transição que as condições objetivas para a revolução permanente já estavam mais do que maduras: a divisão social do trabalho, os progressos da técnica e da ciência e a integração do mundo, promovidos pelo próprio capitalismo, permitiam que o proletariado destruísse esse mesmo capitalismo, tomando o poder e construindo o socialismo em escala mundial.

No entanto, faltavam o que Trotsky designava por condições subjetivas. As organizações principais da classe trabalhadora, seus partidos e sindicatos de massa, segundo ele, estavam sendo dominados por dirigentes políticos que, na prática, não passavam de agentes da burguesia no seio do proletariado.

Argumentava que a social-democracia, organizada em torno da II Internacional desde 1914, havia traído a causa do socialismo quando se recusou a se opor à deflagração da Grande Guerra e nos anos 1930, seu papel era claramente o de contenção da Revolução em troca de migalhas oferecidas pela burguesia aos seus dirigentes. Por outro lado, que a dominação stalinista da III Internacional trouxera a burocratização e o abandono completo do marxismo, solapando a democracia operária em nome dos privilégios da casta dirigente. Acusou Stálin de se recusar a organizar uma frente única contra o nazismo, deixando que Hitler destruísse a poderosa organização da classe operária alemã em 1933.

Defendia que a crise da humanidade que empurrava o mundo para a II Guerra era fundamentalmente uma crise de direção do proletariado e que o maior obstáculo para a Revolução Mundial eram os dirigentes que permitiam o fortalecimento das diferentes burguesias, seja na forma do nazi-fascismo ou das democracias liberais.

Trotsky sustentava que a construção de uma nova Internacional era uma tarefa para a qual seu esforço individual era necessário, visto que naquela “meia noite no século” o que estava em jogo era a continuidade da herança do internacionalismo proletário e socialista. Costumava citar Lênin: “Quando há um pequeno resto de civilização, é possível reconstruir tudo”.

Depois da guerra e do assassinato de Trotsky, a IV Internacional acabou se dividindo em múltiplas facções de pequena representação social, assumindo seus dirigentes posições sectárias afastadas da realidade política dos países em que estavam presentes.
Fonte: Opera Mundi

domingo, 27 de agosto de 2017

1953: Concordata entre Franco e Santa Sé

Assinada concordata entre Santa Sé e Madri, permitindo ao regime do ditador espanhol Franco romper seu isolamento internacional. Além de militares e latifundiários, a Igreja foi um dos baluartes da ditadura franquista.
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Franco durante parada em celebração ao fim da Guerra Civil na Espanha, em maio de 1939
Em 1939, o ditador espanhol Francisco Franco proclamou o fim da guerra civil, que durara três anos. E classificou sua vitória sobre as tropas republicanas como um triunfo do cristianismo.
Numa missa de ação de graças na Igreja de Santa Bárbara, em Madri, Franco depositou simbolicamente sua espada diante do altar: "Senhor, aceite de bom grado os esforços deste povo, que sempre lhe pertenceu e que, comigo e em vosso nome, venceu com grande heroísmo o inimigo da verdade neste século. Dai-me a vossa ajuda para conduzir este povo à completa liberdade do vosso reino, para a vossa glória e a glória da vossa Igreja".
E, de fato: à parte de raras exceções, a Igreja Católica da Espanha estava em peso do lado dos golpistas de Franco. Portanto, houve enorme satisfação, quando o "generalíssimo" assumiu o poder no país, em 1939.
Também o recém-eleito papa Pio 12 congratulou o ditador vitorioso de maneira efusiva: “Elevando o nosso coração a Deus, juntamente com Vossa Excelência, expressamos nossa profunda gratidão pela vitória que ansiávamos, da Espanha católica. Desejamos que, depois de lograr a paz, esse país – que nos é tão caro – dê nova força à sua velha tradição católica, que o fez tão grande. Concedemos Vossa Excelência e a todo o nobre povo espanhol nossa bênção apostólica”.
Baluartes do franquismo
Ao lado dos militares e dos latifundiários, a Igreja continuou sendo um dos principais baluartes da ditadura franquista – mesmo quando o país foi internacionalmente boicotado, após o término da Segunda Guerra Mundial. A maioria das nações retirou seus embaixadores da Espanha e a ONU recusou a filiação espanhola.
Mas, no início da década de 1950, em face da Guerra Fria, o boicote começou a se desfazer paulatinamente. Os Estados Unidos iniciaram negociações para uma cooperação econômica e militar com a Espanha.
Esta era a situação internacional, quando a Santa Sé assinou uma concordata com o Estado espanhol em 1953. A concordata – uma espécie de tratado entre a Santa Sé e o governo do país signatário – regula as questões de política eclesiástica, por exemplo, os limites das dioceses, a ocupação das cátedras episcopais, mas também assuntos relacionados às leis matrimoniais, à educação ou às ajudas financeiras do Estado para o trabalho da Igreja.
Prerrogativas da Igreja Católica
Na concordata de 1953, a Igreja e o Estado espanhol fizeram amplas concessões mútuas. A Igreja recebeu privilégios extraordinários de Franco. O catolicismo foi designado como única religião da Espanha. Foi concedida à Igreja Católica uma enorme influência na área educacional, nas escolas e nos currículos escolares. Dificultou-se muito a realização de casamentos exclusivamente civis. Eventuais julgamentos de padres, monges e freiras deixaram de ser da alçada da Justiça comum.
Em contrapartida, foi dada ao ditador a prerrogativa da indicação dos bispos, um direito concedido tradicionalmente à monarquia espanhola. Através da nomeação de adeptos da sua linha política para as cátedras pontifícias, Franco esperava obter uma ligação mais estreita dos bispos com o Estado e impedir qualquer oposição ou simpatia com a oposição – por exemplo, com os movimentos de autonomia no País Basco ou na Catalunha.
Passo para reconhecimento internacional
Roma aprovou tal acordo, que na verdade contrariava a sua política, porque Pio 12 tinha grande conformidade com a política eclesiástica de Franco. Para o ditador, a concordata significou uma espécie de justificativa tanto para a política interna como para a política exterior.
Ela atuou como um aval da Igreja Católica para o Estado espanhol e foi um passo decisivo para romper o isolamento internacional do regime de Franco. Depois disto, os EUA assinaram uma aliança econômica e de defesa com a Espanha no outono setentrional de 1953. Dois anos depois, a Espanha foi aceita na ONU.
Rachel Gessat (am)
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Há 25 anos, Tchecoslováquia se dissolvia de forma pacífica

Separação de tchecos e eslovacos foi selada num dia quente de verão em Brno, numa conversa entre dois líderes – bem ao contrário do fim de um outro Estado, surgido em condições semelhantes.
Vaclav Klaus e Vladimir Meciar debatem na Vila Tugendhat Villa, em Brno
Vladimir Meciar (e) e Vaclav Klaus durante as conversações de 26 de agosto de 1992, nos jardins da Vila Tugendhat
O 26 de agosto de 1992 foi um dia quente de verão na cidade tcheca de Brno. Nos jardins da famosa Vila Tugendhat, um marco da arquitetura moderna na Europa, à sombra de um velho plátano e bebendo uma água mineral, os primeiros-ministros da Tchéquia e da Eslováquia, Vaclav Klaus e Vladimir Meciar, debatiam a dissolução pacífica do Estado tcheco-eslovaco.
À noite, eles se dirigiram à imprensa e declararam que, a partir de 1º de janeiro de 1993, a Tchéquia e a Eslováquia passariam a ser dois Estados independentes.
"Mesmo que muitas pessoas tenham ligações emocionais à atual Constituição, devemos afirmar, de forma realista e responsável: não há como manter a atual situação", afirmou Meciar, na época.
Destruição em Sarajevo
Aquele dia foi quente também em Sarajevo, mas não só por causa do verão. Havia quase cinco meses que a cidade estava sitiada por soldados sérvios bósnios, diariamente eles atiravam com canhões a partir dos morros ao redor sobre as residências no vale.
Naquela madrugada, eles haviam alvejado a Vijecnica, a antiga sede do governo local, na qual a biblioteca nacional da Bósnia-Herzegovina estava acomodada. O prédio estava em chamas, e apenas as paredes externas ficaram de pé.
Em poucas horas, grande parte do acervo estava em chamas, ao todo mais de 2 milhões de livros e documentos. Mais do que isso: naquele dia desapareceram inúmeras atestados de uma tradição secular de uma sociedade multicultural, e um símbolo de uma convivência pacífica e civilizada de etnias, culturas e religiões.
Já estava claro que a guerra na Bósnia seria sangrenta e cruel. Com a biblioteca nacional de Sarajevo, extinguiu-se também a esperança de que a desintegração da Iugoslávia fosse possível sem uma grande guerra.
No mesmo dia, em Londres, o primeiro-ministro britânico, John Major, abriu a conferência sobre a Iugoslávia. A principal exigência era o fim imediato de todos os conflitos na Bósnia-Herzegovina.
Dos destroços da monarquia
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Marionetes tchecas e eslovacas tornam-se Patrimônio Cultural da Unesco

Tchecoslováquia e Iugoslávia, dois estados que, no verão europeu de 1992, estavam deixando o cenário internacional de formas tão diferentes, haviam surgido em 1918, no fim da Primeira Guerra Mundial, sob condições muito semelhantes, a partir dos destroços do Império Austro-Húngaro. Nos dois casos, o objetivo era o mesmo: unificar em um Estado independente povos diferentes, mas ainda assim em muitos aspectos próximos, bem como várias minorias nacionais que viviam nesses territórios.
A Tchéquia, como território de indústria avançada e rica tradição cultural, desempenhava um papel importante já dentro da monarquia dos Habsburgos. Ao lado de Viena e Budapeste, Praga era, de cerca forma, a terceira capital. Quando se tornou claro, em 1918, que a monarquia não resistiria à guerra, os dois líderes do movimento nacionalista tcheco, Tomás Masaryk e Edvard Benes, exigiram independência total. Em conjunto com os representantes do movimento nacionalista eslovaco, eles acertaram a fundação de um Estado comum.
Assim, a Tchecoslováquia declarou sua independência ainda antes do fim da Primeira Guerra, com Masaryk como primeiro presidente. Mas esse Estado comum não era de forma alguma homogêneo: de seus 14 milhões de habitantes, 7 milhões eram tchecos, 2,5 milhões eram eslovacos e mais de 3 milhões, alemães dos Sudetos. A eles somavam-se várias minorias, como húngaros, ucranianos e poloneses.
Revolução de Veludo, em 1989
Multidão sai às ruas de Praga durante a Revolução de Veludo, em 1989
Busca por independência
Mas, apesar de, desde o início, a criação de uma população nacional, tcheco-eslovaca, ter sido proclamada, e de as minorais terem recebido a garantia de direitos especiais, os dois pontos nunca passaram de ideologia oficial. Na realidade, o domínio dos tchecos, que eram numérica, cultural e economicamente superiores, era perceptível o tempo inteiro.
Depois da queda do Muro de Berlim e da Revolução de Veludo, em 1989, os anseios por independência se tornaram cada vez maiores, especialmente na Eslováquia – seria a primeira vez desde o século 11, quando a nação foi integrada ao Reino da Hungria, que ela seria independente. Depois das eleições parlamentares de 1992 foi formado apenas um governo de transição, enquanto Klaus e Meciar iniciavam suas conversações sobre uma dissolução pacífica do Estado comum.
Desintegração brutal
A história da Iugoslávia, embora tenha começado de forma semelhante, desenvolveu-se de maneira completamente distinta. Também aqui a ideia inicial era unificar em um Estado povos diferentes, mas aparentados, junto com os territórios por eles habitados. E também aqui foram unidos povos que já tinham um rei, como os sérvios, e aqueles que nunca tiveram um Estado próprio ou que mal podiam se lembrar dele, como eslovenos e croatas. Ao mesmo tempo, também nessa construção assimétrica foi proclamada a igualdade de direitos de todos os povos constituintes, e garantidos direitos às minorias.
Mas, também neste Estado, que, ao longo de sua história, passou por uma transformação de monarquia para república socialista, muitos se sentiram inferiores. E também a construção de uma nação iugoslava permaneceu, apesar de todas as tentativas, infrutífera. Bastou uma crise constitutiva estremecer a nação para que a Iugoslávia se desintegrasse politicamente em grupos étnicos. Pouco depois, começou-se a redesenhar os mapas com uma brutalidade extrema, para em seguida adequá-los aos mitos nacionais, reavivados e excludentes.
Dois caminhos diferentes
O resultado é conhecido. Quando, na noite de 26 de agosto de 1992, depois de terem conversado minuciosamente nos jardins da Vila Tugendhat ao longo do dia, Klaus e Meciar se dirigiram à imprensa para anunciar a data da dissolução do Estado, o premiê tcheco disse:
"Se o planejado processo for executado de forma pacífica, creio que poderemos ter relações melhores e mais duradouras do que as atuais com a Eslováquia." 
Essa declaração mostrou ser acertada. As relações políticas, econômicas e culturais desses dois Estados independentes são exemplares.
A Iugoslávia, ao contrário, foi fragmentada numa guerra brutal, que deixou centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados e uma enorme destruição. Mais de 20 anos depois do fim da guerra, a Bósnia-Herzegovina continua sendo uma nação pobre, disfuncional e extremamente dividida. A biblioteca nacional de Sarajevo foi reconstruída, mas os livros e documentos históricos que foram queimados na guerra se perderam para sempre.
  • Data 26.08.2017
  • Autoria Zoran Arbutina (as)
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