quarta-feira, 31 de julho de 2013

1992: Conclusão do Canal Meno-Danúbio

No dia 31 de julho de 1992, foi inundado o último trecho do Canal Meno-Danúbio. A passagem para navios de grande porte liga o Mar Negro e o Mar do Norte. A obra sofreu duras críticas pelos danos ecológicos que provocou.
Vista de um trecho do canal Meno-Danúbio, no vale de Altmühl
Qual é o momento certo de abandonar um negócio que só dá prejuízo? Não só os investidores do chamado "novo mercado" oscilam entre a intenção de pôr fim ao susto e a esperança de que as perdas ainda possam ser compensadas por futuros ganhos. O que é melhor: apostar numa visão ou aceitar o fracasso?
Esse dilema é bem ilustrado pelo projeto de construção de uma ligação fluvial contínua através dos rios Reno e Danúbio. A primeira tentativa foi feita por Carlos Magno há mais de 1.200 anos.
"Vala de Carlos"
Cerca de 10 mil pessoas ocuparam-se, a partir de 793, da construção da chamada "Vala de Carlos" e o difícil abastecimento dos operários. Apesar de dispendioso, o plano de ligar um afluente do Danúbio a um afluente do Meno tinha sua razão de ser. No início da Idade Média, o transporte fluvial e marítimo era bem mais confortável, seguro e rápido que o rodoviário.
A visão de Carlos Magno esbarrou em seus limites, pois a vala era constantemente fechada por quedas de barreiras decorrentes de enxurradas, e não era mais possível abastecer a mão-de-obra com os mantimentos necessários. A escavação não chegou a atingir dois quilômetros, mas a idéia nunca morreu.
"Canal de Ludovico"
A segunda tentativa de concretizá-la só ocorreu mais de mil anos depois. O rei bávaro Ludovico 1º entusiasmou-se com a construção de uma via fluvial entre o norte e o sul da Baviera. Em 1836, começou a abrir o "Ludwigskanal", entre Kehlheim, no Danúbio, e Bamberg, no Meno.
Dez anos depois, o canal estava pronto e, nos primeiros anos de atividade, até deu lucro. No entanto, era muito estreito e, com o tempo, não aguentou a concorrência da rede ferroviária. Em quase 100 anos de atividade, sequer o capital investido pôde ser amortizado. O tesouro público da Baviera pagou caro pelo sonho do rei.
"Maior tolice desde a Torre de Babel"
A terceira tentativa de realizar o projeto foi fruto do delírio tecnológico dos anos 1920. A ideia era ligar o Mar do Norte ao Mar Negro, através dos rios Meno e Danúbio. Num esforço inédito, o Meno foi completamente canalizado e tornou-se navegável até Bamberg. Já no Danúbio foi construída uma série de represas e comportas. Algumas dessas obras ainda estavam em andamento em pleno século 21.
Finalmente, em 1960, começou a construção do canal propriamente dito, paralelo ao antigo Ludwigskanal. Nos primeiros 20, foram investidos 2,9 bilhões de marcos na obra. Em 1981, Volker Hauff, então ministro dos Transportes, tentou puxar o freio de emergência.
Ele não queria investir mais cerca de 2 bilhões de marcos numa obra que considerava "a maior tolice já vista desde a construção da Torre de Babel". Hauff, porém, foi obrigado a mudar de ideia. Admitir o fracasso, depois de 60 anos de construção, seria insustentável. E assim as obras prosseguiram, até que a 31 de julho de 1992, o último trecho do Canal Reno-Meno-Danúbio foi alagado.
Prejuízo ambiental
Sem incluir as obras de retificação e dragagem do Meno e do Reno, o canal custou 4,7 bilhões de marcos. Apesar de todas as medidas de recuperação adotadas, o prejuízo ambiental e a deformação paisagística foram enormes.
É verdade que o volume de mercadorias transportadas pelo canal cresce ano após ano, e cerca de 10 mil embarcações trafegam anualmente por essa via fluvial. Tal número corresponde ao tráfego diário de 14 navios em cada direção. Mas apenas 4% das mercadorias transportadas por via fluvial na Alemanha passam pelo canal. E quem realmente quer viajar do Mar Negro ao Mar do Norte o faz pelo Estreito de Gibraltar.
Curso por nove países europeus
A visão de uma Europa unida pelo Canal Meno-Danúbio ainda não foi destruída, mas já custou rios de dinheiro. Essa visão baseia-se principalmente no curso do Danúbio. O rio de aproximadamente 2.800 quilômetros de extensão nasce na região dos contos de fadas de Grimm, na Floresta Negra, na Alemanha, e corta ou circunda nove países europeus com uma população total de 202 milhões de habitantes.
O papel do Danúbio como um corredor de transporte começa em Kelheim, no sul da Alemanha, onde o rio se conecta ao Canal Meno-Danúbio. Seu destino final no Mar Negro é Sulina, uma pacata cidade de aproximadamente 4 mil habitantes.
Sulina é, talvez, o sinal mais evidente de que o Canal Meno-Danúbio tem um futuro, no mínimo, incerto, como caminho da integração européia. "A cidade está morrendo aos poucos, mas está morrendo, sem dúvida", diz Victor Iancu, presidente da Navrom-Delta, empresa que programa passeios de barco na região.
  • Autoria Carsten Heinisch (gh)
  • Edição Renate Krieger
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Educação é prioridade para 80% dos jovens brasileiros, diz estudo

Um terço da juventude dos países ibero-americanos questiona o funcionamento básico das escolas. Jovens brasileiros são os mais críticos e também os mais liberais em relação a temas controversos, apontam pesquisas.
A juventude ibero-americana de hoje é, em termos gerais, otimista sobre seu futuro, valoriza a educação, mas confia pouco nas instituições. Já o jovem brasileiro coloca a qualidade da educação como prioridade, é mais liberal em temas polêmicos e confia mais nas instituições que os outros jovens ibero-americanos.
Os dados foram apresentados em pesquisas divulgadas nesta semana. Uma delas foi feita pela Organização Ibero-Americana de Juventude (OIJ), que ouviu mais de 20 mil jovens. O objetivo do estudo, intitulado O Futuro já Chegou, é ampliar o conhecimento sobre os jovens através das opiniões das mais de 150 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos que vivem em mais de 20 países ibero-americanos, o que representa 26% da população total.
Para Luis Alberto Moreno, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento – instituição que também participou da pesquisa –, investir na juventude é escutá-la e decifrar suas mensagens.
"Estamos diante de uma juventude que não se conforma, que pede melhores oportunidades, melhor qualidade de educação, de saúde, de instituições e oportunidades de emprego e de empreendimento", afirmou Moreno durante o lançamento da pesquisa. Para ele, os recentes protestos que tomaram as ruas do país com grande participação de jovens revelam que os jovens reconhece a importância da sua participação para a construção do futuro.
Outro aspecto apontado pela pesquisa é a presença da violência na vida do jovem. Segundo os dados, os brasileiros são os que mais reconheceram esse problema no seu ambiente. Apesar disso, o jovem brasileiro se mostrou mais aberto em relação a questões mais controversas, como aborto, legalização da maconha e a acolhida de imigrantes. Segundo o estudo da OIJ, cerca de 40% dos jovens brasileiros têm uma visão oposta à dos pais em relação a esses temas.
Educação melhor
Cerca de 80% dos jovens brasileiros consideram a educação uma prioridade, resultado 4,75 pontos superior ao registrado entre os mais velhos, segundo pesquisa da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República divulgada também nesta semana. O estudo ouviu mais de 11 mil jovens antes da eclosão dos protestos que ocuparam as ruas de várias cidades do país.
Em relação aos jovens de outros países ibero-americanos, o brasileiro respondeu de forma mais negativa que todas as outras regiões. Cerca de 40% deles, por exemplo, disseram que o ambiente escolar é violento. Ao mesmo tempo, pouco menos de 10% afirmaram que o ambiente escolar é exigente academicamente.
Manifestante mostra cartaz pedindo melhoras na educação no país
Para o secretário-geral da OIJ, Alejo Ramírez, a educação é uma demanda clara da juventude. "O melhoramento dos processos educativos, tanto no ensino médio quanto na universidade, é uma demanda clara e precisa dos jovens ibero-americanos", disse Ramírez à DW Brasil. "Eles sabem que a educação é o único jeito de garantir algum sucesso na vida profissional."
Essa também é a visão de Bruno Vanhoni, assessor internacional da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) da Presidência da República. Ele disse à DW Brasil que o modelo do ensino médio brasileiro é pouco atraente para os jovens. "É um debate que vem se arrastando há alguns anos e tem ganhado força", disse, ao se referir às propostas de reformulação do currículo e das metodologias adotadas no ensino médio.
Apesar das críticas ao sistema educacional, a universidade aparece na pesquisa da OIJ como a instituição mais confiável na opinião dos jovens. "É um espaço de aspirações porque nem todos vão chegar à universidade, mas se eles estão falando que a instituição com a melhor imagem é a universidade, então há uma vinculação entre a educação e o futuro dos jovens", explicou Ramírez.
Expectativas
Com a pesquisa da OIJ, foi possível estabelecer um índice de expectativas, que funciona como uma espécie de ranking que mede o grau de perspectiva positiva ou negativa dos jovens de cada país a respeito dos próximos cinco anos. O índice – baseado em variáveis subjetivas – serve para complementar dados objetivos, como o PIB (Produto Interno Bruto), para fornecer mais subsídios na construção de políticas públicas para a juventude.
Para construir o índice, os jovens atribuíram uma nota de 1 a 10 para itens como corrupção, emprego estável, desigualdade, etc. Segundo o estudo a OIJ, os jovens de Equador, Costa Rica e Nicarágua são os mais otimistas. Brasil, Guatemala e Portugal têm a visão mais negativa sobre o futuro.
Apesar das respostas negativas sobre o futuro, o jovem brasileiro é mais engajado, segundo a pesquisa. "O brasileiro tem um perspectiva não necessariamente otimista sobre o futuro, mas tem melhor vinculação com as instituições que outros jovens da América Latina e esses são pontos [que podem servir] para aprofundar a análise da situação dos jovens brasileiros", aponta Ramírez.
O índice de confiança que o jovem brasileiro tem em relação às instituições – incluindo os meios de comunicação, a justiça e a polícia – é maior do que a média ibero-americana, mas ainda é um índice baixo (entre 20% e 30%), na visão de Bruno Vanhoni. "Essas reivindicações apontam para reconhecimento do papel das instituições, eles estão cobrando dessas instituições que elas cumpram seu papel."
  • Data 28.07.2013
  • Autoria Ericka de Sá, de Brasília
  • Edição Rafael Plaisant
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domingo, 28 de julho de 2013

A reportagem que reinventou Lampião

Imagem que fez história – A foto das cabeças decepadas de Lampião e seu bando foi estampada nas páginas centrais de A Noite Ilustrada pouco mais de uma semana depois do massacre de Angicos e correu o mundo ao longo do século 20
A capa da edição da quarta-feira 9 de agosto de 1938, da revista A Noite Ilustrada, lançada 11 dias depois do massacre na Fazenda Angicos, município de Piranhas, entre Alagoas e Sergipe, onde morreram Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião, Maria Bonita e mais nove pessoas, é emblemática. Em vez de estampar o mais famoso e temido cangaceiro do País, a imagem trazia em destaque outro bandoleiro, Corisco, conhecido pela polícia e pela imprensa como Diabo Louro. A mensagem parecia clara: sem Lampião, o cangaço sobreviveria pelo herdeiro e compadre de seu antigo chefe. Rei morto, rei posto? Não. A legenda explicava que aquela foto havia sido encontrada entre muitas outras em um dos bolsos do famoso criminoso, quando os soldados da “volante” foram saquear seus bolsos, em busca de joias e dinheiro, no momento em que seu corpo jazia, cravado de balas.
Em 28 páginas sobre o massacre, a revista, comandada pelos jornalistas Gil Pereira e Vasco Lima, trazia a primeira grande reportagem sobre o assunto, que se tornou aula e marco do jornalismo na época. Motivo: a publicação tinha conseguido mandar uma equipe – fotógrafo e repórter – do Rio de Janeiro até o local, a dois mil quilômetros de distância, em pouco mais de 24 horas. Ao que parece, foi uma operação de guerra. Tão logo as primeiras notícias da morte de Lampião chegaram às redações do Rio de Janeiro, via telegrama, nenhum jornal ou revista teria se interessado em mandar equipes.
Por mais de dez anos, a grande imprensa acompanhou as muitas caçadas a Lampião, promovidas pela polícia de pelo menos seis estados do Nordeste por onde ele e seu bando circularam e “aterrorizaram” – Bahia, Sergipe, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. A viagem dos jornalistas de A Noite Ilustrada só foi possível porque eles conseguiram embarcar antes do meio-dia em um voo internacional da Pan American, que fazia a rota Miami-Rio de Janeiro-Buenos Aires. As escalas eram feitas em Montes Claros (MG), Barreiras (BA) e Carolina (MA).
Os jornalistas desceram em Barreiras, no cerrado baiano, e de lá cruzaram de carro ou de trem boa parte do território baiano, até chegar à cidade de Piranhas. Na manhã seguinte, eles se depararam com a tropa de 49 homens do tenente João Bezerra na pequena cidade de Pedras, no meio do caminho até Santana do Ipanema, onde ficava o batalhão que realizou a operação militar.
Os enviados se tornaram a primeira equipe de jornalistas a visitar a “gruta” de Angicos, depois do massacre. Acabaram por fazer fotos que se tornaram famosas ao longo dos 75 anos seguintes e foram reproduzidas incontáveis vezes por jornais, revistas e livros sobre o tema. São imagens que chocaram os leitores. Logo na página três, aparecia a cabeça decepada quase em tamanho real da mulher mais famosa do cangaço e um pequeno texto dizia: “Companheira de Lampião, fotografada em Pedra, durante o regresso da ‘volante’ (tropa) do tenente João Bezerra, quando ainda conservava a regularidade dos traços e a serenidade da expressão. Mesmo depois da morte violenta, justificando a alcunha, a cabeça da bandoleira mostra vestígios de tranquila beleza”.
 
Nas páginas centrais, como pôster de 43 cm x 86 cm, A Noite Ilustrada estampava a foto mais famosa da história do banditismo no Brasil, que se tornou símbolo do grau de selvageria que dominava mocinhos e bandidos nos confins da caatinga brasileira: as cabeças decepadas dos mortos de Angicos, arrumadas na escadaria de uma igreja, identificadas com uma etiqueta ao lado de cada uma. Apareciam, pela ordem de cima para baixo, da esquerda para a direita: Diferente, Desconhecido, Cajarana, Enedina, Caixa de Fósforos, Mergulhão, Elétrico, Luis Pedro, Maria Bonita e, sozinha na parte de baixo, Lampião.
Ao redor, parte dos pertences recolhidos – armas e balas em quantidade, embornais e uma máquina de costura aparentemente da marca Singer. No local do tiroteio, há uma foto que mostra com números e setas como tudo aconteceu: onde estavam os soldados e em que ponto Lampião foi mortalmente atingido, sem ter chance de qualquer reação.
A notícia tinha corrido o Brasil como fogo em pólvora. Todos os grandes jornais destacaram o fato na primeira página. Por 18 anos, Lampião e seu bando atacaram, principalmente, pequenas e miseráveis localidades em que a população vivia sob o chicote e o domínio eleitoreiro das dinastias dos coronéis. A imprensa das regiões Sul e Sudeste sempre se interessou pelo assunto, destacava a crueldade de Lampião e de seus comparsas e o heroísmo da polícia em sua captura. Ficaram famosos nomes como do sargento Odilon Flor que, por oito anos caçou e perseguiu o cangaceiro, e o do tenente Campos de Menezes, que o perseguia desde a década anterior – por diversas vezes, Menezes e seus homens trocaram tiros com Lampião. Mas a glória coube ao desconhecido tenente Bezerra, transformado em herói nacional literalmente da madrugada para o dia.
Não havia qualquer discussão na imprensa sobre as intenções do cangaceiro que eram apenas roubar e saquear a partir de uma índole criminosa natural, como aconteceu depois e o transformou em herói para muitos, por contestar o poder dos coronéis – Lampião seria fruto do inconformismo de um mundo injusto e sem lei. “Ido desta capital de avião, o serviço dos enviados especiais de A Noite Ilustrada ao sertão e à capital de Alagoas trouxe a lume o sensacional acontecimento por todas as suas faces mais empolgantes, acumulando uma sucessão de documentos que se encontram em parte nesta edição”, explicou a revista, em seu editorial. Para seus editores, a publicação havia feito algo extraordinário. Tanto da parte de seus repórteres quanto da polícia, mostrada como heroica. Dizia o título: “O sensacional acontecimento do sertão alagoano”.
Prosseguiram eles, na apresentação. “Releva notar o acervo de fotos feitas no próprio local do combate entre a polícia alagoana e o bando do ‘Rei do Cangaço’, a grota situada na fazenda Angicos, das quais se encontram na última página da revista, e testemunham não apenas a coragem, mas a temeridade dos nossos auxiliares.” No mesmo texto, destacou o pequeno vidro encontrado no corpo de Lampião, cheio de um pó amarelo, que, “verificou-se nesta capital, por experiência feita no laboratório de Pesquisas Científicas da Polícia, ser um veneno poderoso. É também um pormenor de sensível interesse”, porque se sabia, “por informações anteriores”, que era uma prevenção para não cair com vida em mãos das autoridades.

Porta-voz de Vargas

A redação de A Noite Ilustrada funcionava na Praça Mauá, 7, centro do Rio de Janeiro, e onde ficavam redações de jornais e revistas, e emissoras de rádio importantes. Lançada em 1930, a publicação surgira como um marco por sua qualidade de impressão, graças ao moderno sistema de rotogravura. Pertencia ao jornal A Noite, mesmo diário fundado por Irineu Marinho e Geraldo Rocha. A Noite sobrevivera ao longo da década de 1930 sob o duro castigo de ter apoiado o grupo derrotado pela Revolução de 1930.
Na ocasião, sua redação foi saqueada e incendiada e Rocha se refugiou em Minas Gerais. O diário sofreu intervenção do governo. Pressionado, Rocha reconheceu em cartório que tinha dívidas e abriu mão de seus bens para os bancos do governo, inclusive de A Noite. O jornal se tornou, então, uma espécie de órgão a serviço de Vargas e radicalizou seu oficialismo com a decretação do Estado Novo, em novembro de 1937, quando assumiu a mesma postura nazifascista do ditador brasileiro. Essa orientação editorial dava o tom na cobertura do massacre de Angicos e no modo de como a tropa do Exército foi tratada.
“Consciente da enormidade de seus crimes, o cangaceiro não suportava a ideia de expiá-los. Pode suceder, também, que um amor próprio a seu modo lhe fizesse intolerável à possibilidade de vir a ser dominado pelos que considerava inimigos odiosos.” Ou seja, sua decisão era de jamais se deixar prender vivo pela política. Cometeria suicídio antes. “Verificou-se ainda que Lampião foi colhido por uma rajada de balas, pois seu famoso punhal, de cabo trabalhado a ouro e marfim, foi atingido numa das lâminas, e a própria cartucheira do bandido, onde o ímpeto de uma das balas que recebeu detonou outra da própria cartucheira do antigo ‘Terror do Nordeste’, que o atingiu mortalmente.”
O que se nota em toda a edição de A Noite Ilustrada é que em nenhum lugar são ditos os nomes do repórter e do fotógrafo, embora eles aparecessem em duas fotos e fossem assim identificados. Em uma delas, o fotógrafo, de óculos, posava à frente dos voluntários e soldados, sorrindo para a câmera. Em outra, o jornalista cumprimentava o aspirante Ferreira, cercados de soldados que apoiavam as mãos nos ombros dos dois. Uma legenda informava: “O corpo do bandoleiro foi identificado e fotografado por um dos enviados de A Noite Ilustrada na grota de Angicos, sendo que outros ali voltaram, ainda, depois, a fim de minudenciar o terreno fotograficamente, facilitando uma reconstituição do choque entre a polícia e os bandoleiros”. A edição trazia também o primeiro episódio de uma série em quadrinhos sobre a vida do cangaceiro, roteirizada e ilustrada por Euclides L. Santos. Com dez quadrinhos cada página, iniciava uma série que seria publicada duas vezes por semana no jornal A Noite, nos cinco meses seguintes.
Singularmente ingrato
Lampião jamais imaginou que poderia ser morto em Angicos. Aquele era seu esconderijo havia muitos anos e ele acreditava, mesmo se traído, uma volante não conseguiria chegar ali. O terreno, no dizer de um geógrafo entrevistado pela revista, contou que o local era “singularmente ingrato”. E explicou que ficava “entalado entre a margem do rio e a montanha pedregosa e íngreme que da mesma margem começa logo a erguer-se, apertada entre gargantas e pequenas contraescarpas de serra, e ingrato, estéril e árido, ostentando rochedos de granito e penhascos inacessíveis. Essa topografia era da conveniência para os cangaceiros que, por isso mesmo, sempre procuravam Angicos, nas imediações de Piranhas, quando se sentiam inseguros e acossados”. Mas a força policial, comandada pelo tenente João Bezerra, reunia veteranos combatentes do cangaço, não teve dificuldades alcançar aquele ponto.
Os cangaceiros haviam chegado a Angicos no dia anterior, 27 de julho, exaustos, famintos. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. O aguaceiro, em vez de dificultar a aproximação de alguma volante, ajudou, graças ao barulho da água que caía. Tanto que nem os cães de Maria Bonita pressentiram. Bezerra relatou depois que o bombardeio ainda não tinha começado, por volta das 5h15 do dia 28, e teve de ser precipitado. No momento em que os cangaceiros levantaram para rezar o ofício, de acordo com o ritual estabelecido pelo Rei do Cangaço, e se preparavam para tomar café, um cangaceiro deu o alarme. Tarde demais. Bezerra gritou: “Fogo”. Os soldados dispararam suas metralhadoras portáteis, que cuspiram dezenas de balas por minuto, por cerca de 20 minutos. Corisco e os outros que estavam mais distantes, e acabaram protegidos pelos rochedos, conseguiram se arrastar e fugiram.
 
Lampião foi um dos primeiros a morrer. Dentro dos costumes da época, Maria Bonita, gravemente ferida, teve sua cabeça decepada – fizeram o mesmo com o marido, em seguida. Na euforia que se seguiu, sem se preocupar se alguém tinha escapado, os policiais saquearam os cadáveres e os mutilaram com selvageria. Também foram degolados vivos Quinta-Feira e Mergulhão que estavam  feridos. Um dos policiais, com ódio de Lampião, deu um golpe de coronha de fuzil na cabeça do cangaceiro tão forte que a deformou. Afirmou-se depois que todas as cabeças foram salgadas e colocadas em latas de querosene, com aguardente e cal, enquanto os corpos foram abandonados e devorados por urubus. Para evitar a disseminação de doenças, dias depois foi colocada creolina sobre os corpos. Como alguns urubus morreram intoxicados pela substância, esse fato ajudou a difundir a crença de que eles haviam sido envenenados antes do ataque, com alimentos entregues pelo coiteiro traidor. Outra versão dava conta de que as cabeças não passaram por qualquer processo de conservação nas 48 horas que se seguiram ao massacre. E mesmo inchadas – como se vê nas fotos –, foram vistas por milhares de curiosos nas cidades onde o pelotão passou.
Em Pedra, ao alcançar a volante, a equipe de A Noite Ilustrada conseguiu reunir 47 dos 49 homens que estiveram em Angicos para uma foto histórica. Duas outras mostravam a multidão que se concentrou em uma praça em Maceió para ver as cabeças dos 11 cangaceiros. “Em Piranhas, as tropas chegaram inesperadamente, quando terminara a feira ali erguida, e quando, portanto, ninguém imaginava a possibilidade de acontecimento de tal monta. A polícia alagoana, conduzindo os troféus do sangrento encontro, foi recebida por aclamações populares intensas, mais vivas e constantes, à medida que os populares se inteiravam do êxito completo do combate com o bando de cangaceiros. Ferido, embora sem gravidade maior, o Tenente Bezerra, cuja valentia é conhecida em todo sertão circundante, era visado particularmente nos aplausos do povo aglomerado”.
O mesmo espetáculo foi verificado pela equipe da revista em Pedra e Água Branca, “onde as populações, vítimas durante tantos anos dos sustos constantes pelo perigo de incursões dos cangaceiros, mal podiam acreditar no extermínio do monstro da caatinga”. Em todas essas localidades, o chefe dos volantes determinou a exposição das cabeças. “Visava principalmente evitar alguma lenda de negação do fato, coisa muito natural em face da crença, alimentada pelos próprios acontecimentos, durante tantos anos, da intangibilidade do chefe do cangaço. Os soldados jubilosos pelo resultado da sortida, e sua alegria se misturava à do povo, compondo um espetáculo expressivo da sensação de libertação que pairou sobre aqueles recantos da civilização sertaneja.”
Em Santana do Ipanema, “esse jubilo popular atingiu maiores proporções”. Segundo o repórter, as cabeças dos cangaceiros, que haviam sido fotografadas em Pedra, foram novamente expostas à curiosidade pública “e numerosas pessoas reconheceram a cabeça decepada de Lampião e de outros seus comparsas do crime”. O espetáculo bizarro prosseguiu em Maceió. No Instituto Médico Legal de Aracaju, as cabeças foram medidas, pesadas e examinadas pelo médico Carlos Menezes. Suas observações fizeram com que os criminalistas mudassem a teoria de que um homem bom não viraria um cangaceiro, e este deveria ter características sui generis.
Diferentemente do que acreditavam, as cabeças não apresentaram qualquer sinal de degenerescência física, anomalias ou displasias, apesar da decomposição avançada. Acabaram classificadas como de indivíduos normais. Do sudeste do País, apesar do péssimo estado, seguiram para Salvador. Ali, permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia. Nenhuma patologia foi encontrada após novos exames. Por mais de três décadas, ficaram expostas no Museu Antropológico Estácio de Lima, no prédio do IML Nina Rodrigues, no Terreiro de Jesus, em Salvador. Atraíam milhares de curiosos todos os anos, que queriam ver, principalmente, as cabeças de Lampião e Maria Bonita.
Enquanto isso, as fotos de A Noite Ilustrada corriam o Brasil e o mundo. Sem autorias definidas, perderam sua identidade, ao mesmo tempo que se tornavam documento de uma época. Por mais que a revista chamasse Lampião de facínora, o resultado de seu esforço jornalístico mantinha a força de uma história e não conseguiu evitar que de suas páginas nascesse uma lenda que, como tal, ainda fascina. Suas fotos e textos, enfim, por mais que se tenha feito um trabalho de reportagem louvável, não evitou que Lampião continuasse a andar pela caatinga, mesmo como um fantasma, cada vez mais vivo na imaginação das pessoas pela coragem de cabra macho que era em enfrentar os poderosos. Que se publique a lenda.

Lampião lia a Noite Ilustrada

Pelo acaso, lampião acabou por se tornar garoto propaganda de A Noite Ilustrada. dois anos antes de morrer, ele aparecia em uma de suas mais famosas fotos, feita pelo fotógrafo e caixeiro viajante Benjamin abraão (1890-1938), mostrando um exemplar da famosa revista carioca, ao lado de maria Bonita, que aparecia sentada, acariciando os cães ligeiro e Guarany. a edição, de 27 de maio de 1936, trazia na capa a nadadora americana anna evers, uma das promessas da olimpíada de Berlim daquele ano.

Casal bem informado – Lampião com um exemplar de A Noite Ilustrada, de 1936, ao lado de Maria Bonita. O casal gostava de acompanhar pelas revistas as novidades do Brasil e do mundo
Na legenda, lia-se: “a sereia e sua rede… anna evers exibindo um formoso modelo praiano em santa mônica, califórnia”. segundo depoimentos das cangaceiras aristeia e dadá, as fotos foram feitas entre junho e julho de 1936, portanto um mês ou dois depois do lançamento da revista. abrahão seria morto pouco mais de dois meses antes de lampião, em serra talhada, no dia 10 de maio de 1938. de origem sírio-libanesa-brasileira, ele se tornou o responsável pelo registro iconográfico do cangaço e de seu líder, lampião. para fugir do serviço militar em seu país, durante a Primeira Guerra Mundial (1914- 1918), ele veio para o Brasil. chegou em 1915. foi mascate em recife e Juazeiro do Norte, atraído pela frequência de romeiros em busca do padre cícero, de quem se tornou secretário e conheceu lampião, em 1926, quando foi à cidade receber a bênção do célebre vigário e a patente de capitão, para auxiliar na perseguição da coluna prestes. anos depois, obteve do cangaceiro autorização para acompanhar o bando na caatinga e realizar as imagens que o imortalizaram. foi assassinado com 42 facadas e o crime nunca foi esclarecido.

"Guerra esquecida" da Coreia chegava ao fim 60 anos atrás

Conflito entre as Coreias do Norte e do Sul durou três anos. Misto de guerra civil e ideológica custou milhões de vidas e envolveu EUA, China e URSS, decisivos para determinar o decorrer e a duração dos combates.
Na guerra entre as duas Coreias, o triunfo final não coube nem às forças de combate da ONU, lideradas pelos Estados Unidos, nem às tropas norte-coreanas, com seus aliados chineses e amplo apoio armamentista soviético.
Os sul-coreanos conquistaram alguns territórios acima do Paralelo 38, e os norte-coreanos estenderam para o sul a antiga linha de demarcação. De resto, tudo continuou como antes: a ditadura comunista do Norte, apoiada pela União Soviética e a China vermelha, seguiu confrontando o regime anticomunista da Coreia do Sul, apoiado pelos Estados Unidos e seus aliados.
Numa tentativa para colocar todo o país sob controle comunista e de comum acordo com Josef Stalin e Mao Tsé-tung, em 25 de junho de 1950 o ditador Kim Il-sung fez as tropas da Coreia do Norte marcharem sobre o 38º paralelo norte, a fim de atacarem o país irmão.
Três dias mais tarde, a capital Seul era tomada. E, poucas semanas depois, as Forças Armadas sul-coreanas, insuficientemente preparadas e com fraco auxílio norte-americano, estavam confinadas a uma pequena área em torno da cidade portuária de Busan. Além disso, algumas tropas dos EUA ficaram cercadas pelos norte-coreanos entre Seul e Busan.
Camponês foge para o sul, em 1950
ONU intervém
Em reação, o Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu, em 30 de julho de 1950, interferir no conflito – à revelia da União Soviética, membro com direito a veto – e autorizou a intervenção militar por unidades da ONU, sob liderança norte-americana. Antes, o Conselho já havia condenado a "ruptura da paz" pela Coreia do Norte.
Os soldados da ONU conseguiram reverter a situação, dando fim à série de vitórias norte-coreanas. Após atravessar a linha de demarcação do Paralelo 38, chegaram a ser tomadas a capital Pyongyang e amplas regiões do país ao norte.
No entanto a China contra-atacou, com centenas de milhares de assim chamados "voluntários", e as forças militares sul-coreanas e da ONU tiveram que recuar até a fronteira. Seguiu-se uma dispendiosa guerra de exaustão, durante a qual o mundo por vezes esteve à beira do conflito atômico.
Interesses de Stalin
Em 10 de julho de 1951 foram iniciadas negociações de armistício, porém as armas só silenciariam dois anos mais tarde, em 27 de julho de 1953.
Segundo o historiador Rolf Steininger, da Universidade de Innsbruck, está provado que o líder soviético Stalin foi responsável pelo prolongamento das lutas, que custaram mais de 1 milhão de vidas. "Há muito Kim e Mao Tsé-tung queriam encerrar a guerra, mas Stalin disse 'não'. Hoje sabemos disso." A máxima do ditador teria sido: "Só estamos perdendo gente, e isso nós temos que chega".
"A estratégia de Stalin era deixar os americanos se exaurirem na Coreia", aponta o especialista, que já dedicou diversas publicações ao conflito das duas Coreias. A consciência de que não seria possível vencer a guerra por meios militares e o esgotamento bélico crescente dos EUA prepararam o caminho para o armistício. Porém este só se tornaria possível com a morte de Stalin, em 5 de março de 1953.
Cerimônia em memória dos veteranos da Guerra da Coreia, em Washington
Veteranos dos EUA contra "Guerra Esquecida"
Nos Estados Unidos, foram necessários 40 anos para a Guerra da Coreia retornar à consciência nacional. O catalisador foi a inauguração, em 1982, do Memorial dos Veteranos do Vietnã, erguido na capital Washington por iniciativa privada.
"Depois disso, alguns atores e, mais tarde, também astronautas americanos se reuniram, e em 1995 era inaugurado o Memorial dos Veteranos da Coreia em Washington. Essa era a única guerra a que, até então, não se havia dedicado nenhum monumento."
O website dos veteranos da Guerra da Coreia expressa o quanto eles sofreram, durante décadas, por ver recalcada a memória do conflito que custou a vida de 37 mil soldados dos EUA. No site se lê: "No longer The Forgotten War" (O fim da Guerra Esquecida).
Tábula rasa na Coreia
Para os coreanos, em contrapartida, a guerra está longe de ser esquecida – até hoje. Han-Kyung Lee, de 75 anos, vive desde 1965 na Alemanha. Quando o conflito começou, em 1950, ele era um garoto de 12 anos numa aldeia próxima ao 38º paralelo norte, na atual zona desmilitarizada. "'Guerra esquecida' significaria que ela acabou. Mas a Coreia ainda está em estado de guerra, ela não passou. Por isso, esse nome não serve."
Lee se lembra, acima de tudo, das pesadas ofensivas aérea dos americanos. "Foi terrível, mais do que terrível, eu senti no próprio corpo e alma. De início, nós não sabíamos o que estava acontecendo, quando os bombardeiros B29 nos sobrevoaram e atiraram bombas. Nós, crianças, pensávamos que eram provisões de auxílio ou panfletos."
Coreano Han Kyung Lee em seu jardim em Berlim
Civis, mulheres e crianças foram as principais vítimas dos bombardeios em larga escala dos EUA. As cidades maiores, como Pyongyang e Seul, ficaram totalmente arrasadas. Steininger confirma a extensão dos estragos: "Já no fim de 1951 os pilotos americanos se queixavam de que não havia mais alvos na Coreia do Norte, de tão destruído que o país estava".
Paralelo coreano-alemão
O historiador da Universidade de Innsbruck aponta também as significativas consequências da guerra na península asiática para a República Federal da Alemanha. "A decisão dos aliados ocidentais de voltar a armar a Alemanha Ocidental, em dezembro de 1950, nunca teria ocorrido sem a Guerra da Coreia, sem o desastre militar dos americanos, do qual [o então chanceler federal alemão Konrad] Adenauer soube espertamente se aproveitar."
Além disso, a recém fundada república também lucrou economicamente, ressalta Steininger, uma vez que, no contexto da Guerra da Coreia, caíram as últimas restrições impostas à economia alemã.
Após a reunificação das Alemanhas, em 1990, também na Coreia do Sul se discutiu o eventual fim da divisão da nação asiática. Porém, nesse meio tempo, muitos cidadãos sul-coreanos colocaram a ideia de lado. Com boas razões, comenta Steininger. "Caso o sistema norte-coreano entre em colapso, recai sobre a Coreia do Sul uma tarefa gigantesca, incomparavelmente mais pesada da que vivenciamos na Alemanha."

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sábado, 27 de julho de 2013

O pequeno jornal heroico que tentou enfrentar Adolf Hitler


O líder nazista Adolf Hitler ao lado de um de seus auxiliares diretos, Rudolf Hess
O líder nazista Adolf Hitler ao lado de um de seus auxiliares diretos, Rudolf Hess
A jornalista brasileira Silvia Bittencourt fala com exclusividade ao Diário sobre seu livro que conta a pouco conhecida história do “Münchener Post”, diário alemão que lutou contra o genocida líder nazista Adolf Hitler
Fernando de Oliveira, do Diário Regional
A bibliografia tanto do jornalismo quanto da Segunda Guerra Mundial acaba de ganhar um livro precioso. Trata-se de A Co­zinha Venenosa – Um Jor­nal Contra Hitler ( 374 pp., Editora Três Estrelas, São Paulo, 2013), cerzido pela jornalista brasileira ra­dicada na Alemanha desde 1991, Silvia Bittencourt.
Nessa obra recém-lançada, ela conta pela pri­meira vez – e em detalhes – a história do Münchener Post, pequeno jornal social-democrata de Munique que entre 1920 e 1933, mesmo sofrendo represálias como atentados e processos ju­diciais, fez campanhas em suas páginas para impedir a ascensão de Adolf Hitler (1889-1945) ao poder e cha­mar a atenção para o perigo que o demônio de bigodinho e a “corja nazista” represen­tavam para a humanidade.
No entanto, o heroísmo do Post, responsável por tra­zer à tona a “solução final da questão judaica”, resultou em sua extinção em 1933.
Na noite de nove de mar­ço daquele ano, semanas depois de o genocida Hitler – que chamava a publicação de “Cozinha Venenosa” – ter sido nomeado chanceler da Alemanha, a polícia na­zista invadiu a redação doPost (localizada no prédio de número 19 da Rua Al­theimer Eck, centro de Mu­nique), que estava vazia, e a destruiu completamente, colocando um ponto final nas quase cinco décadas de história do jornal.
Nesta entrevista exclu­siva ao Diário, concedida durante sua passagem pelo Brasil dias atrás para lançar o livro em São Paulo e, de­pois, participar da Festa Li­terária Internacional de Pa­raty (Flip) no Rio de Janeiro, Silvia Bittencourt fala desse pouco conhecido capítulo do século 20, sobre o qual se de­bruçou por três anos.
Sala da redação do “Münchener Post” destruída pelos nazistas em um dos primeiros atentados cometidos por
Sala da redação do “Münchener Post” destruída pelos nazistas em um dos primeiros atentados cometidos por eles contra o jornal, em novembro de 1923
Diário Regional – Como nasceu a ideia de escrever sobre o “Münchener Post”?
Silvia Bittencourt - Sou­be da história do Münchener Post através do livro Para Entender Hitler, do jorna­lista norte-americano Ron Rosenbaum. Segundo ele, ao acompanhar os passos de Adolf Hitler desde o início de sua carreira política, quan­do este ainda discursava nos salões das cervejarias de Mu­nique, os repórteres doPostforam os primeiros a tentar explicar sua personalidade doentia e questionar suas in­tenções (os demais jornais da cidade mencionaram Hitler apenas quando sua popula­ridade começava a crescer). Mas o livro de Rosenbaum não teve tanta repercussão na Alemanha, por isso a história do Postpermaneceu desco­nhecida do público geral. Só alguns historiadores ale­mães sabem da existência deste jornal, mas também nenhum deles contou sua história detalhadamente.
DR – Por que ninguém antes de você havia se inte­ressado em retratar o “Post”?
Silvia - O Post era um jornal social-democrata pe­queno e caro, que circulava sobretudo em Munique, na conservadora Baviera. En­tão ele era lido mais pela eli­te política do Estado do que pelos operários, seu público alvo. Além disso, ele tendia frequentemente ao sensa­cionalismo, querendo mais atirar para todos os lados do que checar as informações que recebia. Acho que por causa disto os historiadores alemães têm certa reserva em considerar seus repórte­res grandes heróis.
DR – Em razão da au­sência de bibliografia sobre o “Post”, quais foram suas principais fontes de pesquisa?
Silvia - Minha fonte principal foi o próprio Post, ou seja, as dezenas de rolos de microfilme do jornal, de 1889 até 1933. Além disso, nos arquivos de Munique e de Berlim há vários docu­mentos de processos envol­vendo o jornal, assim como boletins policiais sobre os conflitos nas cervejarias e os ataques à Redação. Também recorri às memórias de polí­ticos e jornalistas da época, assim como do próprio ad­vogado do Post, Max Hirs­chberg. Finalmente, alguns historiadores trataram do Postem seus livros, como aqueles que estudam a histó­ria da imprensa bávara ou os que pesquisam a ascensão de Hitler ao poder.
Caricatura de Hitler numa edição de 1932
Caricatura de Hitler numa edição de 1932
DR – Você entrevistou parentes dos jornalistas do “Post”. Como foi isso?
Silvia - Com a ajuda do Partido Social-Democrata de Munique eu cheguei aos descendentes dos jornalis­tas e advogados do Post. O contato com eles foi muito especial. Não tanto pelas informações que me deram, pois eles sabiam pouco do passado dos avós. Mas fica­ram extremamente agrade­cidos pelo meu interesse e curiosos sobre o meu livro. Inesquecível foi a conversa com Harimella Stock, filha do ex-articulista do jornal Wilhelm Hoegner. Ela tinha 91 anos quando a visitei e me contou em detalhes dos jornalistas e da Redação doPost. Dos meus entrevista­dos, foi a única que havia conhecido oPost.
DR – Qual considera o personagem mais impor­tante do seu livro?
Silvia - É impossível falar de um personagem mais im­portante. Cada um moldou a história do jornal de um jei­to. Erhard Auer era o editor-responsável, o chefão não só do jornal, como da social-democracia bávara. Martin Gruber, o editor-executivo, era quem punha a mão na massa, escrevendo os tex­tos principais e enfrentando vários processos na Justiça. O advogado Hirschberg, um judeu social-democrata, sempre defendeu o Postcom afinco. Mas perante uma Justiça reacionária e parcial, como a bávara, costumava perder as causas envolvendo interesses políticos.
DR – Embora não fosse esta a intenção, o “Post” contribuiu para a popu­laridade de Hitler e suas ideias ao falar dele em suas páginas?
Silvia - Não acho que tenha contribuído. No iní­cio de sua carreira política, Hitler empenhou-se para ser o “tocador de tambor”, agi­tando os salões de cervejaria com seus discursos. Com o Post ou não ele se tornaria popular, como acabou se tornando. E desde o começo o jornal alertava as autorida­des para o perigo que ele re­presentava. Os outros eram bem menos críticos.
DR – À luz de suas pes­quisas, como Hitler, que era uma pessoa, como você já disse, “desocupada, sem formação ou profissão al­guma”, conseguiu chegar ao poder?
Silvia - Hitler estava no lugar certo, na hora certa. Era uma época de grande instabilidade econômica e política, o que o ajudou a conquistar uma massa de insatisfeitos e desemprega­dos. O fato de ele viver na Baviera também colaborou. Ali o governo e a Justiça favoreciam descaradamente os grupos de direita e perse­guiam os de esquerda, como os jornalistas do Post. Qual­quer outro Estado alemão teria mandado Hitler de vol­ta para a Áustria, tamanha a violência promovida
DR – Qual o legado dos jornalistas do “Post”, que tentaram “avisar” sobre o mal que surgia no mundo, mas foram ignorados?
Silvia - As denúncias do Münchener Postprovam que, muito antes de Hitler chegar ao poder, havia gen­te alertando para os planos macabros dos nazistas para a Alemanha. É incrível que não tenham levado o jornal a sério. Para mim, depois dessa pesquisa, fica difícil aceitar o argumento de que os alemães não sabiam do que ele era capaz.
DR – Quais as princi­pais descobertas prove­nientes de sua pesquisa?
Silvia - Este é o primeiro livro com a história detalha­da da luta desigual entre um jornal pequeno e indefeso e a violenta corja nazista. Pela primeira vez alguém conta minuciosamente das campa­nhas desesperadas promovi­das pelo Post para impedir a ascensão de Hitler. Desde as investigações sobre as ori­gens do dinheiro para o alto nível de vida que ele levava até as denúncias referentes à homossexualidade do capi­tão Ernst Roehm, chefe da tropa de assalto nazista.
DR – Qual o sentimento de ser uma brasileira que es­creveu o único livro existente sobre o “Münchener Post”?
Silvia - Até hoje muitos pesquisadores estrangeiros, norte-americanos, britânicos, vão para a Alemanha pesqui­sar sobre o nazismo. Menos envolvidos com este triste capítulo da história alemã, talvez eles tenham mais fa­cilidade de perceber e abor­dar novos aspectos. Durante a minha pesquisa, sempre estranhavam o fato de uma brasileira ir atrás da histó­ria de um jornal pequeno e desconhecido. E eu sempre respondia que não era apenas um jornal pequeno e desco­nhecido, mas um jornal que enfrentou Hitler e seus ca­pangas, sem fraquejar, até o último dia de sua existência. Estava na hora de alguém es­crever esta história.
DR – Por que você vive na Alemanha?
Silvia - Vivo na Alema­nha faz 22 anos. Primeira­mente fui para lá aprender a língua e daí passei a gostar muito do país. Por isso decidi deixar o Brasil para fazer em Colônia um segundo estudo, em história. Logo conheci meu marido, o que ajudou na decisão de ficar definiti­vamente. Fiz ótimos amigos na Alemanha e adoro a vida lá, bem mais tranquila e civi­lizada do que no Brasil.
A jornalista Silvia Bittencourt em sessão de autógrafos do seu livro em São Paulo
A jornalista Silvia Bittencourt em sessão de autógrafos do seu livro em São Paulo

Fonte: Sul21

sexta-feira, 26 de julho de 2013

1581: Holanda se liberta da Espanha

Em 26 de julho de 1581, na União de Utrecht, Holanda declarou-se formalmente independente da Espanha. Novas alianças foram realizadas entre províncias holandesas.
Felipe 2º, rei de Espanha e Portugal (1527-1598)
As sete províncias do norte dos Países Baixos percorreram um longo caminho até se libertarem da coroa espanhola, a 26 de julho de 1581. A partir daí, ainda enfrentaram uma demorada luta pela independência, que só foi reconhecida pela Paz de Vestfália, em 1648.
Tudo começou com Felipe 2º, que, em 1556 herdara de seu pai, Carlos 5º, a parte ocidental do império dos Habsburgo, incluindo a Espanha, os Países Baixos e parte da Itália. O príncipe herdeiro tentou manter a integridade de seu território fazendo uso da repressão e da violência.
A emergente reforma protestante foi combatida por meio da Inquisição e de uma nova administração eclesiástica, que possibilitou a Felipe 2º vigiar fortemente a Igreja nos Países Baixos. Com isso, ele não só interveio em questões religiosas como também cortou privilégios da alta nobreza.
Rei tirânico
A criação de novos impostos e o estacionamento de tropas espanholas nos territórios sob seu domínio causaram irritação e temor, gerando movimentos de oposição. Já em meados de 1550, o procurador real Antoine de Granvalle havia escrito a seguinte advertência ao monarca: "As tropas devem ser retiradas imediatamente; do contrário, o resultado será uma revolta."
Quando o rei lhe deu ouvidos, em 1561, era tarde demais. O fosso entre os súditos e o monarca tornara-se profundo. Em meados dos anos 60, ocorreram protestos em massa. Uma onda calvinista combinada com agitação social inundou o país.
O rei reagiu com o envio de uma "expedição de castigo" comandada pelo temido duque Alba. Milhares de oposicionistas foram processados e executados, muitos deles fugiram, principalmente para os territórios inacessíveis da costa norte, que se transformaram em centros da resistência.
Um dos líderes da oposição foi Guilherme, o Taciturno, da casa de Orange, que havia sido nomeado por Felipe 2º para governar as províncias de Utrecht, Zelândia e Holanda. A oposição aristocrata, inicialmente católica e fiel ao rei, exigia apenas a preservação de seus direitos e privilégios tradicionais. Somente durante a longa guerrilha contra as tropas espanholas cristalizaram-se três tendências: radicalização, confissionalização e regionalização.
Soberania questionável
Indumentária holandesa guardou influência espanhola pelo século 17 adentro ('Sansão Cego', quadro de Rembrandt)
No princípio, a confissão religiosa não dividiu a população; nas províncias rebeldes a tendência básica era favorável a reformas. Mas diante da intransigência do rei em questões de fé, o assunto foi ganhando importância nacional. As províncias valonas do sul, dominadas por forças aristocratas católicas mais conservadoras, fundaram em 1579 uma união para a preservação da fé católica e fecharam um acordo de paz com Felipe 2º.
As províncias do norte, calvinistas-burguesas, criaram sua própria união – a República Unida da Holanda. Na prática, isso significou a separação da Espanha. Oficialmente, porém, as Províncias Unidas só proclamaram sua autonomia em relação à monarquia espanhola, a 26 de julho de 1581, num manifesto publicado em Haia.
"Acreditamos que um príncipe é imposto por Deus aos seus súditos, principalmente para protegê-los de toda injustiça. Se, em vez disso, ele lhes rouba velhas liberdades, privilégios e direitos baseados no costume e os humilha como escravos, não deve mais ser considerado príncipe e, sim, um tirano. Por isso, seus súditos têm o direito de desobedecê-lo, abandoná-lo e eleger outro líder máximo para substituí-lo", dizia o documento.
Independência, finalmente
Com essa declaração de autonomia, a ruptura com a Espanha estava irreversivelmente consumada. A luta pela independência, porém, ainda se arrastou por aproximadamente sete décadas. Em seu início, a chamada Revolta dos Países Baixos foi um movimento isolado, durante o qual diferentes grupos sociais e religiosos lutaram entre si, bem como contra seus governantes Habsburgos.
Embora heterogêneas, as sete províncias rapidamente se fundiram numa potência européia. Seu poderio militar foi reforçado, em parte, por recursos oriundos da expansão comercial e territorial além-mar.
Segundo Paul Kennedy, autor do livro Ascensão e queda das grandes potências, entre 1598 e 1605 uma média de 25 navios partiu a cada ano para a África Ocidental, 20 para o Brasil, 10 para as Índias Orientais e 150 para as Caraíbas.
Em 1600, os 70 mil rebeldes holandeses eram apoiados por um exército constituído por 43 companhias inglesas, 32 francesas, 20 escocesas, 11 valonas, nove alemãs e apenas 17 holandesas, treinado por Maurício de Nassau. Mesmo assim, os Países Baixos só conquistaram sua soberania a 30 de janeiro de 1648, por um acordo de paz especial assinado com a Espanha.
  • Autoria Rachel Gessat / gh
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1957 - República da Tunísia é proclamada

Em 25 de julho de 1957, a Assembleia Nacional Constituinte da Tunísia vota, por unanimidade, uma resolução que abole totalmente o regime monárquico e proclama o Estado tunisiano. A sessão ainda atribui a Habib Bourguiba a chefia do Estado, com o título de presidente da República Tunisiana. Era o fim de dois séculos e meio de reinado da dinastia husseinita.

No dia seguinte à declaração de autonomia de 3 de junho de 1955, o bei Lamin promulga um decreto instituindo uma assembleia constituinte eleita pelo povo, encarregada de dotar o país de uma constituição que deveria ser aprovada pelo próprio bei. Os trabalhos de preparação começam em 8 de abril de 1956, em seguida à proclamação de independência da França.

O artigo 1º da primeira versão rezava que “a Tunísia é um Estado livre, independente e soberano, o Islã é a religião e o árabe a língua oficial. A soberania pertence ao povo. O Estado tunisiano é uma monarquia constitucional cuja divisa é liberdade, ordem e justiça”.

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Entretanto, Bourguiba, à época chefe do governo, não desperdiçou a ocasião para desacreditar o bei, acusando-o de ter se oposto ao processo de independência e suprimindo por decreto algumas de suas prerrogativas como poder de chefe da família reinante.

[O primeiro presidente do país, Habib Bourguiba, em 1960]

O processo de independência da Tunísia, porém, se iniciou em 12 de maio de 1881, quando protetorado francês havia sido oficializado pelo Tratado de Bardo.

A França não tardaria a abusar de seus direitos e prerrogativas de protetor para explorar o país como uma colônia, ao constranger o bei a abandonar a quase totalidade de seus poderes em favor do Residente Geral que representava em Tunis os interesses da República Francesa. Não obstante, a ocupação trouxe alguns aspectos positivos a nível da modernização do país, como rede ferroviária, agricultura, industrialização.
O começo do século 20 é marcado pelas primeiras iniciativas sérias contra a exploração colonial. A repressão leva os movimentos nacionalistas a radicalizar e, em 3 de junho de 1920, é criado o Partido Liberal Constitucional Tunisiano (Partido do Destour) que exige a independência total do país.

Em 1936, a ascensão do Front Populaire ao poder em Paris permite a libertação dos líderes independentistas. Esta liberalidade não duraria e, em 1938, o jovem advogado Habib Bourguiba é preso na França por conspirar contra a segurança do Estado.

Malgrado sua libertação pelo regime de Vichy a pedido interesseiro de Mussolini, Bourguiba não quis avalizar os regimes fascistas e lança em 8 de agosto de 1942 um apelo em defesa das tropas aliadas. Essa posição lhe valeu ser prontamente preso pelos nazistas sendo posto em liberdade somente em abril de 1944.

Após a guerra, lentas negociações com Paris são levadas a cabo por Bourguiba e Salah Ben Youssef, mas seu fracasso provocou em janeiro de 1952 o início da revolução armada e um endurecimento das posições de cada lado.

Esta situação difícil foi apaziguada pelas reformas do primeiro ministro Pierre Mendès-France, cerca de um mês após sua chegada ao poder em junho de 1954. Com efeito, em 31 de julho de 1954, anuncia unilateralmente o reconhecimento da autonomia interna da Tunísia e a formação de um governo provisório do qual participariam 3 membros do Neo-Destour.

O tratado da autonomia foi firmado em 3 de junho de 1955, apesar da oposição de Ben Youssef para quem esse acordo constituía um passo atrás. Contrariamente a Bourguiba, quem pregava uma independência obtida por meios pacíficos “por etapas, com a ajuda da França e sob sua égide”, Ben Youssef defendia o pan-arabismo e aspirava a independência total e imediata. O conflito entre os dois líderes do Neo-Destour foi resolvido em favor de Bourguiba, evitando-se, destarte, um banho de sangue que uma guerra frontal contra a França  prometia.

Em 20 de março de 1956, a França acabou por conceder à Tunísia a independência total, com exceção do porto estratégico de Bizerta e menos de um mês depois foi eleita a Assembleia Constituinte, da qual Bourguiba foi o primeiro presidente.

Os últimos traços do colonialismo chegam ao fim em 15 de outubro de 1963, com a evacuação de Bizerta, derradeira base francesa no país.
Fonte: Opera Mundi