domingo, 31 de agosto de 2014

AHR convida para a premiação do I Concurso de Quadrinhos e para palestra sobre História de Passo Fundo


A grande guerra e a mundialização dos conflitos no século XX será o tema da SAH


XVII Semana Acadêmica de História
III Mostra de Pesquisa em História da Graduação e do PPGH
V Fórum do Curso de História
IV Seminário Interno PIBID-História/UPF
05 a 07 de novembro de 2014


 “A Grande Guerra e a mundialização dos conflitos no século XX”

Data/ Horário
05/nov
06/nov
07/nov
Matutino
08:30 as 11:30 h
IV Seminário Interno PIBID

Apresentação dos alunos e professoras supervisoras

Sala de Defesas IFCH

III Mostra de Pesquisa em História da Graduação e do PPGH

Apresentação de Trabalhos - Coordenação de discentes PPGH

Salas IFCH
III Mostra de Pesquisa em História da Graduação e do PPGH

Apresentação de Trabalhos - Coordenação de discentes PPGH

Salas IFCH
Vespertino
14:00 as 17:30 h

IV Seminário Interno PIBID e V Fórum do Curso de História

Conferência:
Prof. Luis Fernando Cerri (UEPG)

Mediação: Profa. Ironita Machado

Sala de Defesas IFCH

18 h- Lançamento de Livros (regras abaixo)

Oficinas
1. Memória, história e narrativa visual - Profa. Dra. Marlise Meyrer (Sala de defesas IFCH)

2. Arqueologia e Cultural Material no Planalto Médio - Ddo. Fabrício J. Nazzari Vicroski
(Sala 01 IFCH)
Oficinas
3.  O uso de processos judiciais como fonte de pesquisa – Prof. Me. Felipe Berté Freitas
(Sala 08 LCI)

4. Os 50 anos do golpe civil-militar de 1964 e o ensino de História: possibilidades metodológicas - Prof. Dr. Alessandro Batistella (Sala de defesas IFCH)
Noturno
19:30 as 22:30 h

Abertura do Evento

Conferência:
Primeira Guerra Mundial e o Brasil
Prof. Paulo Fagundes Visentini (UFRGS)

Mediação: Prof. Adelar Heinsfeld

Aud. Odonto
Conferência: A Revolução Russa e suas heranças
Prof. Diorge Alceno Konrad (UFSM)

Mediação: Profa. Gizele Zanotto

Aud. Odonto

Conferência: Primeira Guerra Mundial e a América
Prof. Dr. Adelar Heinsfeld (UPF)

Mediação: Prof. Rosane Neumann

Aud. Odonto

23 h – Festa de Confraternização
(informações abaixo)







PARA ACESSAR A ORDEM DAS COMUNICAÇÕES CLIQUE AQUI

 Inscrições (40 horas):
·         Ouvintes: R$ 20,00 de 15/09 a 05/11 na coordenação do curso de História, com Andressa
·         Apresentadores de trabalho: R$ 30,00 de 15/09 a 15/10 (ver regras abaixo)

III Mostra de Pesquisa em História da Graduação e do PPGH

Poderão inscrever trabalhos na III Mostra de Pesquisa em História, graduandos e pós-graduandos em História. O resumo deve ser enviado para o e-mail semanahistoriaupf@gmail.com no período de 15/09 a 15/10/2014. – PRAZO PRORROGADO ATÉ – 22 DE OUTUBRO, os aceites serão enviados até dia 27 de outubro.
1. As propostas de comunicação deverão ser compostas, obrigatoriamente, de título e resumo, que deverão ser enviado para o e-mail semanahistoriaupf@gmail.com, no período indicado acima, NÃO serão aceitos trabalhos propostos após essa data.  
2. O título deverá conter no máximo 200 caracteres (com espaços) e o resumo deverá conter no máximo 2800 caracteres (com espaços).
3. Solicitamos atenção ao preenchimento correto do e-mail de submissão, em especial "Nome" e "Título do Trabalho", para evitar posteriores problemas quanto à emissão dos certificados.

4. Somente terá direito à publicação de texto nos anais eletrônicos o inscrito que apresentar o seu trabalho no simpósio temático em que foi aprovado. Os textos completos devem ser enviados impreterivelmente até o dia 23 de novembro de 2014.  

5. O texto completo deverá ser apresentado no seguinte formato:
ü  Os arquivos devem ser em formato DOC, DOCX ou RTF;
ü  Título em maiúsculo, centralizado e em negrito;
ü  Nome do(s) autor (es) alinhado(s) à direita depois de uma linha de espaço do título; vinculação institucional, logo abaixo do(s) nome(s) do(s) autor(es), também alinhado à direita;
ü  Endereço eletrônico logo abaixo da vinculação institucional;
ü  O resumo deverá conter no máximo 2800 caracteres (com espaços);
ü  Texto com número máximo de 15 laudas e mínimo de 10 laudas;
ü  Citações com até três linhas deverão vir no corpo do texto, sem itálico, com chamada autor-data entre parênteses. As citações com mais de três linhas devem vir fora do corpo do texto, tamanho 10, com recuo de 04 cm;
ü  As indicações bibliográficas no corpo do texto, colocadas entre parênteses, deverão se resumir ao último sobrenome do autor, à data de publicação da obra e à página, quando necessário. Exemplo: (BURKE, 2005, p. 20). Se o nome do autor estiver citado no corpo do texto, indicam-se, entre parênteses, apenas a data e a página;
ü  As referências bibliográficas finais devem seguir as recomendações recentes da ABNT;
ü  Os textos não deverão conter colunas ou separação de sílabas hifenizadas;
ü  Ilustrações, figuras, tabelas ou gráficos deverão estar no corpo do texto, com a respectiva numeração e legenda;
ü  As imagens deverão ser digitalizadas em 300dpi, estar no formato TIF, GIF, PNG ou JPG e ser incorporadas ao corpo do texto. Máximo de três imagens por texto;
ü  Papel tamanho A4;
ü  Fonte Times New Roman;
ü  Tamanho 12;
ü  Espaçamento de texto 1,5;
ü  Alinhamento de texto justificado;

ü  Margens: superior e inferior 2,5; esquerda e direita 3,0.






1980 - Governo da Polônia aceita reivindicações de trabalhadores de GdanskMax Altman | São Paulo - 31/08/2014 - 08h04 Lech Walesa, ex-eletricista, liderava grevistas, o que o levou a fundar o Solidariedade, o primeiro sindicato independente em uma nação do bloco socialista


Lech Walesa, ex-eletricista, liderava grevistas, o que o levou a fundar o Solidariedade, o primeiro sindicato independente em uma nação do bloco socialista

Em 31 de agosto de 1980, representantes do governo comunista da Polônia aceitam as reivindicações dos trabalhadores dos estaleiros da cidade de Gdansk em greve. O ex-eletricista Lech Walesa liderava os grevistas, o que o levou a fundar o Solidariedade, o primeiro sindicato independente de trabalhadores organizado numa nação do bloco socialista.
[Lech Walesa, em 1980]
Em julho de 1980, ao se ver enfrentado a uma crise econômica, o governo da Polônia elevou o preço dos alimentos e outros bens, enquanto tentava refrear o crescimento dos salários. A subida dos preços tornou difícil para muitos poloneses a compra das necessidades básicas e uma onda de greves varreu o país.
Em meio às crescentes tensões, uma popular operadora de empilhadeiras chamada Anna Walentynowicz foi despedida dos estaleiros Lenin de Gdansk, importante cidade do norte da Polônia. Em meados de agosto, cerca de 17 mil trabalhadores do estaleiro começaram uma greve de braços cruzados exigindo a reincorporação dela, bem como um moderado aumento dos salários. Eram liderados por Walesa, que havia sido ele próprio demitido havia quatro anos por ‘ativismo sindical’.
A despeito da censura governamental e tentativas de evitar publicação do noticiário sobre a greve, protestos similares irromperam em cidades industriais por toda a Polônia.

Hoje na História: 1966 – Mao Tse Tung dá início à “Revolução Cultural”

Hoje na História: 1791 - Eclode a insurreição de escravos de São Domingos, atual Haiti

Hoje na História: 1795 – Morre o viajante, curandeiro e hipnotizador Cagliostro

Em 17 de agosto, um Comitê de Greve Interfábricas apresentou ao governo polonês 21 ambiciosas reivindicações, incluindo o direito de organizar sindicatos independentes, o direito à greve, a libertação de prisioneiros políticos e ampliação do direito de expressão. Temendo que uma greve geral pudesse levar a uma revolta nacional, o governo enviou uma comissão a Gdansk a fim de negociar com os trabalhadores rebeldes.
Em 31 de agosto, Walesa e Mieczyslaw Jagielski, representante do governo, assinaram um acordo em que se cedia a muitas das reivindicações dos trabalhadores. Walesa assinou o documento com uma caneta esferográfica gigante decorada com um retrato do recém-eleito papa João Paulo II, Karol Wojtyla, ex-arcebispo de Cracóvia.
Na esteira da greve de Gdansk, líderes do Comitê de Greve Interfábricas votaram a criação de uma única federação nacional conhecida como Solidarnosc (Solidariedade), que logo evoluiu para um movimento social de massas com a adesão de mais de 10 milhões de pessoas. O Solidarnosc atraiu a simpatia de líderes sindicais do Ocidente e a hostilidade de Moscou, que chegou a cogitar uma intervenção militar na Polônia.
No final de 1981, sob pressão da União Soviética, o governo do general Wojciech Jaruzelski revogou o reconhecimento do Solidarnosc e decretou lei marcial na Polônia. Cerca de 6.000 ativistas do Solidariedade foram presos, inclusive Walesa, quem ficou detido por quase um ano. O movimento Solidarnosc moveu-se clandestinamente, continuando a receber apoio político e logístico de líderes Internacionais como o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, quem impôs sanções à Polônia.
Walesa foi agraciado em 1983 com o Prêmio Nobel da Paz e, após a queda do governo em 1989, tornou-se o primeiro presidente da Polônia a ser eleito pelo voto popular.
A eleição ocorreu em 9 de dezembro de 1990, tendo ele tomado posse em 22 de dezembro de 1990. Em 1995, realizaram-se novas eleições presidenciais, mas Walesa foi derrotado por uma diferença de 3 pontos percentuais no segundo turno. Nas eleições presidenciais de 2000 não conseguiu ir além de 1% dos votos, devido a uma crescente insatisfação da opinião pública em relação às suas posições políticas de direita.
Fonte: Opera Mundi

domingo, 24 de agosto de 2014

A Semana Acadêmica vem aí! Participe!

III SEMANA ACADÊMICA INTEGRADA DO IFCH
Relações do cotidiano: educação e trabalho
De 25 a 29 de agosto de 2014


PROGRAMAÇÃO


25 DE AGOSTO
Segunda-feira

NOITE
Local das atividades: Auditório da FEAC
19h 30min – Cerimônia de Abertura
19h 50min – Momento Cultural – Coral Universitário UPF
20h – Mesa-redonda de Abertura – Relações interpessoais na sociedade contemporânea
Participantes: Cláudio A. Dalbosco (UPF), Ivan Penteado Dourado (UPF) e Luís Francisco Fianco (UPF)
Mediação: Patrícia da Silva Valério (UPF)


26 DE AGOSTO
Terça-feira

TARDE
Local das atividades: Auditório do CET
14h – Cinedebate - O Substituto (Detatchment), 2011
Participante: Francisco Carlos dos Santos Filho (UPF) e Fabiane Verardi Burlamaque (UPF)
Mediação: Frederico Santos dos Santos (UPF)

NOITE 
Atividades Suspensas - Seminário de Avaliação Institucional UPF 


27 DE AGOSTO
Quarta-feira

TARDE
Local das atividades: Auditório do CET
14h – Momento Cultural 
14h 15min – Mesa-redonda 2 – Psicologia: Intervenções e invenções no cotidiano
Participantes: Vera Pasini (UFRGS) e Volnei Dassoler (APPOA/Santa Maria-RS)
Mediação: Rosani Sgari (UPF)

NOITE
Local das atividades: Auditório da FEAC
19h 30min – Momento Cultural – Grupo de Danças Tanz UPF
19h 45min – Mesa-redonda 3 –  Solidariedade e responsabilidade social nas relações contemporâneas
Participantes: Volnei Dassoler (APPOA/Santa Maria-RS)Vera Pasini (UFRGS) e Bernadete Maria Dalmolin (UPF)  
Mediação: Josete Stocco (UPF)


28 DE AGOSTO
Quinta-feira

TARDE
Local das atividades: Salas de aula do IFCH
14h – Sessões de comunicações orais
Local das atividades: Saguão do IFCH
17h – Mostra de materiais didáticos e pôsteres 
NOITE
Local das atividades: Salas de aula do IFCH
19h30min – Oficinas

Local das atividades: Auditório da FEAC
20h – IV Sarau e I Mateada do IFCH


29 DE AGOSTO
Sexta-feira

TARDE
Local das atividades: Salas de aula do IFCH
14h – Minicursos

NOITE
Local das atividades: Auditório da FEAC
19h 30min – Momento Cultural – Grupo de Choro UPF
19h 45min – Mesa-redonda 4 – Relações interpessoais no ambiente escolar e de trabalho 
Participantes: Ironita Policarpo Machado (UPF) e Vinícius Rauber (UPF)
Mediação: Luciana Maria Crestani (UPF)
21h 30min – Cerimônia de encerramento

Eu morri há 25 anos atrás

Gonçalo Junior

Em 21 de agosto de 1989, uma parada cardíaca levou Raul Seixas e, com ele, parte da história do rock nacional
Recorte da capa do disco de Raul Seixas, Metrô linha 743.
Recorte da capa do disco de Raul Seixas, Metrô linha 743.
Era um final de tarde, estava em um ônibus superlotado de Salvador, naquele 21 de agosto de 1989. Não havia lei que estabelecesse silêncio no transporte coletivo e os motoristas e cobradores adoravam ouvir música no volume máximo. Rádio, sempre rádio. Tocafitas eram caros e CD só podia ser comprado por poucos. Queriam compartilhar, claro, seu gosto musical na cidade mais rítmica do sistema solar. Não havia internet e passara todo o dia me desdobrando entre duas faculdades. A última frase que ouvi do locutor foi “em homenagem a Raul Seixas”, antes de entrarem os primeiros acordes de “Gita”, para mim, sua mais bela composição em parceria com Paulo Coelho. 
Começa, como sempre, com as batidas de um sino, que pareciam anunciar um rito espiritual. “Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que ele me falou…” Não sabia que Raul havia morrido, mas, naquele dia, a música entrou de modo diferente na minha percepção. Parecia mais cristalina do que permitia o limitado equipamento de som do ônibus. Arrepiei-me dos pés à cabeça. Raul havia se desmaterializado: “Eu sou a luz das estrelas/ Eu sou a cor do luar/ Eu sou as coisas da vida/ Eu sou o medo de amar/Eu sou o medo do fraco/ A força da imaginação/ O blefe do jogador/ Eu sou, eu fui, eu vou”.
Ao entrar em casa, minha me esperava aflita, como quem aguarda um parente para dar uma má notícia. Na lata, diz, “Raul morreu”. “Raul, que Raul?”, perguntei. “Raul Seixas”. A única frase que disse foi um “Não é possível”. Três semanas antes, por pouco não o conheci pessoalmente. Eu e um grupo de amigos fazíamos uma exposição no Shopping Iguatemi e tínhamos dedicado todo um painel com cartuns ligados à sua música. Um senhor que se dizia empresário dele prometeu trazê-lo nos dias seguintes para ver a homenagem. Raul fazia uma turnê nacional com Marcelo Nova, ex-vocalista da banda Camisa de Vênus. Juntos, tinham lançado uma obra-prima, o disco-testamento A Panela do Diabo. Era só o que eu ouvia quando estava em casa.
Um ciclo se completava ali. Para ele e para mim. Dezesseis anos antes, minha mãe tinha encomendado uma fita cassete de grandes sucessos ao empregado de uma loja – sim, havia esse hábito, o próprio vendedor, atento aos hits, organizava a seleção ou tentava atender a uma lista do comprador, sem se preocupar em deixar de vender discos. Fui com ela buscar a fita e o rapaz disse: “Não tenho todas as músicas que a senhora pediu e acrescentei algumas que acho que vai gostar. No meio esta Ouro de Tolo. Para um menino de seis anos de idade, havia algo de engraçado na letra: ir domingo ao zoológico dar pipoca aos macacos. Demoraria para descobrir que Raul pregava exatamente o contrário. E, desde então, acompanhei seus discos com atenção de fã. Ganhei o compacto de Gita, em 1974, e ele se fez presente em outras fitas encomendadas. Lembro de gostar muito daquela maluquice de ele dizer que havia nascido há dez mil anos atrás. Sim com erro de redundância mesmo. Raul abusava da licença poética em defesa do baianês – “o que vai dar PRA MIM comer” era contado com ênfase provocativa. Valia mesmo o recado que queria dar.
A primeira vez que fui a um enterro na minha vida foi no de Raul. Fui com Mariana, colega de faculdade e fã devotada. Chegamos e o caixão estava quase saindo. Corremos e vimos sua mãe, chorando sobre a tampa já lacrada. Não havia ali mais que cem pessoas. Imaginei que encontraria milhões de fãs e comentei se o melhor não teria terem sepultado ele em São Paulo, cidade onde morreu e era idolatrado por um universo bem maior de pessoas. Raul pertencia aos paulistas de todo Brasil, inclusive os da Bahia, que ali viviam. Pertencia aos bêbados de sempre – nunca entendi porque os embriagados moradores de rua da capital paulista adoram cantarolar Raul. Bebeu, deu porre, bateu depressão, saudade da família distante, a vida perdeu o sentido, canta Raul! Na cidade onde nasceu, infelizmente, estava esquecido. A axé music vivia seu grande momento de explosão nacional. Daniela Mercury gritava para quem quisesse ouvir que o canto da cidade agora era ela.
Pode ter sido coincidência, mas quando as rádios e TVs começaram a noticiar a morte de Raul, o novo rock nacional, aquele nascido na década que terminava, entraria em decadência, como o tempo mostraria. Os sertanejos forçavam os donos das rádios a mudarem a programação para sobreviver, enquanto Chitaozinho e Xororó e Leandro e Leonardo ameaçavam desbancar o reinado do RPM, cujo disco ao vivo vendera no ano anterior 2,5 milhões de cópias. E assim aconteceria. A nova década começou com uma peneira implacável. Poucas bandas sobreviveriam a partir dali. O caso mais dramático foi, sem dúvida, o do RPM, implodido por causa de desavenças entre seus membros. Cazuza morreria em 1990 e Renato Russo seis anos depois, ambos vítimas da AIDS. Raul vinha na contramão, mais uma vez, em uma ascendência quase messiânica. As novas gerações, que desconheciam sua imagem de beberrão, estavam mais interessadas em suas letras, na filosofia inconformista de vida que ele pregava.
Raul não era mais só um maluco beleza, daquele que encontramos nas cidades do interior, que não fazem mal nenhum e passam os dias a contar as estrelas e a medir em passadas a distância entre as cidades mais próximas. Virava a voz de uma geração perdida, a mesma que acreditaria ter derrubado o presidente Collor com seus rostos pintados, em 1992, sem dar conta de que ele caíra por incapacidade de fazer conchavos com o Congresso, como parece ter acontecido, de fato. Todos se voltavam para o fenômeno do raulseixismo, do sonho da sociedade alternativa, dos preceitos anarquistas de quem se sentia sozinho para reclamar da censura e dos punhos da ditadura militar que ameaçavam sua vida. Raul renascia mais uma vez. Normal para quem tinha vindo ao mundo havia tanto tempo e parecia acumular dez mil anos de experiências bem vividas e queria passar isso a todos.

Relatório final da Comissão da Verdade pode ficar sem capítulo sobre o Araguaia

O caso da guerrilha, que fez o Brasil ser condenado internacionalmente, é um dos vários pontos que parecem não ter a atenção devida por parte da CNV
por Marsílea Gombata — publicado 23/08/2014 18:06
Fundação Mauricio Grabois
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Corpos de guerrilheiros mortos na Guerrilha do Araguaia
A repressão à Guerrilha do Araguaia, um dos casos mais emblemáticos da ditadura brasileira, corre o risco de não ter um capítulo específico no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV). O episódio de repressão contra o movimento, formado por membros do PCdoB e camponeses na região amazônica entre os estados de Goiás, Maranhão e Pará (atualmente o Tocantins), de 1967 e 1974, levou em 2010 a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) a condenar o Estado brasileiro por utilizar a Lei de Anistia como argumento para não julgar os envolvidos em casos de tortura e na morte de 70 pessoas.
O “descaso” com o episódio, a menos de quatro meses do prazo para a entrega do relatório, é fruto da falta de organização e planejamento da CNV, apontam ativistas de comissões estaduais, que preparam relatórios parciais para servir de subsídio para a elaboração do documento que deve ser entregue até dia 16 de dezembro.
“Já escrevemos sobre 15 mortos no Araguaia que eram de São Paulo e, se tivermos tempo e fôlego, vamos fazer os outros 55 casos referentes a esse episódio, pois ninguém da Comissão Nacional está fazendo”, disse Maria Amélia Teles, da Comissão da Verdade “Rubens Paiva” da Assembleia Legislativa de São Paulo. Amelinha, como é conhecida, explica ainda que a comissão de São Paulo está elaborando um volume à parte do relatório final sobre mortos e desaparecidos na ditadura. Das 437 vítimas reconhecidas oficialmente, 168 são de São Paulo ou dizem respeito a paulistas em outros estados.
Amelinha concorda que o Araguaia, um dos casos de maior notoriedade da repressão ditatorial, não parece estar recebendo a devida atenção pela CNV e acrescenta: nesse número total de vítimas do Araguaia não estão camponeses da região que teriam sido torturados. “Não foi feita nenhuma investigação mais apurada em relação à população local. E o que se tem dos guerrilheiros é aquilo que os familiares estão apurando há muitos anos”, lembra.
A CNV fez em 12 de agosto uma audiência sobre o Araguaia e ouviu uma série de militares sobre o caso em novembro de 2013. Não falta material coletado. A questão é o planejamento. Até o momento ninguém está encarregado de elaborar o trecho que discorrerá exclusivamente sobre o Araguaia. Caso isso ocorra, explica o presidente da comissão de São Paulo, o deputado estadual Adriano Diogo (PT), é provável que seja São Paulo quem fará.
A falta de organização e transparência na elaboração do relatório final traz à tona problemas que permearam a relação da CNV com as outras comissões desde o início. “A CNV trabalha de uma forma que é difícil a gente saber exatamente o que está acontecendo. Não é transparente”, reclama Amelinha. “Se você faz sem um planejamento anterior, acaba fazendo tudo correndo, às pressas e faltando informação em tempo hábil. A investigação que se pretendia com a CNV era caso a caso, detalhada, essa era a ideia. Mas, até os dias de hoje, a nossa base é a pesquisa dos familiares, quando na verdade tinha de ser algo maior”.
Responsável pela parte que abordará as violações contra homossexuais, travestis e membros da comunidade LGBT, juntamente com o brasilianista James Green (Universidade de Brown, nos EUA), Renan Quinalha também critica o fato de não haver clareza sobre como as contribuições serão incorporadas. “Há abertura, mas não critérios claros. Eles ainda estão concebendo a estrutura do documento, e isso reflete o problema de a CNV ter pensando no documento tardiamente. O relatório foi uma preocupação mais ao final da comissão, e isso coloca uma série de obstáculos para saber o que realmente vai entrar”, explica Quinalha, que finaliza um texto de 20 páginas para encaminhar à CNV.
O trecho sobre a comunidade LGBT corre ainda o risco de entrar em um capítulo sobre violações de gênero e raça, o que é mal visto pelos pesquisadores. “A ditadura brasileira fez vítimas em diversos setores da sociedade brasileira, que não são apenas os perseguidos políticos”, disse, ao frisar que as forças de repressão viam a homossexualidade como parte de uma conspiração comunista. O próprio Itamaraty, lembra, cassou diplomatas suspeitos de serem homossexuais, assim como constituiu uma comissão que examinasse casos de “funcionários do ministério suscetíveis de comprometer o decoro e o bom nome da casa, tendo em vista o possível enquadramento dos indiciados nos dispositivos do Ato Institucional n. 5”.
Da mesma incerteza compartilham grupos que lutam pelo reconhecimento do Estado das graves violações de direitos humanos contra indígenas. Insatisfeito com o espaço reservado para o grupo social que mais sofreu abusos na ditadura, Marcelo Zelic, coordenador do projeto Armazém da Memória, diz que as 35 páginas previstas pela CNV para o documento final não são suficientes: “O trecho sobre o Araguaia terá apenas 35 páginas? A parte sobre mortos e desparecidos terá só 35 páginas? Por que essa diferenciação da violência?"
Zelic luta para a mudança do texto final, no qual o foco da CNV está voltado para o primeiro contato com algumas tribos, um material muito inicial, segundo ele. “Os números apresentados para o período de 1964-1985 pela CNV dizem respeito a uma parcela dos casos a estudar e com certeza não abrange a totalidade de casos acontecidos no período militar”, ressalta.
Parte dessas frustrações pode ser explicada pelas próprias divergências entre os membros da CNV, que discordam em pontos sensíveis, como a revisão ou reinterpretação da Lei de Anistia, de 1979. “A CNV ficou muito tempo nessa briga de egos”, afirma Amelinha, para quem uma das recomendações que o relatório final trará deve ser a de pedir uma nova Comissão Nacional da Verdade. “Temos de ter uma comissão para apurar e encaminhar esses casos para a Justiça. Não faz sentido o Brasil saber que houve cinco coronéis envolvidos na morte de Rubens Paiva e ficar por isso mesmo. Aí se estará pedagogicamente ensinando a sociedade a ser hipócrita”.
Além do pedido para a extensão do mandato da CNV ou da instauração de uma comissão permanente, há outra certeza uníssona das comissões estaduais sobre um ponto que “não pode faltar” dentre as recomendações do documento final: a reinterpretação ou a revisão da Lei de Anistia, movimento que pode levar agentes torturadores do Estado ao banco dos réus. “Seria mais um trabalho de interpretação da lei”, explica Fernando Coelho, coordenador da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, de Pernambuco, parlamentar pelo MDB à época da votação da lei no Congresso Nacional. “Houve um equívoco na decisão do STF ao falar sobre a existência de um acordo para a votação, no qual se teria negociado a volta dos exilados em troca da anistia dos torturadores. Esse acordo nunca existiu”.
Para a presidente da Comissão Estadual do Rio, Nadine Borges, o pedido de revisão da lei é elementar, assim como a abertura dos arquivos da época. “Será uma vergonha histórica se isso não constar no relatório final da CNV”, enfatiza. Ela explica ainda que o relatório parcial do Rio pedirá ainda a inclusão em livros didáticos de um resumo dos trabalhos das comissões da verdade; a formação de direitos humanos em todos os níveis hierárquicos das Forças Armadas; e a alteração de nomes de logradouros públicos que homenageiem figuras ligadas ao regime militar.
Diogo observa ainda que o documento final da CNV não pode deixar de conter um trecho sobre a participação dos empresários na repressão, enquanto Quinalha lembra a importância de se pedir reparação às pessoas LGBT perseguidas e prejudicadas pelas violências do Estado; e a alteração do artigo 235 do Código Penal Militar de 1969 que estabelece ser crime “praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração militar”.
Já a Comissão da Verdade do Rio Grande do Sul mantém a esperança de haver ainda uma recomendação específica sobre a desmilitarização das polícias militares. “As forças públicas estaduais foram transformadas, na ditadura, em auxiliares das Forças Armadas, por isso participaram da repressão também. Essa ideologia que identifica o povo como inimigo é incompatível com a função policial”, diz o coordenador Carlos Frederico Guazzelli. “Mesmo que haja governantes democráticos, a sua polícia acaba sendo extremamente autoritária”.
Procurada por CartaCapital, a CNV não esteve disponível para prestar esclarecimentos a respeito do relatório final. A previsão é de que o documento tenha 33 capítulos divididos em cinco partes que falarão sobre resumo das atividades; comprometimento das estruturas do Estado na repressão; práticas, métodos e eventos emblemáticos; vítimas e grupos sociais vitimados; instituições do Estado e a sociedade face às graves violações de direitos humanos; além de um anexo sobre mortos e desaparecidos e outro com hiperlinks para documentos citados. Até o dia 30 de setembro, a CNV recebe sugestões do público para o relatório final que podem ser enviadas através do site da comissão.