sábado, 31 de agosto de 2013

Cidade-chave na luta antifascista, Bolonha preserva memória da resistência

A resistência antifascista durante a II Guerra Mundial permanece viva nas ruas, muros, becos e vielas de Bolonha. A cidade, que foi um dos principais locais da luta contra o governo de Benito Mussolini (1922 - 1943) e, posteriormente, contra a invasão das tropas nazistas (1943 - 1945), preserva marcas daquele período em sua arquitetura e história.
Em um passeio pelo centro da cidade, é possível encontrar diversos monumentos em homenagem às pessoas que, de diferentes formas, combateram o nazi-fascismo. A resistência, como organização armada e clandestina, baseada na estratégia de guerrilha, teve início apenas em setembro de 1943, com a invasão alemã. De desertores das Forças Armadas da Itália até combatentes da Guerra Civil Espanhola, o movimento dos partigiani (ou "partizans") chegou a reunir cerca de 15 mil membros em Bolonha, entre homens e mulheres de diferentes idades.

Marina Mattar/Opera Mundi

Fotos expostas no Museu da Resistência mostram comemoração após libertação da cidade

Histórias emblemáticas desse duro período são contadas em placas de mármore penduradas nas paredes e cercadas de flores, em uma tentativa de deixar viva a memória dos que se arriscaram pela liberdade. Um dos exemplos mais impressionantes é o caso de um comerciante que foi fuzilado pelos oficiais nazistas quando descobriram que ele desviava a pólvora comprada pelo governo em sua loja para a luta antifascista.

Entre os arcos e torres medievais, os turistas podem conhecer a beleza de outra Bolonha, bastante diferente da divulgada nos guias e muito distante das famílias aristocratas do período medieval. Conheça dez pontos fundamentais para reviver a história da resistência dos partigiani na cidade:


Ver Bolonha num mapa maior

1) Estação ferroviária de Bolonha: o local foi bombardeado por Mussolini por ser um ponto estratégico da resistência em 14 de setembro de 1943. Em 2 de agosto de 1980, um atentado terrorista cometido por um grupo de extrema-direita italiano matou 85 pessoas e deixou 200 feridas. O relógio da estação continua parado até hoje ás 10h25, horário em que explodiu a bomba do atentado, como forma de preservar a memória das vitimas.

2) Giardino del cavaticcio: canal de um dos afluentes do rio Reno que corta Bolonha, na época da resistência, esse espaço estava localizado fora do centro da cidade em seus limiares com o campo. Por esta razão, era utilizado como esconderijo por diversos batalhões da resistência.

No dia 7 de novembro de 1944, o local foi palco de uma das principais batalhas da luta antifascista bolonhesa, quando dois soldados nazistas foram até o local para urinar e descobriram a presença dos partigiani. Os militares alemães avisaram a seus colegas e logo, cercaram o local, dando início à batalha da Porta Lame.

Raphael Piva/Opera Mundi

Vista da Porta Lame, palco de uma das vitórias mais importantes da resistência em Bolonha

Sob a névoa característica do inverno bolonhês, os membros da resistência conseguiram fugir pelo canal. Apesar de avistados por soldados nazistas posicionados à frente, os guerrilheiros conseguiram passar, pois foram confundidos por uma tropa alemã. Enquanto isso, os partigiani que permaneceram nas redondezas do canal chamaram a atenção dos nazistas com tiros, atraindo-os para a Porta Lame. Concomitantemente, alguns membros do grupo conseguiram avisar outros batalhões da organização, que se mobilizaram e cercaram os nazistas naquele local.

3) Porta Lame: parte de uma muralha construída no século XIII e reformada em 1674, foi palco de uma das vitórias mais importantes da resistência italiana durante a ocupação alemã na Itália. Hoje, a vitória dos antifascistas é lembrada com a estátua de dois partigiani – um homem e uma mulher –, construída a partir do bronze extraído de um antigo monumento de Benito Mussolini.

Raphael Piva/Opera Mundi

Homenagem aos membros da resistência mortos na batalha da Porta Lame

A obra, instalada em 1953, foi esculpida pelo artista bolonhês Luciano Minguzzi e foi premiada na competição para o "Monumento ao Prisioneiro Político Desconhecido", organizada pela Tate Gallery (Londres) no mesmo ano. Além do monumento, uma placa lembra o nome dos guerrilheiros mortos na batalha. Segundo historiadores, os partigiani conseguiram vencer os oficiais nazistas no pé da porta.

4)  Cinemateca de Bolonha: a área ocupada, atualmente, pela Cinemateca de Bolonha e outros edifícios públicos foi de grande importância para a luta antifascista italiana. Além de ter servido como abrigo dos membros da resistência, também foi um dos locais da batalha da Porta Lame. Periferia da cidade na época da II Guerra, muitos grupos partigiani permaneciam escondidos na região, aonde recebiam mantimentos da população solidária à luta. Para preservar a memória da resistência, não foram construídos prédios privados no local.

Marina Mattar/Opera Mundi

Atual Cinemateca de Bolonha foi construída no antigo local aonde partigiani se escondiam; não são construídos edifícios privados no local a fim de preservar a memória

5) Universidade de Bolonha: uma das mais antigas universidades do mundo, com fundação datada em 1008, a Universidade de Bolonha também foi campo de batalha no período nazi-fascista. Grande parte de seus professores, pesquisadores e alunos tiveram atuação importante na resistência, se opondo ao governo de Mussolini e, posteriormente, à ocupação nazista.

O atual prédio da Faculdade de História (Piazza San Giovanni in Monte, 2) era uma prisão utilizada para prender os membros da resistência. No local, ocorreu uma das ações de boicote da luta antifascista mais bem sucedida em Bolonha: os partigiani capturaram um carro nazista e disfarçados com as roupas dos militares alemães, conseguiram entrar na prisão e libertar outros companheiros.

6) “Gueto” judeu (via Dell Inferno x Piazzeta Marco Biagi): grande parte dos judeus que vivia em Bolonha, durante o governo fascista, residia em uma região do centro da cidade em pequenos sobrados. A área foi alvo de investidas no governo de Mussolini e, posteriormente, durante a ocupação nazista. Estima-se que cerca de mil judeus lá viviam na época, dos quais 500 foram deportados para campos de concentração e apenas 100 conseguiram sobreviver. Centenas conseguiram escapar do extermínio com a ajuda de italianos, que os abrigavam em suas casas, assumindo correr riscos de represálias.

7) Monumento às mulheres da resistência (Parque de Villa Spada, na via Zaragoza): as mulheres que participaram da luta antifascista em Bolonha também não foram esquecidas: em 1975, foi construído um monumento em homenagem a elas, no qual constam os nomes de centenas de mortas durante a resistência. As mulheres possuíam um papel fundamental na organização partigiani, pois eram as únicas que conheciam todas as brigadas da cidade e tinham a responsabilidade de coordenar as ações. Em bicicletas ou a pé, essas duas mil mulheres atravessavam Bolonha e os campos ao redor para levar mensagens e mantimentos, correndo grandes perigos.

Marina Mattar/Opera Mundi

Monumento às mulheres da resistência na Biblioteca Salaborsa

8) Santuário aos partigiani mortos (Piazza Neptuno): localizado no coração de Bolonha, o santuário é uma das homenagens mais impactantes à resistência antifascista na cidade. Centenas de fotografias com nomes inscritos embaixo nos contam quem eram os homens e mulheres por trás da organização partigiani e que acabaram morrendo na luta. Localizado exatamente no paredão utilizado para fuzilamentos pelos nazi-fascistas, os painéis começaram a ser construídos, espontaneamente, por familiares e amigos das vítimas que desejavam preservar sua memória.

Marina Mattar/Opera Mundi

Homenagem aos partigiani mortos durante a II Guerra Mundial em Bologna

A iniciativa recebeu o apoio das autoridades, que acrescentaram dados sobre a luta antifascista. Segundo informações oficiais, entre os quase 15 mil partigiani, 2.059 foram mortos, sem contar os 2.350 fuzilados e os 829 que perderam a vida em campos de concentração; 945 ficaram feridos em combate; e 6.543 foram presos.

9) Piazza Maggiore: a Praça Maior de Bolonha, que reúne as principais atrações turísticas da cidade, também foi palco de eventos importantes na II Guerra Mundial. Local de grande simbolismo, era nessa praça central que os fascistas faziam suas principais demonstrações de poder, de comícios à mobilizações populares. Durante o conflito, em setembro de 1943, o governo italiano mudou o nome da praça para Piazza della Reppublica em alusão à República Social Italiana, nome dado ao país depois da ocupação nazista (1943 - 1945).

Em abril de 1945, durante a libertação da Itália do nazi-fascismo, a Praça Maior retomou seu nome e foi tomada por grandes comemorações. No Museu da Resistência, estão disponíveis as fotos dessa celebração.

10) Museu da Resistência (ex-Convento di San Mattia ): de documentos à fotografias e relatos, o museu preserva diversos tipos de materiais referentes a resistência antifascista na Itália e, mais especificamente, em Bolonha. Diversos painéis com documentos da época e informações são divididos em salas temáticas. Visita fundamental para quem quer saber mais sobre a história do nazi-fascismo e a resistência no país. Gerido por voluntários, o museu tem entrada gratuita e guias bastante solícitos e interessados em ajudar.
Fonte: Opera Mundi

Restos alimentícios de 1100 anos de idade são encontrados em sítio arqueológico no México

Restos de grãos carbonizados de milho, feijão, abóbora e amaranto com mais de 1100 anos de idade foram descobertos nesta semana, durante escavações iniciadas no último ano no sítio arqueológico de La Quemada, no México, e agora sugerem que o local foi um povoado mesoamericano pré-hispânico, não um lugar de peregrinação, como se acreditava anteriormente.

“Essa é a primeira vez no sítio que se descobrem sementes em um contexto de tipo doméstico e que se relacionam a alimentação”, indicou Marco Antonio Santos, arqueólogo do Inah (Instituto Nacional de Antropologia e Histórica), responsável pelas escavações. Ele descartou que os grãos tenham chegado por meio do comércio, porque o milho e o feijão já haviam sido encontrados em terras isoladas para cultivo agrícola do sítio em explorações anteriores.

Reprodução

Vista panorâmica de El Cuartel, no México: complexo possuía cinco níveis e foi construído sobre uma colina 

Também foram encontradas vigas de pinheiros com mais de dois metros de altura, o que sugere a existência de florestas na região, as quais devem ter desaparecido devido às atividades mineradoras dos últimos 450 anos. “Isso, somado aos restos vegetais que datam de entre 650 e 900 d.C., sugerem que a fronteira norte mesoamericana estava muito acima do que havíamos pensado até agora [em termos de desenvolvimento]”, explicou Santos. 
Reprodução"Este povoado, localizado no município de Villanueva, foi construído em cinco níveis sobre uma colina, no segundo dos quais se localiza uma estrutura denominada El Cuartel, que era a área residencial da elite da comunidade pré-hispânica e que compreende um território de cerca de 500 metros quadrados”, diz o especialista.

[Arqueólogos fazem escavação em sítio de La Quemada]

La Quemada foi um assentamento pré-hispânico com ocupação de 300 a 1200 d.C. e esplendor entre 650 e 900 d.C. Pelas semelhanças que tem com a cidade pré-hispânica de Altavista, tem sido associado ao desenvolvimento da cultura chalchihuites, cuja influência se vê na arquitetura, em desenhos em cerâmica e decoração com pigmentos verdes, azuis e amarelos, assim como altas concentrações de restos ósseos humanos em alguns edifícios.
Fonte: Opera Mundi

1943: Nazistas fecham jornal "Frankfurter Zeitung"

Em 31 de agosto de 1943, o jornal "Frankfurter Zeitung", cuja relativa independência era tolerada para dar um tom liberal ao regime de Hitler, foi fechado pelos nazistas.
A última edição do jornal Frankfurter Zeitung foi publicada em 31 de agosto de 1943, quando o órgão que dava um tom liberal ao regime nazista foi proibido de circular por ordem pessoal do ministro da Propaganda, Joseph Goebbels. O jornal econômico republicano-liberal da era Bismark teve de parar as rotativas depois de dez anos de atividade sob o emblema oficial do partido nazista e do Terceiro Reich.
Frankfurter, como era carinhosamente chamado pelos leitores, fora o diário de maior destaque da República de Weimar e era um incômodo constante para os nazistas. Tanto mais surpreendeu o fato de que ele continuara circulando depois de 1933.
Fritz Sänger, à época correspondente em Berlim e, após 1945, diretor da agência de notícias DPA, lembra que durante o nazismo toda a imprensa alemã foi amordaçada. Uma exceção era oFrankfurter Zeitung que, ao lado de alguns outros jornais, tentou combater o regime. Hitler acreditava que esses jornais serviriam de cartão de visita do nazismo no plano internacional.
Independência tolerada
O alinhamento da imprensa alemã com o nazismo, portanto, não era total, como frequentemente se afirma. Goebbels tolerava uma certa independência do Frankfurter Zeitung para tornar o nazismo socialmente aceitável nos meios burgueses. O ministro da propaganda esperava que a circulação do jornal servisse de prova da liberalidade do regime no exterior.
O alto nível dos artigos publicados pelo jornal era garantido por autores como o futuro presidente da Alemanha, Theodor Heuss, e os publicistas Walter Dirks, Karl Korn e Dolf Sternberger. No caderno de cultura escreviam esquerdistas-liberais como Ernst Bloch, Hermann Hesse ou Siegfried Kracauer.
Segundo Fritz Sänger, praticamente não ocorreram mudanças na equipe de redatores após a tomada do poder pelos nazistas. "Alguns, porém, foram demitidos, porque eram judeus. Outros foram embora. Vieram alguns novos, mas em apenas um caso foi desmascarado um membro do partido nazista, que logo sumiu. A redação, portanto, era um círculo fechado em que não ocorriam traições."
Os redatores do Frankfurter, no entanto, aceitaram passivamente a demissão dos colegas judeus e a faxina étnica na empresa. Como órgão de oposição, o jornal oscilava entre o oportunismo e uma certa autonomia. Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a redação começou a silenciar.
Refúgio intelectual
Conteúdos subversivos somente eram publicados pelo folhetim num estilo de linguagem bem diferente do antissemitismo vulgar de um observador popular e serviam de refúgio intelectual para os leitores não nazistas. Segundo Dolf Sternberger, à época redator do Frankfurter Zeitung, apesar de usar uma série de malabarismos para escapar da censura, a direção do jornal foi obrigada a fazer concessões humilhantes ao nazismo.
Alguns jornalistas do Frankfurter até mesmo fortaleceram o regime com seu trabalho. Uma das versões correntes sobre a causa do fechamento do jornal foi a publicação de um artigo criticando as obras de Paul Ludwig Troost, um dos arquitetos preferidos de Hitler.
Outra versão é um artigo publicado em 23 de março de 1943 e que apresentou o cofundador do movimento nazista, Dietrich Eckart, mentor de Hitler e criador do slogan "Acorda Alemanha!", como indivíduo sem caráter e classificou sua obra literária como um amontoado de frases. Mencionou também que Eckart era um dependente de morfina.
Algumas semanas depois, o jornal foi proibido de circular, mas não em função da publicação do perfil de Eckart e, sim, devido aos paralelos que traçou com o morfinismo de Hermann Göring. Oficialmente, o regime alegou que o fechamento do jornal devia-se à medidas de economia de guerra.
Na realidade, o papel representativo do Frankfurter Zeitung para o exterior havia se esgotado em 31 de agosto de 1943. O comportamento da Alemanha na Segunda Guerra Mundial e os horrores de Auschwitz dispensavam qualquer tentativa de vender uma imagem liberal do regime nazista.
Michael Marek (gh)

DW.DE

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O processo de Joana D’Arc

por Philippe Contamine
"Joana d’Arc, uma das pessoas de índole mais simples que a história produziu, está em processo eternamente”, escreve o acadêmico Jean Guitton. O inquérito contra a Donzela – para empregarmos um termo jurídico – começou com a sua estada, que se prolongaria por várias semanas, em Poitiers, na França, em março de 1429, no curso das quais os doutos da Igreja e também os juristas do Estado vigiavam permanentemente seu comportamento, inquirindo-a com perguntas insidiosas tanto para tentar atingir sua enorme credibilidade quanto para delinear sua personalidade.

O primeiro veredicto a que chegaram é que não havia nada de inquietante, nem de suspeito a respeito daquela pastora pouco culta que, dizendo-se guiada por vozes, se apresentara diante do delfim afirmando que viera para conduzir os franceses à vitória. Sua boa-fé parecia verdadeira; seu projeto era santo. Talvez a Providência, enfim, tivesse decidido intervir a favor de Carlos VII da França, um rei considerado muito cristão, e de seus súditos. Certamente, o instrumento dessa intervenção poderia surpreender, mas era teologicamente admissível. Era fato – assim mostrava a Bíblia – que o céu se interessava pelo destino dos povos e das nações. Logo, não apoiar a iniciativa da “enviada de Deus” que desejava provar a origem sobrenatural de sua missão por meio de um “sinal” perante a cidade de Orléans, sitiada havia seis meses pelos ingleses, seria dar provas de ingratidão. Parecia absolutamente inevitável, pode-se dizer necessário, sobretudo num momento de angústia, confiar nela.
E o milagre acontece! As palavras da pequena Joana são confirmadas. O cerco de Orléans é desfeito (8 de maio de 1429) e, logo a seguir, três outras cidades do vale do Loire são reconquistadas. Quando os ingleses são derrotados em Patay (18 de junho), a reconquista do reino se acelera – e Carlos VII, conduzido pela Donzela de Orléans (a partir dessa data, ela será conhecida por esse nome), é sagrado rei, na catedral de Reims, no dia 17 de julho, em clima de entusiasmo geral. Mesmo depois de tudo isso, as interrogações continuam: que força se esconde por trás dessas vitórias espetaculares?
A propaganda da Coroa francesa reforçou a dimensão religiosa da personalidade de Joana. A Donzela foi apresentada como uma profetisa que já teria sido anunciada por outros profetas. A resposta veio no mesmo campo da religiosidade, o que começou a traçar o destino da pastora guerreira. Um tratado em latim, redigido por um acadêmico parisiense, sem dúvida especialista em direito canônico, que foi escrito nas últimas semanas de 1429, nos dá o testemunho disso. O objetivo foi responder à obra de Jean Gerson Sobre uma donzela (De quadam puella, 14 de maio de 1429), onde são enumeradas as razões para crer nos propósitos santos de Joana.

No tratado anônimo, as críticas endereçadas a Joana são as seguintes: vestia-se como homem, tinha atitudes belicistas, falsas profecias, idolatria a seu favor e recurso a sortilégios. A cereja do bolo foi apontar como falta de respeito às festas religiosas a tentativa frustrada de Joana de entrar em Paris, dominada por borguinhões e ingleses, em 8 de setembro de 1429, festa da Natividade da Virgem. Tantos motivos levaram esse homem da Igreja a pedir a intervenção da universidade e do bispo de Paris – e do Tribunal da Inquisição também, habilitado a se pronunciar em todos os casos de heresia.



EM BUSCA DE CONFISSÕES Não surpreende que a universidade, cuja autoridade em matéria de teologia permanecia incontestada, e a Inquisição, agindo com ela, tenham pedido o julgamento de Joana, logo após sua prisão pelos borguinhões em Compiègne, em 23 de maio de 1430. É inútil conjecturar que esses dois órgãos tenham sido forçados pelo duque de Bedford, regente inglês na França, a tomar essa posição. A solicitação de investigação foi iniciativa dessas instituições.

Após meses de subterfúgios e negociações, a Donzela foi entregue, enfim, ao rei da França e da Inglaterra. Ela passou a ser sua prisioneira de guerra. Não seria possível julgá-la, condená-la à morte como rebelde, passível de crime de lesa-majestade?

Claro que sim. Mas o impacto de um processo semelhante seria, sem dúvida, negativo aos olhos de uma opinião pública sempre hesitante entre os borguinhões e Carlos VII. Decidiu-se então submeter o pedido das autoridades eclesiásticas para que fosse feito um processo “em matéria de fé”. Por sorte, o lugar preciso onde Joana foi presa se situava na diocese de Beauvais, cujo bispo, Pierre Cauchon, era também um dos pilares da dupla monarquia. Esse prelado, dublê de político, seria encarregado desse processo da Igreja, que ocorreria, por mais precaução, no castelo real de Rouen, que era ocupado muitas vezes pelo jovem rei inglês Henrique VI.

Pierre Cauchon não era um especialista nesse tipo de processo. Ademais, ele sabia quanto o assunto era polêmico. O bispo tomaria muitas precauções para cumprir a missão que lhe fora designada (desqualificar a acusada, neutralizá-la e mesmo eliminá-la) e fazer do processo uma obra comum dos bispos, abades mitrados, teólogos e canonistas, guarnecidos de títulos e diplomas. Era necessário que a condenação fosse, de certa forma, inatacável no campo do direito, já que, por certo, as acusações de falta de isenção se levantariam.
Ao lado de Cauchon estavam um inquisidor (Jean Le Maître), um promotor eclesiástico (Jean d’Estivet, chamado o Beneditino) e três escrivães públicos. Certamente, Joana, sozinha, contra esse poderoso tribunal, estava longe de ter chances reais de absolvição nesse processo. A isso se somavam o rigoroso encarceramento, a falta de um advogado de defesa, testemunhas de acusação não identifi cadas, nenhuma investigação de moralidade, e, sobretudo, privação de comunhão, o que para ela representava um intenso sofrimento espiritual. Mas essa era a prática da Inquisição, que se baseava na presunção de culpabilidade. Estar sob veementes acusações de ser herege (como era o seu caso) já era ser considerado culpado por heresia. Uma vez o tribunal instalado no castelo do rei, o processo começou (21 de fevereiro de 1431).

A reviravolta aconteceu quando Cauchon e seus assessores compreenderam que Joana se recusaria resolutamente a submeter as suas vozes e as suas revelações à apreciação da hierarquia da Igreja, sobretudo às pessoas hostis e parciais que estavam diante dela. À sua maneira, ela os declarava incompetentes. Parecia aceitar que seu caso fosse levado ao papa, em Roma, ou até mesmo ao concílio geral que deveria se reunir, em breve, em Basileia. Reivindicada de maneira explícita, essa insubmissão a fez, consequentemente, ser expulsa da Igreja. Ela não passava de um membro podre do corpo místico de Cristo; para a salvação do povo cristão, era necessário arrancá-lo. A sua personalidade polêmica, obstinada, ajudou aqueles inquisidores a transformá-la em herege.

Essa era a situação em 24 de maio de 1431, dia em que, em praça pública, perto da abadia de Saint-Ouen, extenuada, ela resolveu, enfim, após o desenrolar de uma cena patética, negar as suas vozes e se submeter à Igreja. Em seguida a essa aparente abjuração, ela escapou in extremis da fogueira e foi reconduzida à sua prisão para fazer penitência com pão e água.

VIGIADA POR SOLDADOS INGLESES O caso, na esfera civil, poderia ter terminado por aí. Mas, talvez, decepcionada por ainda se encontrar presa (a possibilidade de uma prisão sob o comando da Igreja, menos severa, onde ela seria vigiada por mulheres em vez de por soldados ingleses que nutriam ódio por ela, a animara a abjurar), ela afirmou que seguia ouvindo vozes e, como sinal da sua mudança, tornou a vestir roupas de homem, misteriosamente deixadas à sua disposição pelos carcereiros ingleses.

Esse acontecimento gerou um segundo processo, mais sumário: cometendo seu erro mais uma vez, ela foi classificada como relapsa. A partir daí, foi entregue ao braço secular, isto é, ao poder real, que a condenou à fogueira na praça Vieux-Marché, no dia 30 de maio de 1431. O poderoso cardeal Henri Beaufort, bispo de Winchester, tio-avô do rei Henrique, assistiu ao seu fim. Nos bastidores, ele acompanhou de muito perto o desenrolar do processo. Certamente, a dupla monarquia jamais considerou cabível a declaração de inocência da prisioneira, seguida por eventual liberação. Ela causara muitos danos aos ingleses, e o seu potencial de liderança subsistia.



Podia-se, por outro lado, questionar a posição de Cauchon: ele era apenas um executor desprovido de autonomia ou, como homem da Igreja, acreditava ser possível que a culpada fosse condenada a uma simples pena de prisão, com a condição de que reconhecesse ter deliberadamente enganado o povo, por ter sido enganada pelo diabo?

De início, o prelado não suspeitou da importância que ela atribuiu às vozes, ou seja, ele ignorava a natureza, senão a sua existência, e não entendia, portanto, a tranquila determinação de defender seu rei e assumir a sua missão. Ela podia ter negado imediatamente. A resistência surpreendeu. Após a abjuração, Cauchon se perguntou se ela continuaria a se arrepender, se esse ato não fora causado simplesmente pelo medo da fogueira. Com o benefício da dúvida, pode-se conjecturar que Cauchon chegou a ficar satisfeito com a abjuração de 24 de maio.
UM PERIGO PARA A FÉ E O PODER A questão para a dupla monarquia não era apenas condená-la à morte. Era também necessário convencer a opinião pública, na França e fora da França, da legitimidade dessa condenação. Cartas foram redigidas, algumas em latim, outras em francês, especialmente para o rei do Sacro Império Romano-Germânico, Sigismundo de Luxemburgo, o duque da Borgonha, o papa e os cardeais. O que essas cartas diziam?

Aquela mulher, devido à grande popularidade, representava um perigo para a fé, os poderes e a sociedade; ela era cruel e presunçosa, consentindo que seus seguidores a idolatrassem, por orgulho; estimava-se acima das autoridades eclesiásticas, mesmo as mais altas, dirigindo-se diretamente a Deus, de quem se julgava enviada.

Em um momento, diziam as missivas, arrependeu-se de seus erros, e a Igreja, na sua misericórdia, perdoou-a. Infelizmente, essa abjuração era apenas um logro, do qual ela voltou atrás. Então, a Igreja pronunciou sua sentença definitiva. É verdade que, antes de morrer, na última reviravolta do processo, ela confessou que as vozes a enganaram e se entregou à Igreja, a única capaz de julgar a natureza dessas vozes.

Nada mostra que essa propaganda tenha atingido o seu objetivo. O que pensava Carlos VII, que permaneceu sem reação durante todo o processo? Talvez, a seus olhos, Joana não pudesse mais ser controlada e se tornasse mais nociva do que útil, no caso de uma eventual aproximação com a Borgonha; talvez, seus conselheiros eclesiásticos tenham-no persuadido de que os fracassos sucessivos que ela sofreu desde o assalto frustrado em Paris, que ela, aliás, tinha previsto, mostravam que Deus não estava mais a seu lado.

Conhece-se o desenrolar do processo graças à redação, em latim, feita algumas semanas ou meses após sua conclusão, dos atos (um original mais cinco cópias autênticas, das quais três chegaram até nós). A autoria dessa redação é de Thomas de Courcelles, um jovem universitário com um futuro promissor, ajudado pelo consciencioso Guillaume Manchon, um dos três escrivães. Com esse documento em vários exemplares (um caso único), a dupla monarquia entendia dispor de um bom dossiê, em caso de contestação da parte de Carlos VII junto ao papa ou ao concílio de Basileia.

Certamente, os atos do processo de condenação são o resultado de uma classificação hábil: quase sempre redigidos no estilo indireto, as respostas de Joana não são transcritas literalmente – contudo, há que se admitir que, apesar da forma enviesada, eles refletem tanto o espírito do processo quanto o conteúdo dos diálogos entre Joana e seus juízes. Não se pode falar de falsidade.

UM PROCESSO POLÍTICO Processo religioso ou político conduzido por juízes ligados a um partido? Tomadas uma por uma, as acusações contra o tribunal podem parecer fundamentadas. A orgulhosa insubmissão de Joana à Igreja oficial, isto é, aos supostos detentores terrenos do poder espiritual, sempre vai pesar contra seus acusadores. A Igreja não se pronunciou a respeito das visões nascidas do cérebro dessa jovem inteligente, porém iletrada, que, talvez, as inventasse. É necessário, contudo, concluir que se tratou de um processo político: se Joana tivesse falado e agido a favor dos ingleses, não seria possível um processo em matéria de fé. Eles a deixariam agir, ainda que a vigiassem à distância. Inversamente, teria sido melhor para ela não ter caído nas mãos de um capitão de Carlos VII, porque a Inquisição também existia no “reino de Bourges”, baseando-se nos mesmos princípios dos da “França inglesa”.

Philippe Contamine, historiador, é especialista em Idade Média
Fonte: História Viva

O direito à cidade nas manifestações urbanas: entrevista inédita com David Harvey

13.08.28_David Harvey_Cidades rebeldes_2Entrevista especial com David Harvey.
O geógrafo britânico David Harvey é um dos pensadores mais influentes da atualidade. Unindo geografa urbana, marxismo e filosofia social na compreensão das contradições do mundo contemporâneo, sua obra é um forte eixo de renovação da tradição crítica e ganha especial relevância num contexto de explosão de movimentos contestatórios urbanos no Brasil e no mundo.
Nesta entrevista, traduzida em primeira mão pelo Blog da Boitempo, Harvey discute as manifestações que tomaram as ruas do Brasil a partir de junho e os desafios para a organização de mobilizações urbanas de amplo escopo, assim como o lugar das novas tecnologias e dos movimentos sociais. À luz do urbanismo privatizado e securitário de Londres, o geógrafo comenta a importância do debate sobre o direito à cidade e os desafios de se pensar uma cidade anti-capitalista. Traçando paralelos com revoltas urbanas ao redor do globo, da China a Istambul, ele esboça, inclusive, acréscimos a sua obra mais recente, que dá nome e inspira o livro de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, que a Boitempo acaba de lançar analisando as causas e consequências das ditas “Jornadas de Junho”, e com o qual Harvey contribui como autor.
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Em 1968, Henri Lefebvre introduzia o conceito do “direito à cidade”. Ele advogava o “resgate do homem como o principal protagonista da cidade que construiu (…) o ponto de encontro para a vida coletiva.” O senhor tem se referido a esse direito coletivo – de refazermos a nós mesmos e a nossas cidades – como “um dos mais preciosos, porém mais negligenciados de nossos direitos humanos.” De que formas o senhor pensa que temos negligenciado esse direito humano nos últimos anos?
Se a questão de que tipo de cidade é construída depende criticamente do tipo de pessoa que queremos ser, então a ampla falência em se discutir abertamente essa relação significa que abandonamos o remodelamento das pessoas e de suas paixões aos requisitos da acumulação do capital. Acredito que estava bem claro a seus planejadores e legisladores que a suburbanização dos Estados Unidos após 1945 não apenas ajudaria resgatar os EUA do prospecto de um retorno às condições de depressão dos anos 1930 por meio de uma ampla expansão da demanda efetiva, mas que serviria para criar um mundo social e político desprovido de consciência revolucionária ou de sentimento anticapitalista. Não é de se espantar que o movimento feminista da década de 1960 via o subúrbio como seu inimigo e que o estilo de vida suburbano tornou-se associado a um determinado tipo de subjetividade política socialmente preconceituosa, excludente e, em último caso, racista.
Londres é elogiada como uma cidade multicultural, e talvez um componente significativo do direito à cidade seja o direito de coexistir. Ao reimaginar e refazer cidades, como podemos garantir que esse processo não se dê de forma a privilegiar ou discriminar diferentes interesses ou comunidades que nela existem?
Não há nada que garanta isso além de movimentos sociais, engajamento político ativo e a disposição de lutar por seu lugar. Conflito na e pela cidade é saudável, e não uma patologia que intervenções estatais devem controlar e suprimir.
Vivemos em uma era digital. Em muitos casos, há quem desenvolva relações mais íntimas com pessoas a milhares de quilômetros de distância do que com seus próprios vizinhos de rua. Se é justo dizer que as cidades têm tendido, historicamente, a se desenvolver em torno de um espaço físico compartilhado, de que forma as tecnologias comunicativas que minam a preeminência de comunidades físicas/espaciais afetam a futura configuração da cidade?
As novas tecnologias são uma faca de dois gumes. Por um lado, funcionam como “armas de destruição em massa” levando as pessoas a acreditarem que a política só seria possível em algum mundo virtual. Por outro, podem ser usadas para inspirar e coordenar ação política nas ruas, nos bairros e por toda a cidade. Nada substitui corpos na rua mobilizados para ação política como vimos no Cairo, em Istambul, Atenas, São Paulo etc. Quando trabalham junto com política de rua ativa, as novas tecnologias podem ser um recurso fabuloso.
Em “Whose Rebel City?”[Cidade rebelde de quem?], Neil Grey sugere que em seu livro mais recente, Rebel Cities, a análise do senhor negligenciava a tradição [marxista] autonomista que surgiu durante as lutas urbanas das décadas de 1960 e 1970 na Itália – caracterizadas pelo slogan “Tomar a cidade”; por debates feministas em torno da reprodução social; pela ideia da “fábrica social” e o dito “ativismo comunitário territorial” –, focando sua teoria na absorção do capital e do trabalho excedente via urbanização. Como o senhor responde a essa crítica? Concorda que essas práticas políticas podem servir de modelos delineadores de como habitantes poderiam reorganizar suas cidades?
Acho essa crítica estranha. De fato, o capítulo 2 de Rebel cities trata da criação da urbanização por meio de processos de acumulação de capital, mas o capítulo 5 se dedica a movimentos sociais de classe nas cidades. Não pude cobrir todos esses movimentos, é claro, e então existem tantos, como os associados ao movimento autonomista na Itália que são, certamente, dignos de inclusão. Mas cheguei a me debruçar sobre a forma pela qual as casas das pessoas no começo do século na Itália complementavam os movimentos de conselho fabril e, é claro, se inspiraram muito no caso de El Alto assim como na Comuna de Paris e em outras insurgências urbanas, na tentativa de teorizar de que formas poderiam ser compreendidos no quadro da luta de classes. Então dizer que eu só me preocupei com a absorção do capital excedente é um tanto esquisito e sugere que Neil Grey ou não chegou ao final do livro ou foi desdenhoso porque não tratei de seu movimento social urbano favorito em particular.
Gostaria, no entanto, de ter citado o comentário de Gramsci sobre a importância de suplementar os conselhos fabris com comitês de bairro:
“No comitê de bairro, deveria tentar-se incorporar delegados também de outras categorias de trabalhadores que habitam o bairro: garçons, motoristas, condutores de bonde, ferroviários, lixeiros, empregados domésticos, comerciários etc. O comitê de bairro deveria ser a emanação de toda a classe trabalhadora que habita o bairro, emanação legítima e influente, capaz de fazer respeitar uma disciplina, investida de poder, espontaneamente delegado, bem como capaz de ordenar o fechamento imediato e integral de cada trabalho em todo o bairro.”(“Democrazia operaia“, L’Ordine Nuovo, 21 de junho, 1919; versão em português)
Na esteira da rápida urbanização e pleno inflacionamento da bolha de propriedade na China, o senhor falou de uma crescente luta de classes de base da qual quem mora no Ocidente simplesmente não ouve falar. Se olhássemos com mais cuidado à situação na China, o que poderíamos aprender?
Há muito mais saindo sobre a China agora e há um crescente reconhecimento dos perigos, tanto das gigantescas bolhas de ativos urbanos (particularmente na habitação), quanto de um problema crônico de superprodução de urbanização em resposta à queda de mercados de exportação em 2008. Existe agora muito nervosismo no que diz respeito à superacumulação urbana. Teoricamente, compreendo o que está acontecendo, mas não sei dizer quando o processo será interrompido. E sabemos que existe muita inquietação urbana e industrial na China, mas é muito difícil julgar o quanto e com que significância.
O senhor coloca seu conceito de “acumulação por desapossamento” no coração da urbanização sob regime capitalista. Atualmente, trechos significativos de Londres estão sendo transformados sob o pretexto de “regeneração”, processo que vem acompanhado de cortes nos benefícios habitacionais, e o novo bedroom tax*. Um exemplo entre muitos seria o das centenas de moradores do conjunto habitacional de Heygate, no centro da cidade, que perderam suas casas para que incorporadores imobiliários pudessem substituir habitação social por propriedades “a preços acessíveis”. Movimentos locais emergiram em resistência a esses despejos, mas enfrentam continuamente constrangimentos políticos e legais. Quais são seus pensamentos sobre a importância e as potenciais armadilhas de um movimento unificado em toda cidade – ou de escopo ainda maior?
Acho que é vital unificar, o quanto for possível, as lutas contra o desapossamento na cidade toda. Mas fazer isso requer uma imagem precisa das formas de desapossamento e de suas raízes. Por exemplo, existe atualmente uma necessidade de montar um quadro das práticas predatórias dos incorporadores imobiliários e de seus financiadores em nível metropolitano, e começar uma luta coletiva e de toda a cidade para refrear e controlar suas práticas. Recentemente vimos uma grande inquietação urbana no Brasil tratando principalmente de custos com o transporte, mas também (e isso é notável, dado que se trata do Brasil) contra a construção de estádios para a Copa do Mundo e o deslocamento e gasto de recursos públicos envolvidos. Então, lutas em nível metropolitano e trans-metropolitano não são impossíveis. O perigo, como sempre, é que as lutas possam esmaecer na medida em que as pessoas se cansam da luta. A única resposta é manter as lutas acontecendo e construir organizações que têm a capacidade de fazer isso (o MST no Brasil é um bom exemplo disso, apesar de não ser uma luta distintamente urbana).
Existe uma distinta carência de espaços de propriedade comum em Londres. Boa parte da cidade é privatizada e atende ao panóptico securitário da vigilância, e há uma escassez de espaços públicos livres de interferências do mercado. É importante buscar e construir espaços comunitários para permitir àqueles que resistem às depredações do capitalismo terem espaço não somente para trabalho, mas para explorar novas vias de interação criativa também?
A questão de liberar espaços controlados pelo Estado para fazer deles um bem comum controlado pelas pessoas é, na minha opinião, crucial. A reversão da privatização dos espaços públicos é também vital e eu esperaria ver muito mais movimentos dirigidos a esses fins.
O senhor tem falado sobre a possibilidade de uma “liga de cidades socialistas” como uma maneira poderosa de mudar a ordem do mundo. Será que poderia discorrer um pouco sobre o que quer dizer, e como elas poderiam funcionar?
É uma ideia um tanto distante à primeira vista mas existe muita aferição ocorrendo entre cidades, e em determinadas questões, como o controle de armas nos EUA, existem ligações cooperativas entre administrações urbanas que podem ter resultados progressivos. Não vejo por que tais práticas não possam ser desenvolvidas em resistências urbanas organizadas contra práticas neoliberais. Penso que uma resposta coordenada atravessando o escopo da administração urbana no Reino Unido para a chamada bedroom tax seria uma possibilidade que ecoaria a maneira pela qual a luta sobre a poll tax* se desenrolou anteriormente. Temos de fato feito coisas desse tipo, mas deixamos de analisá-las completamente e de apreciarmos suas possibilidades posteriormente.
A inquietação civil está se tornando uma característica recorrente da vida urbana em Londres, assim como em outras cidades ao redor do mundo, dentre elas Atenas, Madri, Cidade do México, Buenos Aires, Santiago, Bogotá, Rio de Janeiro e, mais recentemente, Estocolmo. Os motins (não apenas protestos e movimentos sociais organizados) estariam se tornarndo parte da caixa de ferramentas para reivindicar o direito à cidade? O que aqueles aqui [em Londres], na capital financeira do mundo, podem aprender dessas lutas em outras cidades?
Já que me convida a comentar essas questões, temos Istambul. Quando você olha para a situação global, sente que há uma situação vulcânica borbulhando debaixo da superfície da sociedade, e nunca sabe quando e onde ele explodirá em seguida (quem diria Istambul, apesar de estar claro para mim em minha visita anterior que havia lá muito descontentamento). Penso que temos de nos preparar para tais erupções e construir, tanto quanto seja possível, infraestruturas e formas organizacionais capazes de apoiar e desenvolvê-las em movimentos sustentáveis.
Mesmo reconhecendo a inerente legitimação da propriedade privada no interior do conceito, quais são suas visões sobre a eficácia da implementação de uma taxa sobre o valor da terra** no Reino Unido? Você acha que ele poderia atingir algum dos efeitos equalizadores advogados por seus proponentes?
Acredito que uma taxa sobre o valor da terra poderia ajudar, mas, em último caso, não endereça o problema das vastas extrações de riqueza por uma classe de rentistas que se tornou tão poderosa nos anos recentes, particularmente em grandes cidades como Londres e Nova Iorque, pois isto é uma das principais formas de espoliação que precisa ser confrontada.
*
Bedroom tax é o apelido dado a uma das mais discutidas mudanças nas políticas públicas habitacionais impostas pelo pacote de reformas no bem-estar redigido no final de 2012, sob o Welfare Reform Act. Traduzido literalmente como “taxa do quarto”, trata-se de uma “penalidade de sub-ocupação” que reduz os benefícios dos beneficiários que possuiriam espaço demais. Em vigor desde abril de 2013, a medida é frequentemente comparada ao poll tax, ou imposto comunitário, imposto por Margaret Thatcher no final de seu governo. A medida, que substituía o imposto sobre o valor dos imóveis por uma taxa única a ser cobrada por habitante (“por cabeça”), foi fortemente resistida pela população e é um dos principais fatores atribuídos à queda da Primeira-Ministra neoliberal. [Nota do Editor]
** No Brasil, em especial em São Paulo, há um debate semelhante em torno da aplicabilidade dos instrumentos que visam a promoção da função social da propriedade, previstos pelo Estatuto da Cidade. O recente manifesto Urbanistas pela justiça social destaca o IPTU progressivo no tempo, o PEUC, o direito de preempção, e a desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública. [N.E.]
Publicado em inglês no The Occupied Times of London, de agosto de 2013.
A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.
***
David Harvey é um dos autores de Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, o primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos que ficaram conhecidos como as Jornadas de Junho, além de ser o principal esforço intelectual até o momento de analisar as causas e consequências desse acontecimento marcante para a democracia brasileira. Também contribuem para a coletânea autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, Mike Davis, Ermínia Maricato, Paulo Arantes, Roberto Schwarz, Carlos Vainer, Ruy Braga, Mauro Iasi, entre outros.
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Fonte: Boitempo

1945: Estado alemão do Sarre tornou-se francês

No dia 30 de agosto de 1945, o estado alemão do Sarre, no sudoeste do país, foi incorporado pela França. Somente 12 anos depois, um plebiscito decidiu pela reintegração do território à Alemanha.
Curva do Rio Sarre em forma de ferradura é atração turística
Em 10 de fevereiro de 1945, durante a Conferência de Ialta, Stalin, Churchill e Roosevelt concordaram em aceitar a França como a quarta potência de ocupação, abrindo caminho para a criação de quatro – e não mais três – zonas de ocupação no território da Alemanha.
Assim, em julho de 1945, tropas de ocupação francesas tomaram o lugar dos militares americanos na região do Sarre. O governo local foi dissolvido e, em 30 de agosto de 1945, passado a um governo militar francês, sob ordens do general Gilbert Grandval, um ex-comandante da Resistência.
A França pretendia a separação do estado do Sarre do resto da zona de ocupação francesa na Alemanha, mas a intenção foi barrada pela União Soviética. Depois de muita discussão, optou-se finalmente por um modelo de união econômica e pela autonomia restrita.
No dia 26 de dezembro de 1946, a França fechou a fronteira do pequeno estado de 2.570 quilômetros quadrados com a Alemanha. Foi permitida a criação de partidos políticos e incentivado o desenvolvimento da região, levando em conta os interesses de Paris.
Integração econômica e monetária
O então ministro francês do Exterior encarregou o governador militar Grandval de formar uma comissão que elaborasse uma Constituição, baseada nas constituições de outros estados alemães. Não sem antes impor como objetivo de longo prazo a integração à França, através de um memorando no qual constava:
"O Sarre deverá ser anexado à França dos pontos de vista econômico e político-monetário, por isso terá que adaptar sua alfândega e as questões de direito monetário à França, receberá autonomia política, deixará ao encargo da França as relações exteriores e questões de sua defesa, e receberá um comissário francês com jurisprudência para garantir esta aproximação econômica."
Alguns partidos tentaram em vão diminuir a influência francesa. Outros reivindicaram um plebiscito, categoricamente rejeitado pelo administrador Grandval.
Habitantes temeram anexação
Em 1950, formou-se uma resistência às estreitas relações econômicas com a França e contra a desnacionalização dos habitantes. O governo militar tentou acalmar a população: "Queremos que o Sarre se torne um país soberano como Luxemburgo. Graças ao potencial industrial e ao trabalho de seu povo, as condições dos seus habitantes poderiam se igualar às de Luxemburgo. Não há dúvidas quanto às intenções da França. Jamais se pretendeu a anexação. O que a França quer é a prosperidade desta região em vista de uma aproximação com Paris. Queremos um Sarre soberano."
Em outubro de 1955, entretanto, a maioria da população acabou por manifestar em plebiscito o desejo de reintegração à República Federal da Alemanha.
  • Autoria Gérard Foussier (rw)
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Refletindo sobre o fazer História...

por Rita Juliane Tatim - Acadêmica de História da UPF

Hoje me peguei pensando a respeito da minha graduação em História. O tempo todo envolvida com as leituras, tarefas e prazos não me dei conta de como o tempo passa rápido e de repente estamos na reta final da graduação. Neste momento, inconscientemente, fui lembrando das experiências vividas na graduação e fazendo um balanço pessoal de tudo. É como colocar diante do espelho o passado e o futuro, notando a diferença da visão de mundo que tinha antes para o que tenho agora.

Percebo que um ciclo está se encerrando e dando inicio a um novo ciclo. Está chegando o momento em que tudo que vivemos dentro do ciclo acadêmico realmente faz todo sentido. Momento de abraçar a responsabilidade e o profissionalismo que sempre nos foram cobrados na Universidade e que algumas vezes negligenciamos a importância de levar a cabo tudo que nos era solicitado. Mas este balanço foi muito positivo. Arrependo-me de tê-lo feito somente agora. Talvez se tivesse feito antes teria aproveitado mais cada disciplina e oportunidade ofertada pelo curso. Renovei a partir disso meu entusiasmo pela a História e minhas expectativas para o que virá neste novo ciclo que vai começar muito em breve.

Desde já agradeço a todos os professores que fizeram parte da minha graduação e que sem sombra de dúvidas tiveram, cada um ao seu modo, indispensável importância nesta caminhada.

Aos colegas que também estão próximos do término do curso desejo sucesso na carreira.
Já aos que estão nos primeiros níveis desejo que consigam fazer o quanto antes um balanço pessoal sobre o curso e aproveitem tudo que há para ser aproveitado na vida acadêmica!

Entre a aldeia e a cidade

Portal desenvolvido por ONG reúne mais de 200 artigos escritos por indígenas para ajudar professores a trabalhar com o tema em sala de aula

Gabriela Nogueira Cunha
28/8/2013
  • Foto: portal Índio Educa
    Foto: portal Índio Educa

    “O índio descobriu primeiro”. Este é o título de um dos muitos artigos que compõem o site Índio Educa, projeto desenvolvido pela ONG Thydewá e formado por um time de universitários indígenas de diferentes etnias e regiões do Brasil. A ideia surgiu em 2008 e hoje o portal já conta com cerca de 200 textos escritos por eles, que ajudam recontar a história, indo de encontro com versões mais tradicionais. Aqui, a resposta para a famosa pergunta “Quem descobriu o Brasil?” é outra.
    Em 2008, impulsionados pela Lei 11.645 – que torna obrigatório o ensino das Histórias Afro-Brasileira e Indígena no currículo oficial da rede de ensino –, o pessoal da organização Thydewá começou a reunir jovens interessados em produzir material que servisse de apoio a professores e alunos. Em 2011, o portal Índio Educa estava pronto para seu lançamento. Para o presidente da ONG, Sebastian Gerlic, “a época do índio sem voz está terminando”.
     A plataforma online tem o objetivo de produzir material educativo, tentando desconstruir alguns preconceitos como a ideia de que índios ainda vivem nus. “O portal responde às perguntas formuladas na cabeça das pessoas que, desde quando se ouvia falar de índio, condicionavam (e ainda condicionam) o estereotipo de indígena”, explica Hemerson Dantas, colaborador da Aldeia Pataxó de Pau Brasil.
    “O Índio Educa é destinado a professores, que podem utilizar livremente o conteúdo lá contido em suas aulas para que os alunos entendam o indígena da maneira mais real possível. Pensando assim, nada melhor do que o próprio índio contando sua história, ou seja, sendo protagonista”, conclui Hemerson.
    Foto: portal Índio Educa
    Foto: portal Índio Educa
    Creative Commons
    O conteúdo do site encontra-se em formato de Recurso Educacional Aberto, com licença Creative Commons. O que significa que o material pode ser utilizado e modificado por outras pessoas, como professores que queiram montar um conteúdo didático próprio. Segundo o estudante de História Alex Makuki, um dos gestores do Índio Educa, qualquer um pode se tornar colaborador. “Quem posta no portal são os cinco indígenas que fazem parte da gestão e mais outros colaboradores. Nós recebemos artigos, fotos e textos e damos todos os créditos ao autor”.
    Sobre a gama variada de temas abordados no site, como as moradias indígenas, Makuki reafirma a necessidade da desmistificação de certos conceitos enraizados pelo senso comum, como a ideia de casa de índio é sempre de palha.  “Cada texto postado no portal tem uma pitada de senso critico, no sentido de contar uma história partindo do ponto de vista dos povos indígenas.”
    Para a pesquisadora Simone de Athayde, do Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), iniciativas como esta são de extrema relevância para o estudo e ensino da História do Brasil. “No caso dos povos indígenas, ouvir a história contada por eles vem a enriquecer o nosso conhecimento, e considerar que a nossa história se inicia bem antes do ‘descobrimento’ em 1500. Acho que além de iniciativas como este site, deveríamos incluir mais abordagens como estas nas aulas e nos livros didáticos utilizados em escolas publicas e privadas no Brasil”, conclui.