quinta-feira, 28 de março de 2013

Literatura Africana: artigos


A Revista Abril, qualis A2, periódico eletrônico (www.uff.br/revistaabril) editado pelo Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, está recebendo colaborações para seu próximo número, a ser publicado no segundo semestre de 2013. Os originais devem ser enviados para nepa@vm.uff.br ou revistaabril@vm.uff.br.
Este número aceita artigos destinados a analisar, em obras literárias de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, bem como nos diálogos que estabelecem com produções literárias brasileiras ou de outros sistemas literários, as relações entre memória, pós-memória e literatura. Para tanto, solicitam-se textos que, para além dessas relações, proponham uma análise de elementos significativos correlatos ao tema principal, como as fronteiras entre memória, história e/ou esquecimento; as narrativas de testemunho; os relatos autobiográficos; as narrativas da ditadura, da guerra e da emigração, assim como seus respectivos relatos de segunda geração; as formas de escrita: o diário, as entrevistas, as epístolas. 

Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo abre inscrições


Em agosto, 101 escritores de nove países estarão na cidade gaúcha para discutir o tema “Leituras jovens do mundo”. Interessados em participar podem se inscrever a partir de 1º de abril

Mais de uma centena de escritores, artistas e pensadores têm encontro marcado com seus leitores na 15ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, um dos primeiros e mais importantes eventos literários do país. Marcada para acontecer entre os dias 27 e 31 de agosto, a Jornada nesta edição está voltada ao jovem.
Para se inscrever, basta acessar o portal da Jornada (www.jornadasliterarias.upf.br). Pelo site, os interessados devem escolher a modalidade de participação, preencher a ficha de inscrição on-line e efetuar o pagamento via boleto bancário. As vagas são limitadas e as inscrições, que começam no dia 1º de abril, ficam abertas até a lotação em cada módulo.
Pelo portal, é possível ainda consultar a programação, além de conhecer os autores que já confirmaram presença. Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail jornada@upf.br ou pelo telefone (54) 3316-8368.

Leituras Jovens do Mundo
Ao propor o tema “Leituras Jovens do Mundo”, a Jornada vai explorar o potencial, as preferências e a diversidade de interesses e de comportamentos necessários ao entendimento dos jovens. Para as discussões estão convidados autores internacionais, como o diretor do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade de Barcelona, Cesar Coll, e o romancista mexicano Alejandro Reyes. Entre os brasileiros, destacam-se José Castello, Walcyr Carrasco, Jairo Bouer, Laura Müller, André Vianco e Raphael Draccon.

A programação conta ainda com sessões de autógrafos, conversas paralelas, oficinas, espetáculos e exposições e dois grandes shows musicais: Titãs e Yamandu Costa.

Eventos paralelos
Eventos paralelos e já tradicionais fazem parte da programação da Jornada e integram diferentes públicos: a 7ª Jornadinha Nacional de Literatura, destinada a estudantes do ensino fundamental de escolas públicas e privadas; o 12º Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural, que ocorre anualmente, alternando cidades da Europa e Passo Fundo em anos de Jornadas Literárias; o 4º Encontro Estadual de Escritores Gaúchos: a criação literária em debate; o 3º Seminário Internacional de Contadores de Histórias; o 2º Simpósio Internacional de Literatura Infantil e Juvenil e a segunda edição da JorNight, destinada especialmente aos jovens. As maiores novidades de 2013 ficam por conta do Encontro Internacional de Bibliotecários e Mediadores de Leitura e da Jornada UPF.


Mais Informações à Imprensa
Lu Fernandes Comunicação e Imprensa
Tel: (11) 3814-4600
Atendimento: Leonardo Neto / Mary Zaidan

Arauto da República de Ipanema


A obra do “homem de imprensa” Millôr Fernandes refletiu a sociedade e a política nacionais pelos séculos XX e XXI a partir da idealização do bairro onde viveu e morreu

Andréa Cristina de Barros Queiroz
27/3/2013
Foto: Tania Rego/ABr AgenciaBrasil
Foto: Tania Rego/ABr AgenciaBrasil
O jornalista Millôr Fernandes (1923-2012) disse certa vez em uma entrevista: “eu não vivo no Brasil, eu vivo no Rio de Janeiro”. Isso não quer dizer, porém, que ele era um homem provinciano. Ao contrário. Demonstra apenas que ele enxergava no Rio uma representação em escala menor do Brasil, assim como via em Ipanema uma versão diminuta da “cidade maravilhosa”. Suas crônicas não apenas espelhavam o cotidiano do Rio de Janeiro, como também as discussões sobre a política, a economia e a cultura nacionais.Com seus textos, Millôr ajudou a construir e a divulgar o “modo de ser carioca” para fora do bairro, da cidade e do país.
Existem algumas particularidades entre as narrativas cotidianas deste dramaturgo, tradutor, cartunista, cronista e roteirista, que preferia ser identificado como jornalista, ou melhor, como homem da imprensa, e a narrativa histórica organizada pelo historiador. Segundo Millôr, “a imprensa é a voz de hoje, herdeira e guarda das informações de ontem, prenunciadora e formadora dos acontecimentos de amanhã, antecipa a História, pois é aí que a História vai buscar a maior parte de seus dados – e eis por que a História é cada vez mais confusa, mentirosa e/ou tola”.
Ao ler as crônicas de Millôr podemos encontrar muitos cenários e sujeitos que pertenceram tanto à vida cotidiana quanto aos palanques oficiais do governo no Brasil. Ao aprofundarmos essas leituras acabamos reconhecendo as grandes transformações pelas quais passaram a sociedade brasileira ao longo do século XX e início do século XXI. O Rio de Janeiro, ainda capital federal, começou a ser descrito ainda sob o olhar do menino Milton Fernandes que viveu no subúrbio do Méier até a sua adolescência, quando foi morar no Centro da Cidade, por volta dos anos 1940, perto da redação da revista O Cruzeiro, onde trabalhava, e do Liceu de Artes e Ofícios, onde estudava.
As lembranças do subúrbio de sua infância e do Centro da cidade de sua adolescência ficaram registradas em suas crônicas. Aos 17 anos, nasceu a sua nova identidade, o Millôr Fernandes, uma criação a partir da caligrafia do escrivão em sua certidão de nascimento. Com o sucesso e a valorização profissional, o jornalista foi morar em Copacabana, acompanhando, dessa forma, o percurso da boemia carioca deslocando-se do Centro para a Zona Sul, que se consagrou, no final dos anos 1940 e início dos anos 1950, como a nova territorialidade cultural da cidade. Quando chegou em Ipanema, em 1954, o lugar lhe imprimiu mais uma nova identidade, caracterizando o nascimento do Millôripanemense, definindo outra marca de sua narrativa. O seu estilo passou não apenas a dialogar, mas, sobretudo, foi um ator importante da construção e da disseminação dos símbolos e valores daquele novo cenário boêmio da cidade – a República de Ipanema – e de seus personagens.
Millôr Fernandes começou a trabalhar diariamente nas redações, no final da década de 1930, antes mesmo da profunda modernização da imprensa brasileira nos anos 1950. Diferentemente de outros jornalistas de sua própria geração, logo que Millôr começou a trabalhar na revista O Cruzeiro, ele se profissionalizou, não precisando exercer outra atividade concomitante ao trabalho jornalístico, já que conseguia viver apenas de seu salário, que por sinal com apenas 20 anos de idade era um dos maiores na revistaque o lançou e de onde alcançou notoriedade.
Millôr imprimiu em seu texto um estilo narrativo marcadamente avesso à objetividade dos grandes diários de circulação nacional, fortalecendo, com isso, a sua subjetividade. Assim, a sua maneira de se posicionar no mundo estava sempre demarcada em sua prosa, levando a uma postura de não aceitação a qualquer tipo de interferência em suas criações, principalmente quando esta partia de seus companheiros de profissão.
Cultura do carioquismo
Millôr pertenceu à geração de cronistas que contribuiu para a “fabricação da cultura do carioquismo”, expressão de Cláudia Mesquita, que tinha entre os seus pares Vinicius de Moraes, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Fernando Sabino, entre outros. Eles criaram com as suas crônicas um tipo ideal, um cidadão-padrão da cidade do Rio de Janeiro caracterizado por sua dimensão local, mas, ao mesmo tempo, nacional. Isto é, poderia ser carioca de nascença ou de espírito, aquilo que os identificava como “cariocas” era o sentimento de pertencer àquela particular “cidadania”. Isso se tornou tão marcante que a construção da “cidadania carioca” como “estado de espírito” se perpetuou entre diversos cronistas durante décadas. Em uma crônica de 1970, publicada originalmente n’O Pasquim,Millôr Fernandes enfatizou esse “estado de espírito” ao destacar que “o carioca, todos sabem, é um cara nascido dois terços no Rio e outro terço em Minas, Ceará, Bahia e São Paulo, sem falar em todos os outros Estados, sobretudo o maior deles, o estado de espírito”.
Na década de 1960, ao mesmo tempo em que a cidade do Rio de Janeiro deixava de ser a capital federal, transformava-se também em um estado-capital com a criação do Estado da Guanabara. E as crônicas de Millôr Fernandes nos remetem a esse passado da cidade e do país, com personagens que sentiam em seu cotidiano essas mudanças e produziam críticas sociais com relação ao destino da cidade e do novo Estado recém-criado na federação, coincidindo com um período de intensas transformações e tensões políticas.
Millôr consagrou em sua narrativa o mito da “cidade maravilhosa”, tomando a parte pelo todo, exaltando a singularidade de Ipanema como representação do Rio de Janeiro, e este como representação de Brasil. Essa relação metonímica fez com que os hábitos, os costumes e os modismos dos moradores daquele ambiente litorâneo da cidade se projetassem como referencial do cidadão carioca como um todo. Da mesma forma que o Rio de Janeiro representaria o Brasil, por analogia Ipanema representaria o Rio e, por conseguinte, também representaria a nação. Esse espaço carioca com sua rede de sociabilidade representou na narrativa de Millôr e na de muitos cronistas de sua geração o modus vivendi carioca. Ipanema, para os cronistas e intelectuais daquele período, era a vanguarda cultural não só do Rio, mas do Brasil, com o lançamento de sua moda praia, do jogo de frescobol na areia, de seus hábitos transgressores, da contracultura, da Bossa Nova, do Cinema Novo, da esquerda festiva, da Banda de Ipanema. Millôr, talvez o seu maior porta-voz, está imortalizado em sua praia com o largo que leva o seu nome de frente para a praia do Arpoador, no canto extremo de Ipanema, onde, desde as décadas de 1960 e 1970, há o costume de se acompanhar a descida do sol ao mar com aplausos. Porque, como bem notou um dia o próprio Millôr, “o pôr do sol é de quem olha”.

Andréa Cristina de Barros Queirozé diretora da Divisão de Memória Institucional - SIBI / UFRJ, professora da Unigranrio e autora da tese Enfim, um escritor com estilo: o jornalista, pasquiniano, ipanemense e sem censura Millôr Fernandes (UFRJ, 2011).
Fonte: Opera Mundi

quarta-feira, 27 de março de 2013

História UPF visita Museu Olívio Otto


Turma do 7º nível de História-UPF da disciplina de Fundamentos e Práticas de Arquivo e Museu, ministrada pelo prof. Álvaro Klafke, em visita ao Museu Olívio Otto de Carazinho/RS.

"Os museus são casas que guardam e apresentam sonhos, sentimentos, pensamentos e intuições que ganham corpo através de imagens, cores, sons e formas. Os museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes. Os museus são conceitos e práticas em metamorfose..." 



terça-feira, 26 de março de 2013

Encomenda de canecas História UPF


Colegas,
estamos averiguando interessados na aquisição de canecas História UPF. Trata-se de uma sondagem prévia, somente quem realmente tem interesse deve se manifestar, considerando a tabela de preços abaixo.

Descrição: Caneca com ampulheta, fundo preto e logo História UPF/PPGH.


10 peças R$ 17,90 unidade
20 peças R$ 15,90 unidade
50 peças R$ 13,50 unidade

Quanto maior o pedido melhor para todos, portanto, ajudem a divulgar!

Para indicar sua intenção envie email para Bruna Anacleto - bruna.n.anacleto@gmail.com

1871: A Comuna de Paris


Em 26 de março de 1871 eclodiu a insurreição conhecida como Comuna de Paris, com a instituição de uma ditadura proletária, esmagada por tropas francesas conservadoras e estrangeiras em maio do mesmo ano.
Ruínas do Hotel de Ville, sede da Comuna
O tiro de partida para a insurreição havia sido dado um mês antes, quando manifestantes de esquerda haviam capturado 200 canhões da Guarda Nacional. Há exatamente oito dias, o governo conservador tentava em vão retomar as armas e, depois do fiasco e de forma totalmente inesperada, se retirou para Versalhes em 18 de março.
Foram várias as razões para a insurreição de Paris. A França havia perdido uma guerra para a Alemanha. Os termos da paz proposta pelos prussianos foram rejeitados pelo socialista Louis Blanc e o anarquista Joseph Proudhon. Quando o resto do país já havia capitulado, Paris manteve a resistência.
Revolta espontânea
As tropas prussianas mantiveram a cidade sitiada durante meses. As privações consequentes do cerco custaram a vida de milhares de pessoas. Mesmo depois da capitulação, em janeiro de 1871, o drama social dos parisienses era grande, pois o gabinete conservador nacional governava à revelia das necessidades da população de Paris. Tudo isso gerou uma revolta espontânea contra o governo em março de 1871.
Após a retirada do governo de Paris para Versalhes, os revolucionários vitoriosos deliberaram sobre novas medidas. Alguns queriam marchar imediatamente para Versalhes e prender o governo antigo. Mas a maior parte dos insurgentes não tinha ambições de longo alcance. Eles queriam simplesmente autonomia política local. Quer dizer, desejavam um governo de maioria de esquerda conquistado em eleição e com isso se tornarem independentes do governo nacional conservador. Por isso, o Comitê Central convocou uma eleição municipal para 26 de março de 1871.
Atender necessidades do proletariado
O resultado da eleição foi o desejado pela esquerda. Em 28 de março entrou para a comuna uma mistura de jacobinos, anarquistas e socialistas, que se denominou "A Comuna". Em seus dois meses de governo, ela aprovou uma série de leis. As principais visavam atender as necessidades mais prementes do proletariado parisiense.
Entre as mais profundas destacaram-se a separação entre o Estado e a Igreja, o fim dos privilégios dos nobres, a autonomia do governo de Paris e a famigerada "lei do refém", que ameaçava com a pena de morte aquele que cooperasse com o governo antigo.
A experiência da Comuna de Paris chegou ao fim com uma semana sangrenta, após dois meses caóticos que se seguiram ao começo entusiástico. As tropas do governo que se encontrava em Versalhes conquistaram a cidade de volta depois de batalhas sangrentas. A Comuna de Paris matou cerca de 500 presos, principalmente policiais e clérigos, inclusive o arcebispo da cidade.
Começou uma cruzada sangrenta de vingança depois da tomada de Paris pelas tropas governamentais. Eram executados todos os que faziam parte da Comuna de Paris ou pareciam ser simpatizantes. Historiadores calculam que as tropas governamentais mataram de 20 mil a 25 mil pessoas depois de conquistar a capital.
  • Autoria Rachel Gessat (ef)
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O estopim do golpe?


‘Festa’ de marujos com direito a apoio às Reformas de Base, em 25 de março de 1964, teria contribuído para a deposição do presidente João Goulart, dias depois

Anderson da Silva Almeida
25/3/2013
Era dia 25 de março de 1964. Reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos da Guanabara, mais de 1,5 mil marinheiros e fuzileiros navais pretendiam comemorar os dois anos da fundação de sua Associação. Mas o clima não era agradável. Um dia antes, os jornais já noticiavam que parte da diretoria seria presa em virtude de terem se manifestado contra o ministro da Marinha, almirante Sylvio Motta, na semana anterior. Entre os dirigentes procurados, estavam o marinheiro José Anselmo dos Santos – presidente da Associação; o cabo Marcos Antônio da Silva Lima – vice-presidente; e o também marinheiro Antônio Duarte dos Santos – presidente do Conselho Deliberativo. Entre os que já estavam presos, o segundo vice-presidente Avelino Capitani e José Duarte dos Santos, que no período após o golpe de1º de abril de 1964, iriam se tornar importantes quadros da esquerda armada no Brasil.
Naquele dia de março, já havia se passado 54 anos da Revolta da Chibata; e os marinheiros brasileiros não sofriam mais castigos corporais de seus superiores. O nível de escolaridade havia melhorado, as formas de admissão já não eram tão desastrosas e a Marinha de Guerra continuava o processo de profissionalização de seu pessoal. Em 1960, cinco Escolas de Aprendizes-Marinheiros, situadas nos estados de Pernambuco, Ceará, Bahia, Santa Catarina e Espírito Santo funcionavam como núcleos de formação dos marinheiros brasileiros. Outros, não oriundos destas escolas, ingressavam através do recrutamento ou como soldados Fuzileiros Navais, recebendo formação em diferentes centros espalhados pelo país, sendo o Rio de Janeiro o principal deles. No entanto, novos problemas que envolviam a questão da cidadania dos marujos surgiram e, mais uma vez, como na canção de João Bosco e Aldir Blanc, “o Dragão do Mar reapareceu”! [Sobre a Revolta de 1910, ver RHBN, edições 944 e 53].

Cabo Anselmo
O “cabo” Anselmo – que na realidade tinha a graduação de marinheiro -, por exemplo, foi preso após o golpe de 1964, depois de ter deixado o asilo na embaixada mexicana. Em 1966, conseguiu fugir da prisão com a ajuda de militantes da esquerda armada e foi enviado a Cuba para treinamento guerrilheiro. Ao regressar ao Brasil no ano de 1970, passou a agir como agente duplo e levou dezenas de militantes para a morte, inclusive sua companheira, a paraguaia Soledad Barret Viedma, que estava grávida.
As questões disciplinares foram alguns dos aspectos que contribuíram para exaltar os ânimos e consolidou a posição do alto escalão da Marinha de não reconhecer a entidade que representava a base da pirâmide hierárquica da instituição. Desde a fundação a Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), em 25 de março de 1962, seus dirigentes tentavam o reconhecimento oficial da Marinha, o que possibilitaria, entre outras coisas, que as mensalidades dos sócios fossem descontadas diretamente no contracheque dos associados. Em virtude da conjuntura política brasileira, cujos ânimos acirraram-se pelo menos desde a renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961, o ambiente nos quartéis também foi contaminado. A aparição dos marujos na cena política - em eventos de sindicatos, em apoio a sargentos eleitos para cargos políticos e em manifestações em prol de João Goulart - não era aceita pela Marinha, pois só os almirantes tinham o monopólio da palavra e podiam expressar suas opiniões de caráter político.
No espaço interno, a AMFNB cresceu assustadoramente e em pouco menos de dois anos já contava com cerca de 15 mil sócios. Seus dirigentes organizaram serviços de atendimentos médicos para as companheiras - visto que não podiam casar oficialmente e suas esposas não eram reconhecidas pela Marinha como tais; criaram o jornal A Tribuna do Mar; conseguiram um programa na importante Rádio Mayrink Veiga; obtiveram o reconhecimento de utilidade pública estadual; firmaram convênios com o ministério da Educação para aquisição de material didático; articularam apoio e passaram a utilizar espaços cedidos pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Na mesma proporção do prestígio, as reivindicações frente à Marinha também foram ampliadas. Passaram a requerer melhorias nas condições de vida a bordo dos navios e quartéis, incluindo alimentação e alojamentos; direito de andar à paisana em suas folgas; autorização para estudar e casar; reformas no plano de carreira e conquista da estabilidade aos dez anos de profissão. Em relação aos aspectos políticos reivindicavam o direito de votar para cargos políticos. Queriam, sem dúvida, ser considerados cidadãos.
No dia da assembleia comemorativa, ou dia da festa, uma presença chamou a atenção da imprensa: João Cândido Felisberto. Importante liderança dos marujos revoltosos de 1910, João Cândido foi descoberto pelos marujos de 1964 morando em condições precárias na região de São João de Meriti, no Rio de Janeiro, e passou a ser tratado como herói pelos membros da AMFNB, inclusive recebendo uma ajuda mensal da instituição. Em 25 de março de 1964, João Cândido foi o convidado de honra. Também estiveram presentes no encontro o deputado Max da Costa Santos – representando o presidente da República; os membros do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) Hércules Corrêa e Dante Pelacani; o deputado sargento Garcia Filho e representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Apoio às reformas de base
O fato de parte da diretoria estar presa ajudou a acirrar ainda mais os ânimos dos presentes. O presidente da Associação, José Anselmo, destacou em seu longo discurso o apoio às Reformas de Base do governo Jango. O cabo Cláudio Ribeiro propôs que os marinheiros se apresentassem presos e ficassem nessa condição até que seus companheiros fossem soltos e a AMFNB reconhecida pela Marinha. A proposta foi aceita e a festa ganhou ares de rebelião. Após intervenção do marinheiro Otacílio, decidiram permanecer no sindicato, pois a maioria morava nos navios e não teria onde ficar com segurança.
Ao tomar conhecimento da decisão dos marinheiros, o ministro da Marinha decretou Regime de Prontidão Rigorosa, situação na qual todos os militares deveriam se apresentar em suas Organizações Militares. Como não foi atendido, determinou ao almirante Cândido da Costa Aragão, Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, que enviasse uma tropa para prender os rebelados. Aragão não conseguiu cumprir a ordem, pediu exoneração e foi seguido pelo também almirante fuzileiro Washington Frazão Braga. Assumiu a missão Luís Phelippe Sinay que se dirigiu com cerca de 90 fuzileiros navais para a sede do sindicato na manhã do dia 26. Para a surpresa de todos, ao ouvir apelos dos colegas “entrincheirados” que emocionados cantaram o Hino Nacional Brasileiro, parte da tropa arriou suas metralhadoras na calçada e aderiu ao movimento rebelde. Lá dentro, explosão de euforia, lágrimas e abraços. A essa altura, populares e familiares ofereciam apoio moral e material aos rebeldes, cedendo comida, cigarros e jornais, que naquele dia já noticiavam: “Marinheiros realizam sua reunião e quarenta vão ser presos” (Jornal do Brasil, 26/03/1964, capa e p. 05); “Marinheiros e Fuzileiros realizam reunião agitada” (Correio da Manhã, 26/03/1964, p.02); “Marinheiros e fuzileiros vão se apresentar presos se não forem libertados seus colegas” (O Globo, 26/03/1964, p.11).
Após a adesão dos fuzileiros, o ministro Motta pediu ajuda do Exército, recebendo apoio de nove caminhões e 12 tanques de guerra para cercar todo o quarteirão da Rua Ana Nery. Com o risco da invasão e a possibilidade de mortes iminente, Jango resolveu voltar de sua folga no Rio Grande do Sul e assumir as negociações. Na manhã do dia 27, mais um episódio causaria comoção geral na marujada. O marinheiro Alcides chegou todo molhado e informou que colegas tinham sido atingidos por tiros no Arsenal de Marinha da Praça Mauá, quando tentavam se dirigir ao sindicato. À tarde Jango tomou a decisão de substituir o ministro Sylvio Motta pelo almirante da reserva Paulo Mário da Cunha Rodrigues. Os marujos comemoraram em liberdade, chegando a erguer nos ombros o almirante Aragão em agradecimento por sua recusa em reprimir violentamente o movimento. Tentando apaziguar os ânimos, o novo ministro, com o aval de Jango, optou por não punir os rebeldes, alegando que “teria que começar pelos almirantes”. 
A “anistia” dada aos marujos levou militares indecisos, a grande imprensa e setores da sociedade a pregar abertamente o golpe contra João Goulart. Os marinheiros e fuzileiros que criaram, organizaram e consolidaram a Associação teriam que conviver durante muitos anos com o estigma de provocadores do Golpe ludibriados por um suposto agente infiltrado na AMFNB, que seria ninguém menos que o presidente José Anselmo, vulgo “cabo” Anselmo. Vários marinheiros que se destacaram como lideranças no período, foram expulsos e condenados a vários anos de prisão. Outros, que tiveram atuações destacadas nas organizações das esquerdas armada, a exemplo de Avelino Capitani, Marcos Antônio da Silva Lima, Cláudio de Souza Ribeiro e José Raimundo da Costa, tiveram suas trajetórias silenciadas e apagadas da história recente do Brasil.

Anderson da Silva Almeida é autor de Todo o leme a bombordo – marinheiros e ditadura civil-militar no Brasil: da Rebelião de 1964 à Anistia. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2012. prêmio Memórias Reveladas, 2010.

Leia também:

Saiba mais:
CAPITANI, Avelino. A Rebelião dos marinheiros. São Paulo: Expressão Popular, 2005. 
DUARTE, Antônio. 1964: a luta dos marinheiros. Natal: Diorama, 2009. 
RODRIGUES, Flávio L. Vozes do mar: o movimento dos marinheiros e o golpe de 64. São Paulo: Cortez, 2004.
SOUZA, Percival. Eu, cabo Anselmo. São Paulo: Globo, 1999. 
VIEGAS, Pedro. Trajetória Rebelde. São Paulo: Cortez, 2004. 

Sites relacionados:

Vídeos
Jango. Silvio Tendler, 1984.
Caparaóa primeira guerrilha contra a ditadura. Flávio Frederico, 2006.

26 de março de 1980: Morre Roland Barthes

26/03/2013 - 00:00 | Enviado por: Lucyanne Mano


"A escrita é um ato de solidariedade histórica. A língua e o estilo são objetos, mas a escrita é uma função: constitui uma relação entre a criação e a sociedade". Roland Barthes

Roland Barthes, 64 anos, morreu no início da tarde no Hospital da Pitié-Salpetriere, após lutar por mais de quatro semanas para sobreviver a um acidente de trânsito, no qual acabou atropelado por uma caminhoneta. Gravemente ferido na cabeça e nos pulmões, foi induzido a uma traqueostomia. Acabou sucumbindo a uma infecção generalizada, a qual não resistiu.

Para continuar lendo clique aqui.
Fonte: JBlog

Iraque dez anos depois: a guerra é um grande negócio!


"A guerra é um crime... facilmente, o mais rentável, certamente, o mais cruel ... É o único em que os lucros são contados em dólares e as perdas em vidas .... Ela é conduzida para o benefício dos poucos, à custa dos muitos..... eu passei a maior parte do meu tempo como um “ defensor de alta classe” para os Grandes Negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em suma, eu era um gangster, um gangster para o capitalismo." ( Major General Butler)

O ataque norte-americano ao Iraque completou dez anos nesta semana com a constatação por grande parte dos analistas de que a estratégia do governo Bush foi um fracasso: os Estados Unidos e seus aliados não conseguiram alcançar os objetivos anunciados e as consequências da operação militar foram desastrosas, seja do ponto de vista moral, econômico ou militar. Mas o que o discurso sobre a derrota dos EUA não revela é que essa guerra foi e continua sendo uma grande vitória para alguns.
Efe (20/03/2013)
Jovem caminha sobre taque iraquiano destruído e abandonado
durante a guerra de 2003 contra os EUA em Karbala, sul do Iraque

Supõe-se que o objetivo numa guerra é “ganhar” — partindo do principio de que os atores (Estados Nacionais) em confronto buscam impor sua vontade por meio de ações que comportam o uso da força. Mas, é preciso pensar o Estado de forma concreta. Isso é, os objetivos daqueles que decidem ir à guerra são bastante diversos e há alguns atores mais interessados em manipular as informações e prolongar os combates do que propriamente conseguir uma vitória militar.

Não é muito difícil perceber o fracasso norte-americano nas três fases em que se desenrolaram suas ações militares no Iraque: tanto na justificativa para o ataque, quanto na ação militar propriamente dita, bem como no denominado momento de reconstrução do país (nation-building). É preciso dizer, todavia, que essa demarcação é puramente artificial. A passagem da segunda para a terceira fase esta exclusivamente baseada na declaração do ex-presidente George W. Bush quando anunciou o fim das operações militares com a deposição de Saddam Hussein, dando inicio ao processo de reconstrução do país, momento em que os combates aconteceram de fato.

Uma das principais alegações para se iniciar o ataque foi a suposta existência de armas de destruição em massa por parte do governo iraquiano. Mas isso não era suficiente. Era preciso “vender” ainda a ideia de que Sadam Hussein apoiava o “terror jihadista”. A equação estava pronta. Não há nada mais assustador do que um grupo de suicidas com alto poder destrutivo. Diferentemente dos soviéticos, durante a Guerra Fria, esses novos inimigos, alardeava o mainstream norte-americano, não poderiam ser dissuadidos nem contidos e, portanto, deveriam ser simplesmente eliminados.

Como não tardou a ser demonstrado, tratava-se de uma grande mentira, uma das maiores falsificações na história da diplomacia fabricada pelo governo dos EUA e aliados e que contou com a colaboração da grande mídia, dos think tanks, de partidos políticos e de várias ONGs.

Estima-se que, durante esses dez anos, mais de um milhão de soldados norte-americanos foram enviados para o Iraque: 4.483 foram mortos, 33 mil feridos e mais de 200 mil diagnosticados com transtorno de estresse pós-traumático. A taxas de suicídio é 26% entre os veteranos masculinos de 18 a 29 anos.

O número exato de civis iraquianos mortos ainda é desconhecido, mas as estimativas situam entre 150 a 500 mil e três milhões de pessoas deslocadas internamente. Há que se somar ainda as centenas de milhares de pessoas que morreram de doenças causadas por água contaminada, quando os EUA destruíram o sistema de tratamento de água do país.

No que se refere aos custos econômicos da guerra, as cifras são assustadoras. Segundo J. Stiglitz (Premio Nobel de economia) beira os 4 trilhões de dólares. A dívida dos EUA subiu de US$ 6,4 trilhões em março de 2003 para US$ 10 trilhões em 2008 (antes da crise financeira), sendo que pelo menos 25% de montante é diretamente atribuível à guerra.

A questão hoje colocada por muitos intelectuais nos EUA é: podemos aprender com este erro? Economistas, como o próprio Stiglitz, avaliam que é preciso descartar a ideia, bastante sedutora, de que a guerra é boa para a economia. Mas como podemos simplesmente fechar os olhos para o fato de que além do aumento exponencial da lucratividade das empresas favorecidas pela alta do petróleo, a invasão do Iraque abriu um novo e poderoso mercado: o da reconstrução das nações?
Indústria da guerra

O ataque norte-americano ao Iraque impactou consideravelmente o comércio mundial de petróleo, pois além de interromper a produção iraquiana, a instabilidade politica que causou no Oriente Médio fez com o que o preço do produto disparasse. Em 2003, quando os EUA chegaram à região, o preço do barril estava ao redor de US$25. Cinco anos depois, em 2008, os preços chegaram a US$ 140. A percepção de insegurança no mundo proporcionada pela chamada Guerra contra o Terror conduzida pelos EUA, após 2001, propiciou ainda um aumento considerável na venda de armas para os países em todo o mundo. As 100 maiores empresas produtoras de armas do mundo venderam US$ 410 bilhões em armas e serviços militares em 2011. Um estudo do Sipri mostra que a despesa militar no mundo, em 2011, foi de 1,6 trilhão de dólares, um aumento de 40% em 10 anos.

Na terceira e mais duradoura etapa da guerra, o governo norte-americano contratou centenas de empresas para uma gama enorme de atividades sob a rubrica “reconstrução”: infraestrutura do país (sistemas de água, eletricidade, gás e transporte), escolas e hospitais; serviços de segurança aos “novos trabalhadores”, treinamento das forças iraquianas e suporte logístico às operações antiterrorismo; serviços financeiros, e, naturalmente, a sua indústria petrolífera. A maior parte dos recursos foi alocada na contratação de empresas privadas de segurança. Em 2008, os dez principais fornecedores de serviços militares receberam cerca de US$150 bilhões em contratos.

Para perpetuar este ciclo, altamente lucrativo, essas corporações reciclam (ou reinvestem) parte dos bilhões de dólares adquiridos com a guerra em ações de lobby e contratação de antigos oficiais renomados para a sua diretoria, que facilitam o processo de contratação. A Lockheed Martin, empresa que mais possui contratos na área de segurança militar, em todo o mundo, doou mais de um milhão de dólares para deputados e senadores de diferentes partidos em 2009. Sua diretoria é composta por antigos funcionários do governo: o ex-vice-secretário de Defesa, o ex-comandante do Comando Estratégico, ex-vice-secretário de Segurança Doméstica. Vale dizer que seu rendimento anual é de US$ 40 bilhões de dólares, dos quais, ao menos 35 bilhões, são provenientes de contratos com o governo norte-americano. Mas a Lockheed Martin não é exceção: a estrutura se repete à medida que analisamos outras empresas como Northrop Grumman, Boeing, CACI, Parsons Corp A Pasadena.

Onde estão as vozes no Congresso, democrata ou republicano, que falam seriamente em por um fim essa indústria da guerra? O presidente Obama e os democratas não alteraram em nada a política da “guerra sem fim” contra o terror iniciada por Bush. O Congresso abdicou intencionalmente de suas responsabilidades políticas ao delegar, ao poder executivo, a responsabilidade de conduzir a guerra querendo com isso ludibriar a sociedade de que eles não podem fazer nada.

É preciso admitir que o poder real para iniciar ou terminar guerras está nas mãos de uma elite, como bem observou o sociólogo norte-americano Wright Mills há mais de 50 anos. Avaliando o Estado norte-americano, após a 2ª Guerra Mundial, Mills entendia que se é verdade que as decisões da administração militar passaram a afetar diretamente as dimensões política e econômica, também é verdade que as decisões tomadas na área política determinam as atividades econômicas e os programas militares. Na medida em que essa três áreas (economia, politica e militar) se articulam entre si, em termos de poder de decisão, com consequência para toda a sociedade, os lideres das três áreas do poder – senhores da guerra, dirigentes de empresa e direção política – tendem a se unir para formar a elite no poder nos EUA.

Ou seja, a suposta irracionalidade das ações contraproducentes no terreno militar, durante esses 10 anos no Iraque, é mais aparente do que real e não se trata, como querem ver alguns críticos da ação dos EUA, de uma guerra interminável no sentido de carecer de objetivos claramente definidos ou mal executados. A elite no poder sabe muito bem o que se espera desse estado de guerra permanente: a expansão dos negócios, domínio de territórios e influência política.

*Reginaldo Mattar Nasser é professor de Relações Internacionais da PUC-SP e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP). Artigo originalmente publicado pela Carta Maior.
Fonte: Opera Mundi

Após golpe de Estado, República-Centro Africana é isolada por países vizinhos


O Conselho de Paz e Segurança da UA (União Africana) suspendeu nesta segunda-feira (25/03), após reunião de emergência em sua sede, em Adis-Abeba (Etiópia), a participação da República Centro-Africana no organismo. O órgão multilateral também impôs sanções contra os líderes da coalizão rebelde Séléka que, no domingo (24), após conquistar a capital Bangui, tomou o poder do país através de um golpe de Estado.

Após tomar o controle da capital Bangui, o líder do Séléka, Michel Djotodia, se proclamou ontem novo presidente, após a fuga do até agora chefe do Estado, François Bozizé, para Camarões. Bozizé governava o país desde 2001, também através de um golpe de Estado.

Ao mesmo tempo em que é um dos países mais pobres do mundo, a República Centro-Africana tem um histórico de décadas de instabilidade política após ter se tornado independente da França, e possui ricas reservas de ouro, diamantes, urânio e ferro.

Saques

Em Bangui, os saques continuaram hoje na República Centro-Africana, de acordo com a organização MSF (Médicos Sem Fronteiras), que registrou ocorrência em seus centros médicos.

A MSF fez uma chamada "aos atores envolvidos nos combates para que garantam à população em geral o acesso à assistência médica, não só na capital, mas no resto do país".

Em comunicado das Misiones Salesianas, o missionário espanhol Agustín Cuevas, que trabalha em Bangui, também denunciou saques e disse que "há desabastecimento de alimentos e o pouco que se encontra nos mercados custa muito caro".

As razões dos golpistas

Djotodia, defendeu o golpe de Estado dado no país por causa "da miséria" e assegurou que não haverá perseguição aos dirigentes do regime do governante derrubado, François Bozizé. "É a miséria que nos obriga. Queremos sair desta miséria", afirmou o até agora líder rebelde, que ressaltou que a vitória não é apenas sua, mas "de todo povo centro-africano".

"Não estamos aqui para fazer caça às bruxas", declarou Djotodia à emissora "Radio France Internationale" ao ser perguntado sobre se aceitará ministros de Bozizé em seu governo. "Perante a impossibilidade de obrigá-lo a fazer o que foi pactuado, não tínhamos outra saída a não ser o uso de armas para forçá-lo a deixar o poder", argumentou Djotodia.

Segundo Djotodia, o governo vai verificar se esses ministros continuam na República  Centro-Africana para tentar chamá-los "porque as portas estão abertas para todos" e porque "representamos todos os centro-africanos".

Em relação ao tempo em que pensa permanecer no poder, o novo presidente afirmou que não pode firmar um tempo exato, já que, segundo ele, "é preciso tempo para estabelecer a paz".

Em todo caso, Djotodia se comprometeu - em linha com o compromisso assinado no último janeiro em Libreville com o regime de Bozizé - a organizar "eleições livres e transparentes" em um prazo de três anos.

"Não disse que em três anos entregaria o poder. Disse que daqui a três anos vamos organizar eleições livres e transparentes como ocorre em todo mundo", declarou.

Djotodia também confirmou que seu primeiro-ministro continuará sendo Nicolas Tiangaye, antigo opositor ao regime de Bozizé que foi nomeado em janeiro em virtude desses mesmos acordos de Libreville.

Tiangaye deverá formar um novo Executivo de transição, ao mesmo tempo em que criará um Conselho Nacional de Transição.

Djotodia negou um suposto apoio que o Seleka teria recebido por parte dos presidentes do Chade, Congo-Brazzaville e Gabão.
Em relação às suas prioridades para transição política, Djotodia considerou que "o povo centro-africano deve estar unido e deve ver o futuro com objetividade, tendo em vista que não há paz e, sem paz, não se pode fazer nada. Vamos ter que restabelecer a paz e a autoridade do Estado em todo o território".

Para alcançar o objetivo citado, Djotodia exaltou que espera a ajuda "de amigos, como a França, Estados Unidos e China", assim como da Comunidade Econômica de Estados da África Central e da Comissão Econômica e Monetária da África Central.

Desaprovação internacional

Em comunicado, a organização pan-africana informou que decidiu "suspender de forma imediata a participação da RCA (sigla pela qual o país também é conhecido) em todas as atividades da entidade, além de impor sanções contra os líderes do grupo Séléka, incluindo a proibição de viagens e o bloqueio de ativos".

A União Africana pediu também a seus países-membros para "tomarem todas as medidas necessárias para isolar completamente os autores da mudança inconstitucional na RCA, assim como para rejeitar-lhes refúgio e cooperação".

A entidade também manifestou "grave preocupação pela evolução negativa da situação na RCA após a "decisão unilateral e injustificada" da Séléka de "tomar o controle da capital, Bangui, e assumir o poder pela força".

A nota também "condena fortemente os abusos e outros atos de violência contra a população civil, assim como roubos cometidos em consequência da entrada em Bangui dos membros armados do grupo Séléka".

A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, qualificou hoje de "inaceitável" o golpe de Estado, enquanto a França, a antiga metrópole, reprovou o "uso da força" que levou à ascensão dos rebeldes ao poder.

O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, afirmou nesta segunda-feira (25) que, "por enquanto, não há poder legítimo" na República Centro-Africana. Segundo Fabius, mesmo com a autoproclamação de Djotodia como novo presidente, Paris não vai interferir nos assuntos desse país, mas protegerá seus cidadãos.

Indiretamente, Fabuis também criticou Bozizé, que, segundo o ministro francês, "tinha se comprometido a fazer coisas que não fez".

A França, que reforçou seu dispositivo militar na República Centro- Africana nas últimas horas para proteger seus cidadãos, não tem intenção de tirá-los do país por enquanto, já que considera que a situação está sob controle.

O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, também condenou o golpe e confirmou que pelo menos 13 soldados sul-africanos morreram no fim de semana passado e 20 ficaram feridos em combates com os rebeldes.

A África do Sul autorizou em janeiro o desdobramento de 400 soldados ao país - embora até o momento só tinham mobilizado algo mais de 200 - em virtude de um acordo de cooperação militar bilateral assinado em 2007 e renovado por cinco anos em dezembro de 2012.

O presidente deposto

O governo camaronês confirmou que Bozizé, se refugiou no país, após uma breve escala pela República Democrática do Congo (RDC). “Reconhecemos a presença do presidente da República Centro-Africana em Camarões", declarou à Agência Efe por telefone o ministro de Comunicações de Camarões, Issa Chiroma.

"Bozizé chegou ontem [domingo, 24], por volta das 6 da tarde local (14h, horário de Brasília), em um helicóptero presidencial acompanhado por dois filhos e seu guarda-costas. Ele aterrisou no aeroporto da cidade de Baturi, na região leste de Camarões", explicou o porta-voz governamental. "Neste momento, Bozizé se encontra na cidade de Bertua", disse Chiroma.

Negociações

Em janeiro, foi iniciado no Gabão um processo de negociação entre o governo centro-africano e a Séléka, que culminou com a assinatura de alguns acordos de paz no dia 11 de março. Eles contemplavam um cessar-fogo e uma transição de um ano com um governo de união nacional.

No entanto, os rebeldes retomaram sua atividade na quarta-feira passada (20) após o fim de um prazo estipulado por eles para que Bozizé cumprisse uma série de reivindicações - retirada das tropas estrangeiras do país e a libertação de presos políticos, entre outras - que expirou no dia 20, e avançaram rapidamente até Bangui.

A coalizão Séléka, composta por quatro grupos rebeldes, pegou em armas no norte do país em dezembro passado ao considerar que Bozizé não havia respeitado alguns acordos de paz assinados em 2007.

Os tratados contemplavam, entre outros assuntos, a integração de combatentes rebeldes no exército centro-africano, a libertação de uma série de presos políticos, e o pagamento aos milicianos sublevados que optassem no desarmamento. 
Fonte: Opera Mundi

segunda-feira, 25 de março de 2013

1954: Moscou reconhece a soberania da Alemanha Oriental


No dia 25 de março de 1954, a União Soviética reconhece a soberania da República Democrática Alemã (RDA), correspondente à sua zona de ocupação desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Grotewohl, primeiro-ministro da RDA de 1949 a 1964
A ilusão de se estar vivendo uma fase transitória e de  que a divisão da Alemanha no pós-guerra era somente provisória acabou no dia 25 de março de 1954. A declaração de reconhecimento da soberania tornou internacionalmente evidente que a União Soviética não contava mais com uma rápida reunificação da Alemanha.
A história que antecedeu o 25 de março de 1954 começou na Segunda Guerra Mundial. Pelo Protocolo de Londres (de 12 de setembro 1944), os Estados Unidos, a Inglaterra e a URSS decidiram que o Deutsches Reich (Império Alemão) sumiria do mapa.
A intenção era dividir o país em três zonas de ocupação. Na Conferência de Ialta, na região russa da Crimeia, em fevereiro de 1945, a França foi aceita como quarta potência controladora. No dia 5 de junho de 1945, as quatro potências vitoriosas da Segunda Guerra assumiram o controle do território alemão. As opiniões sobre o futuro da Alemanha eram profundamente divergentes, fazendo com que os limites das zonas de ocupação militar se transformassem em fronteiras políticas.
Zonas de ocupação
A divisão da Alemanha em zonas de ocupação deveria impedir para sempre que ela ambicionasse a hegemonia mundial, depois das tentativas de 1918 e 1939. Inicialmente, um conselho controlador dos aliados, sediado em Berlim Ocidental, deveria governar as quatro zonas.
Mas as crescentes tensões entre as potências tornava difícil uma administração efetiva. Este foi, segundo Otto Grotewohl – primeiro-ministro de 1949 a 1964 na República Democrática Alemã, a Alemanha comunista –, o principal obstáculo à unificação das zonas de ocupação. "Na Alemanha, não faltam fronteiras e acordos interzonais, mas sim unidade política e econômica e um governo central", disse.
A manutenção das quatro zonas como unidades econômicas e políticas representava apenas um consenso mínimo. Cada uma das potências ocupantes deveria, primeiro, satisfazer suas reivindicações de reparação de guerra dentro da própria zona de ocupação. O resultado foi que as zonas ocidentais foram integradas ao sistema democrático, capitalista, enquanto a zona oriental foi reestruturada de acordo com o modelo soviético, comunista.
A criação das duas Alemanhas
Em 1949, foram criados os dois estados alemães: em maio, foi aprovada a Constituição da Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha – RFA); e em outubro, foi proclamada a Alemanha Oriental (República Democrática Alemã – RDA).
A Alemanha Ocidental destacava no preâmbulo o caráter provisório da Constituição, que só deveria valer até a reunificação da Alemanha. A reunificação e a pretensão de representar toda a Alemanha foram questões sempre presentes nas políticas ocidental e oriental nos anos seguintes.
Após o levante popular de 17 de junho de 1953 contra a falta de liberdade e o excesso de burocracia na RDA, houve uma nova tentativa internacional para resolver a "questão alemã". As quatro potências reuniram-se em Berlim para negociar a reunificação. A conferência fracassou, principalmente, na questão das eleições livres para toda a Alemanha.
Declaração de soberania da RDA
Depois do fracasso das negociações, em janeiro de 1954, a União Soviética declarou, em março, a RDA como estado soberano. Com isso, selou oficialmente a divisão da Alemanha, mesmo que a RFA tenha se negado, durante 18 anos anos, a reconhecer esse fato.
Somente em 1972, o governo social-liberal de Willy Brandt assinaria um acordo básico com a RDA, reconhecendo o status quo. E foi necessário esperar mais 18 anos, até a reunificação dos dois estados alemães, em 1990.

DW.DE

Veteranos argentinos das Malvinas relatam torturas de superiores


Pablo de Benedetti teve medo de perder as pernas. Na época, ele era um jovem de 19 anos que participava com o Exército argentino da Guerra das Malvinas (Falklands, para os britânicos). No entanto, não imaginou que seu próprio grupo seria responsável por seus ferimentos.
Benedetti é um dos mais de 100 veteranos da guerra de 1982 com o Reino Unido que afirmam terem sido torturados por seus superiores. O caso - que reúne dezenas de denúncias de ex-combatentes - está na Corte Suprema de Justiça argentina, que determinará se os atos podem ser classificados como delitos cometidos contra a humanidade, como querem os veteranos.
EFE
Veterano da Guerra das Malvinas, argentino Pablo de Benedetti posa para fotografia em Buenos Aires (28/03)
"Nas Malvinas, fizemos poços de cerca de 1,60 metro de profundidade, que por causa do tempo ficavam cheios de água da chuva. Me colocaram diversas vezes dentro desses poços, que estavam praticamente congelados por causa do frio que fazia, como castigo a supostos erros meus", disse Benedetti à BBC Mundo. "Passávamos horas ali, até que o sargento decidisse que a punição havia terminado."
Segundo o veterano da Guerra das Malvinas, os castigos dos oficiais acontecia pela suposta indisciplina dos soldados em meio às operações. De acordo com a documentação do Centro de Ex-combatentes das Ilhas Malvinas (CECIM), entre as punições comuns que os soldados sofreram estão a restrição a alimentos e um "estacamento", castigo que consiste em amarrar pés e mãos de uma pessoa em estacas fincadas no solo.
Muitos dos que foram punidos com o "estacamento" teriam sido amarrados no chão completamente nus, em meio às temperaturas baixas do inverno da região.
Dor
Esta não foi a única punição sofrida por Benedetti. Ele foi obrigado a passar por campos minados, onde as minas haviam sido colocadas por ele próprio. Nenhuma das minas explodiu durante a punição, mas ele lembra que o medo era constante.
Os castigos deixaram marcas permanentes em Benedetti. "Depois de tantas vezes receber o castigo, o médico da companhia me visitou, porque eu estava com os pés inchados e passava muito mal. Me recomendou colocá-los em água quente e me deu uma medicação. Mas quando voltei ao pelotão, o suboficial me tirou o medicamento e mandou que eu voltasse ao poço de água fria, dizendo que era para 'me curar'", lembra o veterano de guerra.
"Em 1º de junho, eu tinha que me arrastar, porque não conseguia caminhar, até o acampamento médico de novo. Tiveram que cortar as minhas meias e botas, porque meus pés estavam tão inchados que eu não conseguia retirá-las. De imediato, me mandaram de volta ao continente. Os médicos achavam que eu perderia os movimentos nas pernas."
Hoje em dia, ele toma remédios por causa das sequelas. Os pés ficam dormentes com frequência, o que impede que ele dirija veículos, e a temperatura do seu corpo varia bastante.
Tribunais
"Há mais de cem denúncias deste tipo no Tribunal Federal (da Província) de Rio Grande. Isso inclui três mortes por fome e assassinato de um soldado por parte de um suboficial do Exército", disse à BBC o presidente da Cecim, Ernesto Alonso.
Dois tribunais argentinos determinaram que os abusos cometidos podem ser classificados como crimes contra a humanidade, e por isso ainda não prescreveram. No entanto, os militares acusados apelaram na Justiça, que reverteu a decisão - classificando os delitos como "crimes comuns" e já prescritos.
A questão foi levada adiante por um novo recurso do Ministério Público e do Cecim. Caberá à Suprema Corte do país a palavra final. A Cecim espera uma decisão favorável à sua causa, em especial pelo interesse despertado na Argentina pelo 30º aniversário do conflito.
"A sociedade argentina deve saber o que se passou nas Malvinas com seus soldados por parte de Forças Armadas que não representavam os interesses populares", diz Alonso.
Investigados
Alguns dos militares que participaram da guerra contra o Reino Unido foram posteriormente investigados e até condenados pela Justiça argentina por crimes contra a humanidade durante o período da junta militar, de 1976 a 1983.
Um dos casos é o de Carlos Büsser, que comandou o ataque às Ilhas no dia 2 de abril de 1982. Atualmente, ele é investigado por seu papel como oficial de inteligência em 1977. Alfredo Astiz, conhecido como "Anjo da Morte", também é investigado.
Uma força-tarefa à qual ele integrava levou 5 mil pessoas ao prédio da Escola de Mecânica da Armada. A maioria dessas pessoas nunca mais foi vista.
"Agora eu participo deste processo judicial não por vingança, mas sim para que isto não volte a acontecer. Não há nada que justifique a tortura, nem sequer a defesa da soberania", diz Benedetti.
O aniversário do conflito fez com que ele revisitasse seus arquivos do tempo de combatente. "Novamente estou tendo sonhos com a guerra. O sonho é sempre igual. Eu volto aos lugares onde estive nas Malvinas, mas desta vez não me torturam. Acho que meu inconsciente está tentando me dizer que é assim que deveria ter sido a minha estadia por lá."