domingo, 30 de setembro de 2012

Historiador destaca canibalismo no Exército japonês em livro


Ritual ocorreu durante a Segunda guerra Mundial
Durante a Segunda Guerra Mundial, "os japoneses praticaram uma política de canibalismo com seus prisioneiros de guerra e, inclusive, com seus compatriotas mortos em combate", explicou nesta terça-feira em entrevista à Agência Efe o historiador britânico Antony Beevor.
Segundo Beevor, esse foi um dos aspectos que mais lhe surpreendeu durante a pesquisa elaborada para a realização de "A Segunda Guerra Mundial" (The Second World War), um livro que não pretende ser "o definitivo", mas sim lançar um olhar global baseado em sua experiência como escritor e como ex-militar.
Esse canibalismo era um fato que Beevor não conhecia. Os americanos e os australianos decidiram não dizer nada no final da guerra pelo choque que essa notícia poderia causar entre os familiares dos prisioneiros, explicou o historiador à Agência Efe em Madri, onde hoje apresenta seu novo livro.
Trata-se de uma prática que demonstra toda a crueldade do "extremamente militarizado" Exército japonês, que humilhava os soldados e usava toda a "fúria absorvida nas batalhas para se vingar contra os soldados vencidos".
Apesar de ainda não ser uma notícia pública e de massa, somente uma nova geração de jovens historiadores japoneses tiveram coragem de trazer este fato à tona, explica Beevor.
Continue lendo aqui.
Fonte: Terra.

1992: EUA retiram-se das Filipinas


No dia 30 de setembro de 1992, os Estados Unidos devolveram sua base naval nas Filipinas, depois de 94 anos no país. Pela primeira vez em mais de quatro séculos, filipinos estavam livre de militares estrangeiros.
Foi com uma cerimônia simples que se encerrou a presença militar dos EUA nas Filipinas. Quando a bandeira americana foi recolhida pela última vez na base naval de Subic Bay, o ato contou com a presença dos poucos fuzileiros navais que ainda restavam de um antigo contingente de aproximadamente 6 mil homens, assim como cerca de 3 mil moradores da cidade vizinha de Olongapo. Com um pouco de desconsolo, eles acompanharam o discurso do presidente filipino Fidel Ramos.
Na sua reportagem sobre o evento, o então correspondente da televisão alemã, Hartmut Idzko, afirmou: "Segundo o presidente Ramos, a cerimônia de hoje encerra um longo período da história americano-filipina. Os norte-americanos marcaram a vida da região, deram emprego a 30 mil pessoas somente em Subic Bay. Agora, a taxa de desemprego subiu para 70% na região da antiga base naval. O fim da hegemonia americana no Sudeste Asiático é o começo da miséria econômica para dezenas de milhares de filipinos".
Desejo de soberania
Mas não foram as razões econômicas que levaram as Filipinas a cancelar, a partir de 30 de setembro de 1992, o acordo com os EUA para a manutenção da base militar norte-americana em território filipino. No final do século 20, conforme a opinião predominante em Manila, tinha chegado o momento de demonstrar finalmente a soberania das Filipinas, fazendo com que nenhum soldado estrangeiro estivesse mais estacionado no arquipélago – pela primeira vez há mais de 400 anos.
Durante 381 anos, as Filipinas estiveram sob o jugo estrangeiro. Inicialmente, tinham sido colônia espanhola; depois, foram colônia dos Estados Unidos da América, durante 48 anos. Mas quando lograram a sua independência, em 1946, a influência norte-americana permaneceu praticamente a mesma de antes. Não apenas a influência econômica, mas também militar. Em março de 1947, os dois países assinaram o acordo de manutenção de bases militares, que permitia aos Estados Unidos continuarem estacionando os seus soldados no arquipélago filipino.
A base aérea de Clark, nas Filipinas, era a maior base aérea norte-americana fora dos Estados Unidos. E a base naval de Subic Bay gozava de excelente fama entre os fuzileiros navais americanos. Localizada nas proximidades da cidade de Olongapo, Subic Bay oferecia todo o conforto imaginável aos militares ali estacionados.
 Ao lado do clima excelente, com um bom tempo quase constante, numa das baías mais bonitas das Filipinas, os fuzileiros navais estavam aquartelados com grande conforto, em prédios de apartamentos de dois ou três andares. Pelo menos na aparência externa, Subic Bay não tinha nada daquilo que se conhece geralmente como vida castrense.
A população de Olongapo também adaptara-se perfeitamente aos soldados dos EUA. Ali podia-se comprar tudo o que faz parte do chamado american way of life. E havia também um florescente mercado de prostituição, voltado para os soldados, quase todos do sexo masculino.
Estado também lucrava
Mas o estacionamento das tropas norte-americanas trazia lucros também para o Estado filipino e não apenas para as cerca de 30 mil pessoas que viviam direta ou indiretamente dos serviços e negócios com os americanos em Olongapo. Até 1992, Washington pagou anualmente cerca de 200 milhões de dólares pelo direito de estacionar seus soldados nas Filipinas.
Para os norte-americanos, tais somas já tinham sido amortizadas há muito tempo. Pois o abastecimento e o apoio logístico das tropas combatentes, primeiro na Coréia, depois no Vietnã e, finalmente, também na Guerra do Golfo, teriam sido muito mais difíceis e muito mais caros sem as bases de Clark e de Subic Bay.
Para os Estados Unidos, não surgiu nenhum problema estratégico ou logístico em consequência do cancelamento do acordo das bases militares pelas Filipinas. A retirada dos soldados norte-americanos gerou problemas apenas do lado filipino: a perda de dezenas de milhares de empregos, um retrocesso dramático principalmente no consumo e a perda dos pagamentos anuais feitos por Washington.
Perdas no âmibto humano
E surgiu ainda um outro problema, de caráter humano. Os Estados Unidos estiveram presentes nas Filipinas durante quase um século. Os soldados norte-americanos também deixaram os seus rastros pessoais. O problema foi narrado da seguinte maneira pelo jornalista alemão Hartmut Idzko, durante a cerimônia de despedida em Subic Bay:
"As recordações das tropas norte-americanas ainda estarão presentes nas ilhas filipinas durante gerações. Cerca de 50 mil americano-asiáticos são deixados aqui, filhos de soldados americanos e mulheres filipinas. Os pais deixam agora o país, os filhos e as suas mães têm de permanecer aqui, sem qualquer amparo. As leis dos Estados Unidos permitem que os filhos de pais americanos no Vietnã, na Tailândia, na Coréia do Sul e no Camboja obtenham a cidadania norte-americana. Mas exatamente os filhos de americanos nas Filipinas, ex-colônia dos EUA, foram excluídos desse direito legal. De qualquer maneira, na cerimônia de hoje, o presidente Ramos prometeu pelo menos dar apoio aos americano-asiáticos. Só que Ramos tem atualmente muitos compatriotas que dependem urgentemente do seu apoio". 
  • Autor Dirk-Ulrich Kaufmann (am)
  • Fonte: DW-World

1941 - Milhares de judeus são executados em Babi Yar, na Ucrânia


Nos dias 29 e 30 de setembro de 1941, 33 mil judeus de todas as idades são assassinados num lugar da cidade de Kiev, na Ucrânia, conhecido como Babi Yar. Poucas batalhas na história atingiram tal número de mortos em apenas dois dias, nem mesmo as câmaras de gás de Auschwitz.
O drama ocorre dez dias após a entrada das tropas alemãs na Ucrânia soviética. A cidade contava então com 900 mil habitantes, entre os quais cerca de 120 mil judeus. Em 28 de setembro os judeus são convocados a Babi Yar, na véspera do Yom Kipur judaico, e ameaçados de execução em caso de desobediência.
São imediatamente conduzidos à beira do barranco em grupos de dez, obrigados a se despir e massacrados por metralhadora. Os que escaparam do primeiro massacre seriam, por sua vez, mortos e atirados numa vala comum no curso dos meses seguintes à matança. No total, mais de 90 mil pessoas morreriam em Babi Yar. O lugar, hoje povoado de árvores, tornou-se ponto de memória e recolhimento.
O massacre de Babi Yar é um dos crimes mais repugnantes cometidos pela SS, corpo de elite nazista. Na primavera de 1941, quando Hitler dá início à operação Barbarossa e lança a Wehrmacht rumo ao ataque da União Soviética, quatro destacamentos especiais da SS acompanham o exército alemão. Colocam em prática a “limpeza” da retaguarda para evitar que franco-atiradores abatessem seus soldados. Fuzilam preventivamente os comissários políticos do Partido Comunista e os judeus em idade de combate.
WikiCommons
Julgamento de 15 policiais alemães responsáveis pela região ocupada de Kiev.
Esses “agrupamentos móveis de intervenção” ou “Einsatzgruppen” simpatizantes nazistas e nacionalistas locais. Levam suas vítimas para fora dos burgos e das cidades, fezem-nos cavar uma vala, e à beira dela atiram uma bala na nuca.
A partir de agosto de 1941, com o estímulo tácito dos chefes da SS, Himmler e Heydrich, os Einsatzgruppen estendem sua ação contra as mulheres e crianças judias. Segundo os nazistas, tratava-se de nada menos que legítima defesa, pois os judeus seriam irremediavelmente hostis aos alemães. Era necessário exterminar também as crianças em caráter preventivo, para evitar que mais tarde se vingassem em nome de seus pais.
Os massacres, filmados e fotografados pelos próprios carrascos, são de dimensão apocalíptica. Os assassinos acabaram mergulhando no alcoolismo, na depressão e muitas vezes no suicídio.
Consciente deste inconveniente, o comandante de um Einsatzgruppen que havia participado anteriormente na Alemanha da eliminação por gás de deficientes mentais, sugeriu a extensão desse método aos judeus.
Durante o verão de 1941, um primeiro campo de extermínio utilizando gás de escapamento de caminhões é aberto em Chelmno, zona central do Governo Geral da Polônia. Os primeiros ensaios não foram conclusivos: os infelizes tardavam a morrer e a visão de seu sofrimento afetava mais os carrascos do que a bala na nuca. O sistema é modificado e, a partir do outono, vinte caminhões a gás funcionavam nas áreas tomadas dos soviéticos.
O extermínio (a palavra genocídio só seria empregada mais tarde) por esse método prosseguiu com tamanha intensidade ao ponto de um comandante do Einsatzgruppe, em dezembro de 1941, poder anunciar aos seus superiores que em três países bálticos já não havia mais judeus.
No final de 1941, de 300 a 400 mil judeus, homens, mulheres e crianças, já haviam sido eliminados de diversas maneiras. Para os chefes nazis, Himmler e Heydrich, tinha chegado o momento de acabar com o empirismo para passar à última fase, de dimensão industrial dos campos de extermínio. Seria a “solução final da questão judaica”.
As execuções em massa prosseguiram em paralelo na Polônia e na União Soviética. Elas somaram um total aproximado de um milhão e meio de vítimas, mobilizando no máximo três mil carrascos.

sábado, 29 de setembro de 2012

Memórias do AHR: E os caminhos de ferro ?



Sábado, 29/09/2012 às 00:43, por Arquivo Histórico Regional

      Bom, a estrada ou os caminhos são tão antigos, ou mais, quanto a história do homem. No entanto, nossa ideia nesse curto espaço e tempo é falar sobre um tipo de caminho que nos dias de hoje já não tem mais o glamour pelo qual já passou. Falando assim já dá para perceber que nos referimos às estradas de ferro.

      Pois, para nossa região, e mais especificamente, Passo Fundo, a estrada de ferro e todo o conjunto de “estruturas” ao seu largo que vão das estações com suas oficinas, caixas d’água e armazéns até locomotivas e vagões, começaram a ser vistas por aqui nos últimos anos da década de 1890. E o que se observou nos anos que se seguiram, por conta desse meio de transporte, foi um crescimento rápido e que em poucas décadas afirmava Passo Fundo como centro regional comercial, educacional e com uma indústria nascente.

      Essa onda de prosperidade se propagou durante a chamada belle époque, que trouxe além dos trens, também o desenvolvimento da construção civil, do aumento e do alargamento das ruas da cidade e com isso o aformoseamento – em termos atuais, embelezamento  – realizado pelos órgãos públicos e sociedade local como um todo. 

      Os anos 1930 e 40 viram uma gare ainda mais movimentada com a consolidação do transporte de carga e o aumento do vozerio dos grupos cada vez mais numerosos de passageiros com suas chegadas e saídas a passeio ou para negócios. Se podemos dizer que a paisagem urbana foi cortada pelos trilhos, é certo que o mesmo espaço também foi-se modelando, em alguns aspectos, pela existência da estrutura ferroviária; denominavam-se os espaços de “dentro e fora do anel ferroviário”, o centro e o subúrbio. Aquela parte da cidade cresceu junto com a estação: proprietários de hotéis que escolheram estrategicamente as proximidades da estação férrea, pontos de carros de praça – depósitos de mercadorias, moinhos e, não perto dali, mas em seu caminho até mesmo uma charqueada, na localidade de São Miguel.

        No entanto, na década de 1950 começaram a haver algumas transformações que não passaram despercebidas aos interesses ferroviários. É o momento em que a matriz viária nacional passa por questionamentos e entre os quais sua gradativa mudança da ferrovia para as rodovias em ascensão, por conta também da crescente indústria automobilística que se instalava no país. Essa questão consolidou-se na década de 1970 com os governos militares que mantiveram essa linha de pensamento. Em Passo Fundo, ainda se viam trens de carga e de passageiros, já não mais na gare da atual rua 7 de setembro, mas no bairro Petrópolis. O glamour ainda resistia com as chegadas e partidas do trem Húngaro para a capital do estado, linha que foi encerrada ainda no início da década de 1980. Nessa época alguns grupos tentaram alternativas de negociação com o setor público para a reativação de pontos das linhas para o transporte de passageiros, mas sem êxito.

      A ideia foi de mostrar nesses breves flashes alguns momentos de uma história que é importante para Passo Fundo. E nestes idos de 2012, o que ficou foi a manutenção do transporte de cargas. Para os passageiros que tiveram a oportunidade de utilizar-se desse transporte em outras épocas, ficou a nostalgia, pois os interesses viários nacionais vão por outros caminhos.
      
Benhur Jungbeck
Professor de História
Fonte: Acervo AHR
Imagem: Hotel Internacional; parada de trem. Atual
avenida Sete de Setembro esquina com avenida Brasil.
Autor desconhecido. 1900.
* Os artigos expressam a opinião de seus autores.

Fábio Kühn - O caçador de documentos


Esta história aconteceu quando eu me preparava para redigir meu projeto de doutorado e estava numa fase de levantamento de fontes, vasculhando arquivos em diversos estados. Numa dessas investidas, dirigi-me à cidade de Laguna, em Santa Catarina, povoação das mais antigas do sul do Brasil, fundada por volta de 1684. Ali eu esperava encontrar fontes que me trouxessem alguma informação sobre a sociedade lagunense do século XVIII, o que poderia me ajudar a compreender quem eram os primeiros povoadores do Continente do Rio Grande, como a região era chamada na época, e objeto da minha futura tese.
Em 2001, finalmente pude passar alguns dias na pacata cidade histórica catarinense, onde saí “caçando” as fontes notariais que tanto queria encontrar. Ao chegar, fiquei sabendo que o Arquivo Público Municipal tinha sido recém-inaugurado. Instalado em um casarão do século XIX, o arquivo prometia. Mas logo na primeira visita, ao revelar minhas intenções ao funcionário, ele me olhou e disparou antes que eu pudesse reagir: “Meu amigo, veja bem, nós temos aqui alguns jornais que os alunos vêm pesquisar e alguma coisa antiga do século XIX, mas não tem nada sobre o período que te interessa”. Espantado, fui embora e me sentei para tomar um café, pensando em como poderia sair dessa situação.
No dia seguinte, fui até o Museu Anita Garibaldi, no sobrado onde funcionou a antiga Casa da Câmara. Ali obtive uma informação preciosa: um expressivo acervo documental que estava guardado no depósito do Museu tinha sido enviado para o novo Arquivo Municipal. Quase sem me despedir, fui correndo novamente até o arquivo, onde, desta vez, encontrei outro funcionário, que fumava sossegadamente em meio a uma pilha de papéis. Expliquei o que procurava, e ele me disse: “Olha, sei que chegaram umas caixas com documentos esses dias, mas confesso que não sei bem o que tem ali. Isso não foi ainda classificado e está guardado em um banheiro no fundo daquele corredor”. Perguntei se podia dar uma olhada. Meio a contragosto, ele me autorizou e que eu ficasse à vontade, pois ele tinha que dar uma saída para tomar um cafezinho...
Sem acreditar totalmente no que estava acontecendo, resolvi aproveitar para vasculhar aquelas caixas amontoadas. Na lateral das caixas havia uma etiqueta que informava o número de cada uma e o período abrangido. Sim, eu tinha encontrado o que buscava: os inventários e testamentos do século XVIII! Originalmente estavam no arquivo do fórum de Laguna, até que fossem transferidos para o Museu, onde ficaram, durante anos, inacessíveis aos pesquisadores, debaixo de uma lona, com a intenção de preservá-los da ação do tempo. Para minha sorte, fui talvez o primeiro pesquisador a poder manuseá-los em cerca de meio século! Estava garantida a pesquisa; pude terminar meu projeto e cursar com sucesso meu doutorado, no qual um dos capítulos da tese se debruçou sobre tais fontes.

Fábio Kühn é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Fonte: Revista de História

II Jornada de Extensão do Mercosul acontece na UPF na próxima semana


A Universidade de Passo Fundo (UPF) será espaço para debater as formas de ampliação e qualificação do processo produtivo das atividades de extensão das instituições na II Jornada de Extensão do Mercosul, que ocorre nos próximos dias 04 e 05 de outubro. A atividade, a ser realizada no Centro de Eventos, Campus I, é uma promoção conjunta entre UPF e Universidad Nacional del Centro de la Província de Buenos Aires, tendo como tema central Redes e Territórios.

A programação inicia na quinta-feira (04/10) a partir das 8h, com o credenciamento. Após haverá uma atividade cultural e a mesa de abertura. Até sexta-feira (05/10) serão diversas atividades, como palestras, debates e conferências, além de grupos de trabalho.

Entre os objetivos da II Jornada de Extensão do Mercosul estão intensificar as ações extensionistas como forma de mobilização produtiva e democrática do território; ampliar e qualificar tecnologias sociais, gerando novas metodologias de inserção territorial das ações extensionistas; construir políticas extensionistas transversalizadas pela promoção dos direitos humanos e a sustentabilidade e fortalecer e qualificar as discussões sobre a criação de índices de monitoramento e avaliação das ações extensionistas. Para isso, a exemplo da primeira edição em 2011, dezenas de pesquisadores e representantes de órgãos e entidades envolvidas com o tema farão parte dos espaços de discussão e interação.

A II Jornada prossegue na sexta-feira (05/10) com diversos debates, conferências e espaços para trabalhos em grupo. A programação completa do evento está disponível no site www.jornadadeextensaomercosul.upf.br. Informações pelo telefone (54) 3316-8371.
 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Baixou o Olimpo


Comitê Olímpico Brasileiro proíbe competições acadêmicas de utilizarem a palavra “olimpíada” no nome. Olimpíada Nacional em História do Brasil está na lista dos eventos que podem trocar de título para continuar em atividade

Cristina Romanelli
27/9/2012
Em breve, os estudantes brasileiros poderão participar do Certame Nacional em História do Brasil. Ou, quem sabe, da Gincana de Língua Portuguesa. E que tal Festival Brasileiro de Química? As opções não são lá muito boas, mas é possível que diversos eventos acadêmicos tenham que exercitar a criatividade em busca de um novo nome. Os organizadores da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), por exemplo, receberam há três semanas um documento em nome do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), informando que não é permitida a utilização, com propósitos comerciais, da palavra “olimpíada”.
A primeira pergunta que vem à cabeça é: quais são os propósitos comerciais da ONHB? A historiadora Cristina Meneguello, organizadora do evento, também não sabe. “Cobramos uma taxa de inscrição que possibilita a realização do evento em si, mas ele não gera nenhum lucro. Este ano cobramos cerca de vinte reais para escolas públicas, e quarenta para particulares. Somos nós que pagamos as passagens das equipes mais bem pontuadas para a fase que acontece aqui em São Paulo”, afirma.
Segundo Marcelo Firer, diretor do Museu Exploratório de Ciências da Unicamp e também organizador da ONHB, até mesmo as olimpíadas acadêmicas ligadas ao Ministério da Educação (MEC) estão recebendo o documento. “Lamento que o COB não pense antes de agir. Não houve qualquer critério... Nós usamos a palavra olimpíada como substantivo, e não como marca. Em um encontro de organizadores de olimpíadas acadêmicas no semestre passado, o ministro Aloizio Mercadante avisou que havia recebido esses papeis, e que as outras olimpíadas receberiam também”, afirma Firer.
Além de realizar a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e a Olimpíada da Língua Portuguesa, o MEC anunciou este ano o projeto de criação de uma Olimpíada do Conhecimento, unindo os outros dois eventos com os conteúdos de Ciências. A proposta vai além. A ideia é usar o “nome proibido” mais uma vez, em uma competição internacional em 2016 – justamente para promovê-la no embalo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Contatado pela Revista de História, o MEC não se pronunciou até o fechamento desta matéria, mas pelo visto, a ideia de incentivar os eventos acadêmicos junto aos Jogos Olímpicos pode ir por água abaixo. Segundo o escritório de advocacia Araripe & Associados, contratado pelo COB, uma das condições para o país sediar as Olimpíadas é justamente se submeter à legislação internacional que coíbe o uso do logotipo dos arcos olímpicos e de todas as expressões associadas ao evento, como Jogos OlímpicosOlímpico e Rio Olimpíadas.
Atual logomarca das Olimpíadas Brasileiras de Astronomia. Nome foi censurado pelo COB
Atual logomarca das Olimpíadas Brasileiras de Astronomia. Nome foi censurado pelo COB
“Os patrocinadores bancam esses grandes eventos em troca do direito de usar as palavras associadas a eles. Se for permitido que todo mundo use essas palavras, por que as empresas vão querer patrocinar? Estamos agindo de forma muito branda aqui no Brasil. Nos Jogos Olímpicos de Londres a lei foi muito mais restritiva”, afirma o advogado Luiz Araripe Jr.
O escritório de advocacia foi o responsável por mandar cartas educativas às olimpíadas acadêmicas, explicando as leis de propriedade intelectual dos Jogos Olímpicos. “Nós estamos apenas mostrando a base do direito sobre essas palavras. Na maioria dos casos, as pessoas aceitam e trocam de nome. Até mesmo o governo deve estar usando o termo olimpíada por falta de informação, e deve abandoná-lo. Afinal, foi o próprio governo que buscou as olimpíadas”, diz o advogado.
Mas por que teria o COB a necessidade de impedir o uso dessas palavras por eventos acadêmicos sem lucros comerciais? “O uso excessivo da marca dilui o poder de distinção. Se eu começar a colocar o nome de Biblioteca Nacional em todos os estados, daqui a pouco as pessoas não vão mais relacioná-lo à biblioteca no Rio. É a mesma coisa”, arrisca Araripe Jr.
Cristina Meneguello rebate: “É evidente que um estudante de 12 anos não vai confundir a ONHB com um evento esportivo gigante. Eles estão partindo do princípio de que as pessoas são tolas”, afirma a historiadora. Entre os outros organizadores de olimpíadas acadêmicas, a opinião é parecida. João Batista Garcia Canalle, da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, diz que ficou surpreso, mas preferiu não enfrentar o COB. “As olimpíadas foram inventadas na Grécia Antiga, aí vem uma instituição e se diz dona da palavra olimpíada. Se for assim, vou ao INPI e digo que só eu tenho direito sobre o nome João Batista. Isso não faz sentido. A olimpíada de astronomia já existe há quinze anos, e agora vai trocar de nome por imposição de um comitê olímpico que busca justamente a integração das nações?”, critica.
O jeito foi abandonar o antigo logotipo, que lembra os arcos olímpicos, e tentar negociar o nome. “Marcamos uma reunião com os advogados e apresentamos um longo histórico da olimpíada. Mostramos que não temos interesse comercial, apresentamos gráficos de participação de alunos... Eles acabaram deixando que permanecêssemos com o nome olimpíada. No entanto, também tínhamos a Olimpíada Brasileira de Foguetes. Como ela é mais nova, achamos melhor mudar logo para Mostra Brasileira de Foguetes, para evitar problemas”, explica Canalle.
Segundo o escritório Araripe & Associados, todas as instituições que utilizam termos vinculados aos Jogos Olímpicos estão sendo contatadas aos poucos. Quem ainda não recebeu a carta educativa, já pode ir se preparando. Apenas o uso para fins editoriais e jornalísticos é permitido.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul disponíveis no AHR


O Arquivo Histórico Regional, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo, recebeu a doação dos volumes 11, 15, 16, 18 e 19 dos Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul

Os volumes 11 a 18 contem transcrições da Coleção Varela, com farta documentação sobre a Guerra dos Farrapos (1835-1845). O volume 11 dispõe ainda da transcrição dos registros gerais da Real Fazenda do Rio Grande de São Pedro (1753-1822), um dos primeiros órgãos administrativos do Rio Grande do Sul colonial. O volume 19, por sua vez, apresenta a correspondência entre Julio de Castilho e seu secretário, Aurélio Viríssimo de Bittencourt (1896-1903), sendo uma preciosa ferramenta para o estudo da chamada república positivista. 

Com isso a coleção do AHR se torna quase completa, já que seu acervo já contava com os volumes de 1 a 10 dos Anais, e oferece uma vasta gama de documentos aos investigadores de vários períodos da história brasileira.



Horário de Atendimento
Segunda à sexta-feira das 8h às 11h30min e das 13h30min às 17h30min.

Endereço
Rua Paissandu, 1756 - Centro
Passo Fundo-RS - CEP: 99010-102
Próximo à Praça Tamandaré
  

Páginas abertas


Parceria entre editoras universitárias e rede Scielo disponibiliza 250 livros científicos na internet, incluindo títulos organizados por historiadores. Obras podem ser baixadas gratuitamente

26/9/2012
Mais três editoras universitárias brasileiras anunciaram parceria com a plataforma SciELO  Livros, que disponibiliza online e gratuitamente obras produzidas por pesquisadores de diversas áreas de conhecimento científico, incluindo História. Editora UNESP, Editora Fiocruz, EDUFBA, EDUEL, EDUEPB e EDUFSCAR agora selecionam diariamente o quê de seu acervo pode ou não ser publicado na web. O projeto começou no início do ano e já conta com 250 títulos disponíveis para download – os organizadores do projeto estimam que até o fim do ano este número dobre.
João Canossa, editor executivo da Editora Fiocruz, diz que o projeto serve de vitrine para os títulos publicados e que, provavelmente, a disponibilização de obras na internet não deve prejudicar as vendas nas livrarias. “Na medida em que um acesso mais amplo é garantido a interessados nos temas publicados por nossa editora, há uma contribuição significativa para a difusão do conhecimento e, ainda, para a formação de leitores qualificados”. Não só no Brasil, mas em outros países falantes de língua portuguesa, já que a SciELO é uma rede internacional.
 Atualmente, o grupo possui 75 livros na ferramenta, comoHistória Oral: desafios para o século XXI, organizado pela historiadora Verena Alberti e Marieta de Moraes Ferreira,Antropologia da saúde: traçando identidades e explorando fronteiraspor Paulo César Alves e Miriam Rabelo; e Filosofia, história e sociologia das ciências I: abordagens contemporâneas, de Vera Portocarrero.
Adriana Luccisana, supervisora do projeto e integrante da equipe de coordenação e organização, comenta que “a Rede SciELO Livros compartilha objetivos, recursos, metodologias e tecnologias com a Rede SciELO de periódicos científicos de modo a contribuir com o desenvolvimento da comunicação científica em ambos meios de publicação”. A ideia é de levar títulos interessantes a estudantes e pesquisadores e que possam servir de base para pessoas que estejam próximas ou não destes núcleos de produção de conhecimento.

Há uma infinidade de obras em domínio público presentes nas estantes das bibliotecas públicas virtuais, que permitem pegar livros “emprestados” por tempo indeterminado. É o caso, por exemplo, de um dos nossos mais célebres escritores. Machado de Assis conta até com um site especial, feito pelo Ministério da Educação, que disponibiliza em formato PDF a obra completa do primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Até as correspondências do escritor podem ser baixadas para o seu computador ou tablet.
O site Domínio Público, do Ministério da Educação, por exemplo, é o oásis dos novos leitores, com mais de 180 mil obras à disposição. Quem não tem tablet não precisa se preocupar: os livros são disponibilizados, na maioria das vezes, em formato PDF e HTML, padrão das páginas de internet que pode ser visto em qualquer computador. Desde 2004, já foram feitos mais de 30 milhões de downloads de livros diversos.
Apenas sobre História Geral, são 1.263 obras – 726 delas em português. A mais acessada é “A escravidão”, de Joaquim Nabuco, lida virtualmente por mais de 33 mil pessoas. Outro que se destaca é “História do Brasil: 1500-1627”, de Frei Vicente de Salvador. Quem não leu o célebre “Capítulos de História Colonial (1500-1800)”, de João Capistrano de Abreu, pode começar a qualquer momento.
Obviamente, a benesse não se restringe aos autores nacionais. Basta um clique para ter acesso a obras de William ShakespeareFernando Pessoa e Dante Alighieri – best seller online, com mais de 1,7 milhão de livros baixados –, passando por Pero Vaz de Caminha e Luís de Camões. Não há por que se preocupar com o idioma: o site oferece 16 opções – de latim a sânscrito! –, incluindo, obviamente, versões em português.

Bibliotecas virtuais estaduais e independentes
Outras opções interessantes são o Google Livros e os sites independentes Biblio e eBooksBrasil. Porém, há alguns problemas: o Google não permite a busca por disciplina, mas torna-se uma boa opção para quem sabe o que procura. Já os outros não têm uma navegabilidade muito fácil de lidar.
Mas o melhor é que a ideia se irradia por outros estados. O governo do Amazonas, por exemplo, criou sua própria Biblioteca Virtual onde é possível encontrar o “Almanaque do Amazonas para 1908”, repleto de informações sobre Manaus no início do século XX, com direito a fotos e informações gerais da cidade. Já aeditora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) resolveu disponibilizar, gratuitamente, 120 títulos acadêmicos em formato digital. Desde o ano passado, mais de 60 mil pessoas fizeram o download.

‘Democratização da leitura’
Por outro lado, vários sites e blogs disponibilizam obras inteiras pirateadas – em alguns casos, envoltas num viés ideológico de democratização da leitura. Num manifesto na internet, os idealizadores do projeto argumentam que a democratização do acesso à tecnologia e a precariedade dos espaços físicos de leitura obrigam a “reconhecer a falência do governo em prover sua população com as ferramentas tradicionais de inclusão cultural, como as bibliotecas”.
O projeto – que conta com mais de 50 mil usuários cadastrados – parte da hipótese de que “as bibliotecas digitais têm o potencial de provocar mudanças no hábito de leitura e ampliar o acesso a livros”. Até aí, tudo bem. Só falta combinar com os autores que, afinal, precisam sobreviver para manter a "causa".
Num desses sites são oferecidos, só de História Geral, 19 títulos, como o “Livro das moedas do Brasil – 1643 até o presente”, de Cláudio Amato, Irlei Neves e Arnaldo Russo, e até os oito volumes de “História da Geral África”. Nenhuma editora escapa, ao ponto de algumas capas de livros ganharem até selo do site pirata.

Iniciativas em prol de pesquisadores e leitores
Mas como a nova ordem veio para ficar, a Biblioteca Nacional, claro, não ficaria de fora e está com um laboratório de digitalização a todo vapor, seguindo a tendência das bibliotecas mundo afora. A BN faz parte do projeto Biblioteca Digital Mundial, juntamente com instituições de Alexandria, Egito e Rússia. O projeto prevê a digitalização de documentos, cartas, fotos e mapas nas seis línguas oficiais da ONU (inglês, francês, espanhol, árabe, chinês e russo), além do português, graças à participação da Biblioteca Nacional. Estão sendo digitalizados 1.500 mapas raros dos séculos XVI a XVIII, além de 42 álbuns com cerca de 1.200 fotos da Coleção Thereza Christina Maria, doada pelo Imperador D. Pedro II à BN.
Mas, quem não aguenta de saudade do cheirinho de papel, a internet também oferece uma solução. O site Trocando Livrosfaz, justamente, o que o nome propõe: você cria uma lista de livros que quer trocar e fica aguardando o interesse de algum usuário. Quando houver a solicitação, você envia pelos correios e ganha um crédito para solicitar outro livro. E quem estiver de olho na estante alheia, pode comprar crédito por uma quantia pré-fixada.

Só Deus salva!


Da Cadeia da Corte, 176 presos fazem abaixo-assinado para que D. João lhes conceda um oratório

Lia Ramos Jordão
25/9/2012
Quem supõe que falta Deus no coração dos criminosos não sabe da missa a metade. ARepresentação dos presos na cadeia da Corte a S.A.R. (Sua Alteza Real), guardada na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, está aí para provar o contrário. 
Trata-se de um abaixo-assinado com data de 15 de novembro de 1814 e endereçado à autoridade máxima da Corte, o príncipe regente D. João. Este, segundo os signatários, era amplamente conhecido por sua piedade e clemência para com os infelizes de modo geral. Por isso aqueles “leais vassalos” teriam se animado, “por entre os ferros, a dirigir-se até aos seus Reais Pés”.
Os detentos buscavam na religião o alívio para sofrimentos vividos na prisão, somados à falta de perspectiva que o esperava após a liberdade e à constatação de que, mesmo com o cumprimento da pena, muitos permaneciam encarcerados – evidência de um sistema judiciário incipiente e precário. Por isso suplicam, no abaixo-assinado ao príncipe, que um “oratório suficiente” seja montado na Cadeia da Corte para a realização de missas pelo menos aos domingos e nos dias santos, deixando implícita a necessidade da presença de um clérigo para conduzir as celebrações.
Pelo texto, não é possível identificar com certeza a unidade prisional em que se encontravam. As duas mais importantes cadeias da Corte eram o terrível Aljube, antiga prisão eclesiástica aos pés do Morro da Conceição – aproveitada como presídio comum após a chegada da família real em 1808 – e o não menos insalubre Calabouço, que ficava na Fortaleza de Santiago, perto do que hoje é a Praça XV, até 1813, quando foi transferida para o Morro do Castelo. Esta opção é mais improvável, visto que nossa lista de signatários não parece ser composta apenas de cativos. De qualquer forma, várias outras unidades prisionais estavam ativas, muitas nas fortalezas militares de diversas ilhas na baía e arredores.
As cadeias da Corte encontravam-se superlotadas de detentos de todo tipo, reunindo num mesmo ambiente assassinos, “ladrões de galinha”, presos políticos, criminosos passionais, homens livres e pobres acusados de vadiagem, negros forros e escravos, condenados ao degredo ou à pena capital e, principalmente, pessoas não sentenciadas ou sequer processadas. Os escravos detidos muitas vezes eram enviados pelos seus próprios senhores apenas para “correção”, e não necessariamente por terem cometido delitos ou crimes específicos. Neste caso, o Estado podia até cobrar pelos açoites e castigos, garantindo para si uma abominável fonte de renda.
Onde quer que estivessem os autores do pedido, as infelicidades e os sofrimentos a serem aliviados eram muitos, “achando-se neste lugar de penúrias, e misérias onde além de sua desgraça os cerca continuadamente, o terror, e a enfermidade, agravando-se todos os seus males pela nudez, de que se pejam, pela fome que os definha”.
Nessas condições, os detentos estavam certamente longe de ter uma convivência harmoniosa entre si. Mas, acima das diferenças, resolveram se unir em torno da nobre causa. A longa lista de signatários soma 172 nomes “e mais todos os que se acham presos naquele dia, totalizando 176”.  Ou seja, adesão total! As assinaturas fornecem algumas pistas relativas ao perfil dos presos. Encabeçada por um certo Luiz Antônio Rodrigues Machado, a lista prossegue com outros poucos de boa caligrafia e assinatura rebuscada, nome e sobrenome, provavelmente pessoas com algum grau de instrução. Em seguida, surgem assinaturas de caligrafia idêntica, numa indicação clara de que foram feitas pela mesma pessoa. Em sua maioria, são apenas prenomes, seguidos da procedência geográfica e o sinal de cruz revelando a condição de analfabeto do signatário em questão: Antônios, Manuéis, Joões, de Benguela, Mina, ou Crioulos. Na cidade brasileira com maior circulação de escravos nas ruas, a cadeia também estava cheia deles.
Não surpreende a mobilização em busca do conforto espiritual. Como a justiça dos homens faltava para muitos, só mesmo contando com a justiça divina. Como eles próprios argumentam, os “desventurados” não deixam de ser tementes a Deus, tampouco de ser vassalos do Império português. Pelo contrário: na condição adversa em que se encontravam, em grande parte dos casos absolutamente injusta, era vital reafirmar sua posição perante os poderes terrenos e celestes. E mesmo os “realmente criminosos” eram recomendáveis à “grandeza e piedade” do príncipe. Mas estes teriam que se esmerar ainda mais nas orações...

(Lia Jordão/Fundação Biblioteca Nacional)

1938: Lançamento do Queen Elizabeth


No dia 27 de setembro de 1938 foi lançado à água, em Liverpool, o então maior navio de passageiros de todos os tempos. Com suas 83 mil toneladas, o Queen Elizabeth podia transportar 2.285 pessoas.
'O maior navio do mundo' teve uma história movimentada e acabou vítima das chamas
O transatlântico Queen Elizabeth foi fabricado no estaleiro John Brown, no Rio Clyde, perto de Glasgow. Só que o lançamento às águas do então maior navio de passageiros do mundo aconteceu numa época não muito propícia. O início da Segunda Guerra Mundial, no ano seguinte, levou por água abaixo (pelo menos temporariamente) os planos da companhia de navegação Cunard Line.
Os últimos detalhes da embarcação foram montados às pressas e a pintura substituída por uma camuflagem, para o transporte de tropas na guerra. O navio era uma verdadeira obra-prima da navegação: 314 metros de comprimento, 36 metros de largura e mais de 83 mil toneladas de peso.
Foi necessário esperar a enchente de fevereiro de 1940 para deslocar o navio sem tocar o fundo do rio. Para protegê-lo de minas, o Queen Elizabeth foi desmagnetizado e navegou sem iluminação.
Estratégia antinazista
No dia 2 de março de 1940, tomou rumo para Nova York, escoltado por destróieres da Marinha. Para despistar os submarinos inimigos alemães, foi organizada uma partida falsa. Centenas de pessoas se aglomeraram no porto, malas e caixas com supostos mantimentos foram empilhados no cais. E os submarinos de Hitler caíram na armadilha. Eles mobilizaram em vão seus bombardeiros, pois o Queen Elizabeth há muito já estava fora do alcance.
Cinco dias depois, o transatlântico aportava em Nova York, onde já estava o navio-irmão Queen Mary, que era menor e mais rápido. Quatro anos mais velho que o Elizabeth, o Mary também estava sendo camuflado e equipado para o transporte de tropas na Austrália.
Alguns meses mais tarde, o Elizabeth estava prestando serviço em Cingapura, para depois transportar soldados australianos até o norte da África. Finalmente, em março de 1946, o Queen Elizabeth começou as atividades para as quais havia sido concebido: os cruzeiros marítimos.
Tanto o Queen Mary como o Queen Elizabeth viveram seu auge principalmente graças aos ex-soldados, que conheceram as embarcações em outras circunstâncias e agora pretendiam realmente desfrutar do luxo e do conforto de um transatlântico.
Concorrência do avião
Os navios começaram a tornar-se um negócio altamente lucrativo para as companhias marítimas. Para garantir lugar, as cabines de primeira classe tinham que ser reservadas com um ano de antecedência. Nos primeiros anos da década de 1960, entretanto, cada vez mais pessoas passaram a viajar da Europa à América de avião. Os enormes hotéis flutuantes começaram a ficar vazios.
Tentando reverter esta situação, em 1965, a Cunard Line resolveu reformar completamente o Queen Elizabeth para torná-lo ainda mais atraente. Como estes esforços fossem em vão, o navio foi retirado definitivamente de circulação. Sua última viagem sob bandeira britânica aconteceu em outubro de 1968, com destino aos Estados Unidos. Mas, devido à falência do grupo que iria usá-lo para fins turísticos na Flórida, o transatlântico foi comprado num leilão por um chinês.
Seus planos eram transformar o transatlântico numa universidade flutuante. Durante a reforma total que a embarcação estava sofrendo em Hong Kong, entretanto, um incêndio a destruiu completamente, levando o Queen Elizabeth a pique no dia 9 de janeiro de 1972.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Viva o Rio Grande do Sul, tchê! (especial DM)

Alessandra Pasinato
(Redação Passo Fundo / DM)

Jornalista - ale_pasinato@hotmail.com



Quando a alegria da chama crioula acende no coração dos gaúchos, é um aviso para a querência toda de que uma data especial está por vir e gaúchos, prendas, prendinhas e peões se arrumam, bota, bombacha e vestido de chita para comemorar com festança o dia 20 de setembro, “o precursor da liberdade”. E durante todo o nono mês do ano, até que os vinte dias cheguem, a gauchada se encontra em acampamentos farroupilha, em mateadas e rodas de chimarrão, onde o fogo de chão esquenta a chaleira e o orgulho de ser gaúcho aquece o coração dessa gente que mais do que nunca expressa a cultura que desde a batalha de Farrapos mostra a garra e coragem de um povo aguerrido. Como dizia Teixeirinha e cantava Rio Grande afora: “quem quiser saber quem sou, olha para o céu azul e grita junto comigo viva o Rio Grande do Sul”. É dia de comemorar.

TRADICIONALISMO
Tradições gaúchas
Para a coordenadora da 7ª Região Tradicionalista do Rio Grande do Sul, Gilda Galeazzi, o Movimento de Tradições Gaúchas representa um segmento da sociedade civil organizada de manifestação cultural referente a cultura gaúcha. Ele se organiza através das entidades tradicionalistas que tem um quadro social regulamentado por um estatuto de fundação das entidades. “Entendemos que o nosso movimento é organizado, que forma cidadãos em virtude de que todo o segmento da sociedade civil organizada tem suas regras. Só participa quem sente prazer de estar no ambiente e todos tem regramento”, esclarece ela.

Em Passo Fundo são 16 entidades, entre Centros de Tradições Gaúchas (CTG), Departamentos Tradicionalistas e Grupos Folclóricos. “Muda apenas a nomenclatura, porque a identidade é a mesma. Todos tem atividades plenas que são culturais, artísticas, sociais e campeiras”, afirma ela.

As atividades culturais, segundo Gilda, além de divulgar a cultura gaúcha a qual estão inseridas, tem como obrigatoriedade atrair associados para continuar a preservar a manifestação cultural, divulgando concursos de prendas e peões. A atividade campeira exercita o tiro de laço, vaca parada, provas de gineteada, e todas as atividades relacionadas a lida campeira. Já a parte artística inclui a dança, o canto, a chula, a poesia e os instrumentos.
Vestimenta
Em Passo Fundo, entre praticante se simpatizantes que estão inseridos na comunidade, de 20% a 30% da população é ligado ao tradicionalismo. De acordo com Gilda, “a caracterização do gaúcho se dá através de sua forma de expressão nos usos e costumes, valores éticos e morais, respeito às pessoas, que caracteriza uma identidade própria, principalmente através da palavra empenhada”, afirma.

Na opinião de Gilda, a vestimenta como em todos os Estados, através de suas manifestações culturais tem indumentária específica, assim é também no Rio Grande do Sul. “Como temos manifestação gaúcha, temos nossa indumentária regulamentada por lei estadual, a única que é reconhecida por lei”, afirma ela. A pilcha gaúcha é determinada pela Lei Nº 8.813 de 10 de janeiro de 1989.
Gastronomia
Segundo Gilda, as comidas típicas estão enquadradas no contexto das entidades tradicionalistas pelos usos e costumes das gerações passadas, que tinham o hábito de se alimentar fartamente para conseguir trabalhar durante o dia nas tropeadas. “Tinha que ser uma alimentação farta e reforçada porque não tinham hábito de se alimentar três vezes ao dia, então faziam uma alimentação reforçada até encontrarem uma pousada para sua tropa”, frisa ela. A coordenadora também conta que os tropeiros não paravam, não havia um acampamento certo, era demarcado conforme o cansaço da tropa.

A gastronomia gaúcha é uma das mais ricas do país e o prato que mais caracteriza o Estado é o churrasco, além claro, do carreteiro. De acordo com Gilda o churrasco era a forma mais comum e corriqueira de alimentação, isso porque os tropeiros quando faziam suas paradas, às vezes até carneavam o próprio animal para se alimentar. “O MTG nasceu na zona rural, através de uma identificação de estância e na estância o animal mais comum era o gado”, esclarece. Ela explica que o carreteiro e o churrasco são os mais conhecidos e mais difundidos, porque na época que se originou o próprio charque, que era feito da carne. “Quando matavam os animais, era tirava a carne fresca para o churrasco e o que sobrava salgavam para poder conservar porque não tinha outro meio de conservação da carne crua a não ser através do sal”, pontua.



(FOTO ALESSANDRA PASINATO / FOTO ALESSANDRA PASINATO)

CTG
Um dos CTGs mais tradicionais de Passo Fundo é o Lalau Miranda, o primeiro a ser fundado na cidade em março de 1952. Segundo o 1º capataz, José Henrique Fonseca, o Lalau Miranda tem seu embrião na Academia Passo-fundense de Letras, quando em 1952 Antonio Donin e outros acadêmicos vinham da metade sul do Estado onde já havia uma movimentação tradicionalista. “Ele vinha de Porto Alegre, chegou em Passo Fundo e mobilizou acadêmicos, explicando que havia uma movimentação para resgatar a história do Rio Grande do Sul, que se perdeu a partir da ditadura de Getúlio Vargas”, explica.

Foi em 1948 que começou essa movimentação de resgate e o Lalau Miranda surgiu nesse meio, formado por escritores, jornalistas e profissionais liberais, que utilizaram as dependências dos clubes Comercial e Juvenil, além do Círculo Operário. “Lalau Miranda era um estancieiro que tinha vivido em Passo Fundo, Estanislau de Barros Miranda, e em homenagem a ele foi colocando seu apelido”, informa Fonseca.

Lalau Miranda
O CTG foi uma das 10 primeiras entidades no Estado a ser fundada e foi o primeiro centro da região Norte do Rio Grande do Sul. “Em 1954, já viajava ao Rio de Janeiro para participar do programa da Radio Nacional, com abrangência nacional com a invernada artística. Foi a primeira vez que um grupo artístico representando a cultura gaúcha se apresentou no Rio de Janeiro num programa ao vivo num domingo a noite”, conta o capataz.

A partir do Lalau Miranda vieram os ensaios para formação dos cavaleiros, que se transformou na invernada campeira, nas rondas gaúchas e nos festejos da semana farroupilha. “As rondas que temos iniciaram em 1952 e a primeira vez foi realizada nas dependências do clube Caixeral”, relembra ele. Conforme Fonseca, como os dançarinos usavam esporas e riscava o piso dos clubes, aos poucos tiverma que se mobilizar para a construção de uma sede própria que contou com a participação de muitos associados.

A entidade chegou a ter mais de 5 mil associados, que construíram a sede própria, o rancho que hoje reúne os mais de 300 associados ativos, envolvendo dançarinos, famílias de dançarinos, invernadas campeiras, grupos associados e invernadas artísticas. “Uma das únicas entidades que mantém o compromisso com o regate e a continuidade da cultura gaúcha através das invernadas de dança e campeiras”, finaliza o capataz.

HISTÓRIA
Guerra de Farrapos
Professor do curso de Pós-graduação em História da UPF, Adriano Camassoli, explica que a Guerra dos Farrapos foi uma das revoltas do período regencial brasileiro, que foi de 1831-1840, e resultado das tensões entre uma parte da elite terratenente sul rio-grandense e o Estado imperial. Conhecida como Revolução Farroupilha, o professor afirma que não foi um movimento isolado, visto que outros levantes aconteceram, no mesmo período, na Bahia, Pernambuco, Maranhão e Pará. “Como os demais a Farroupilha deve ser entendida como parte do processo de formação do Estado nacional brasileiro”, afirma o professor que acredita que o termo revolução não é o mais correto para esse acontecimento.

Ele explica que no contexto histórico, a Guerra de Farrapos ocorreu por uma série de razões. “Uma parte da elite estancieira estava insatisfeita com o governo central devido à falta de autonomia da província, falta de participação política, excesso de impostos sobre o sal e sobre o charque e a perda da província Cisplatina em 1828”, comenta, pontuando que esses descontentes promoveram uma guerra civil reivindicando mudanças que lhes permitissem governar a província do Rio Grande do Sul segundo seus interesses. “Não foram, entretanto, todos os líderes políticos que aderiram ao movimento, uma grande parte da elite sulista manteve-se fiel ao Império, visto que tinha sólidos interesses na manutenção da unidade nacional e na ligação com a Corte do Rio de Janeiro”, pontua.

Entre os rebeldes farroupilhas havia uma grande diversidade, conforme o historiador. “Nem todos eram favoráveis ao separatismo ou mesmo à república e a grande maioria era favorável à manutenção da escravidão”, justifica, contando que a guerra durou de 1835 a 1845, terminando com um tratado de paz entre os rebeldes e o Império e como consequência teve a reinserção dos rebeldes à máquina administrativa e militar brasileira.

Identidade regional
Conforme Camassoli, a diferença entre a Guerra dos Farrapos e as demais revoltas do período provincial é que estas não são celebradas como manifestações de identidade regional. A celebração de 20 de setembro é bastante recente, tendo iniciado em torno dos anos 1950, sendo que o feriado de 20 de setembro foi estabelecido por lei em 1996. “O contexto de seu surgimento é o de uma reação à política de Getúlio Vargas de extinguir os símbolos estaduais como bandeiras e hinos. Portanto, é uma forma de afirmação da identidade regional do Rio Grande do Sul”, salienta, considerando que essa celebração, contudo, faz parte mais da memória sobre a guerra do que da história. “Significa que alguns elementos são supervalorizados e outros esquecidos, silenciados, enquanto um terceiro grupo é inserido de forma equivocada. Por exemplo, não se chamavam os habitantes do Rio Grande do Sul de gaúchos, mas de sul rio-grandenses”, explica.

De acordo com o historiador, gaúcho era um termo negativo que significava homens não totalmente ajustados à ordem social, “homens soltos” ligados à atividade pecuária. “Homens como Bento Gonçalves da Silva ou Antônio de Souza Netto não admitiriam ser chamados de gaúchos, já que eram bem assentados estancieiros”, pontua ele.
20 de setembro
Sobre o uso das bombachas, Camassoli aponta que elas ainda não existiam na América ao tempo da Revolução Farroupilha. “Elas foram inseridas somente uma ou duas décadas mais tarde. Os cavaleiros farrapos utilizavam-se mais do chiripá e certamente vestiam ponchos, indumentárias que deitam raízes no século XVII”, conclui, observando que “o próprio termo ‘farroupilha’ e menos específico do contexto de guerra do que se imagina, surge já alguns anos antes e é utilizado em contexto nacional”, constata, comentando que farroupilha significa exaltado na política, aqueles que apoiavam a reforma constitucional de 1834 e não tem ligação com vestir farrapos.

Para o professor, as festividades do 20 de setembro mostram a tensão que existe entre memória e história, onde aponta que a primeira é mais afetiva e a segunda mais científica. “A celebração do 20 de setembro hoje cumpre importante papel na definição e afirmação da identidade do gaúcho – termo que se estende a todos os nascidos no Rio Grande do Sul hoje. Essa identidade cria seu mito de origem, que é a ‘Revolução’ Farroupilha”, declara, explicando que não há nada de errado nos mitos. “Basta entender que eles nos contam muito mais sobre os tempos em que vivemos do que sobre os tempos aos quais se referem. Ou seja, quando falamos da celebração atual do que é ser gaúcho estamos falando mais de nós mesmos do que de nossos antepassados”, acredita.

Cultura gaúcha
O historiador aponta que a cultura gaúcha se construiu fazendo muitas referências ao episódio da Guerra dos Farrapos, espécie de momento fundador da identidade gaúcha, que teria, entre outros traços, a característica de “lutar pela liberdade” e “ser contra a tirania” e ao mesmo tempo de destacar da identidade geral do brasileiro. “Essa identidade é construída com doses de verdades históricas e de reinterpretações, pois trabalhando como memória ela é seletiva, escolhe episódios de forma consciente ou não”, diz ele.
Camassoli aponta que muito do que a cultura gaúcha carrega como autêntico pode ser questionado. “Se autêntico significa algo surgido em um passado distante ou diretamente ligado à epopeia farroupilha elementos como o uso da bombacha não são autênticos. Mas são autênticos como expressão atual da identidade gaúcha, que está fortemente ligada a essa vestimenta”, considera ele.

O historiador considera que a cultura gaúcha e um fenômeno social em si e que não há paralelo em nosso país. “O fato é que esta identidade, essa memória construída, por ser extremamente positiva é muito bem vista tanto pelos gaúchos quanto pelos demais brasileiros. As grandes imagens de identidade no Brasil são o gaúcho, no sul, e a baiana, não havendo outras que desfrutem de tanto sucesso”, avalia. Para ele, de certa forma não importa, se essas imagens estão de acordo com a figura da baiana e do gaúcho como existiram no século XIX, pois elas não tem como objetivo explicar historicamente, mas importa e muito se elas causam um efeito positivo na sociedade atual. “Esse efeito positivo, contudo, não nos deve cegar para o uso que essas imagens podem ter, que é o de silenciar conflitos sociais ou formas de dominação, estas sim presentes desde tempos longínquos”, finaliza.

História, arte e sentido
Estudante do curso de pós-graduação, o aluno mestrando Henrique Pereira Lima teve em uma das disciplinas a história no sentido da arte, em como ela pode transmitir conhecimento e partindo do princípio que ela possui valor cognitivo, expressão social e transmite as questões que a sociedade vive.

“Colocando isso na perspectiva regionalista identifiquei duas obras de arte que tratam do mesmo tema, mas que vão encontrar graus diferentes de inserção no imaginário do gaúcho no Rio Grande do Sul: O Laçador e El Gaucho Oriental.

Segundo Lima, O Laçador é uma obra modelada no Rio Grande do Sul em 1954 pelo próprio imaginário riograndense e a outra, El Gaucho Oriental, evoca outro jeito de pensar e interpretar o gaúcho, porque foi criada no Uruguai, em 1935, e vai se sustentar numa historiografia diferente de O Laçador.
Identidade cultural
Segundo Lima, a identidade cultural do gaúcho riograndense é diferente do que foi produzida e passada na Argentina e no Uruguai. “Essa identidade vai ser construída e várias mãos, que vão manipular, forjar a história, a historiografia, as perspectivas da sociedade e esses elementos quando vão para a literatura, pintura, poesia, arte monumental vão reproduzir o gaucho riograndense que é uma construção”, explica.

No seu estudo, o mestrando partiu da produção ou do jeito que a história foi feita no Estado desde o século XIX. “Essa história regional vai privilegiar o elemento português como ocupante do espaço riograndense, a formação das estâncias, o caráter fronteiriço do Rio Grande do Sul, que vai colocar o Estado como se fosse uma fronteira sempre em perigo do avanço hispânico”, afirma, frisando que o gaúcho vai ser visto como um elemento que vai ficar na fronteira defendendo o território.
 
Simbólico x real
Segundo ele, no século XIX, um grupo de intelectuais pensar sobre essa visão e com base nas informações procurou dar origem e fortalecer a imagem do gaúcho brasileiro, como nobre, ordeiro. “Foi a sociedade do Partenon Literário, que acaba, mas essa perspectiva não. Ela vai atingir o século XX e novos elementos vão se associar a esse pensamento”, afirma. Os escritores vão criar o gaúcho protetor da fronteira e vai chegar ao que conhecemos hoje que é o Movimento Tradicionalista Gaúcho. “O MTG defende uma perspectiva, que tem uma lista de caracteres que definem o gaúcho que é benemérito, com uma visão positiva, que glorificam. Mas, e o gaúcho histórico?”, indaga Lima.

O gaúcho histórico tem alguns aspectos negativos, conforme ele, que foram exportados para o outro lado do Uruguai, para o Prata, pela historiografia riograndense do século XX que manipulou todo esse processo. “O gaúcho idealizado se manteve. A diferença que existe é entre o simbólico e o real, que não existe mais, somente existe o simbólico, que se torna real quando as pessoas vivem essa perspectiva, isso é identidade cultural”, justifica. Ele conclui dizendo que o gaúcho de hoje tem uma pontinha de história e muito de idealismo.

Desfile Farroupilha
Como já é tradição, no dia 20 de setembro a Avenida Sete de Setembro vai receber o Desfile Farroupilha, que vai encerrar a programação oficial dos festejos que antecedem o Dia do Gaúcho. O desfile inicia às 9h e a avenida vai receber o Grupo Tradicionalista Gaúcho Herança da Tradição e o Núcleo de cavalos Crioulos Ronald Bertagnoli. Após, quatorze piquetes de cavalarianos disputam o concurso de cavalarias. Às 18h, no CTG Fagundes dos Reis, será entregue a premiação às cavalarias, juntamente com a premiação aos vencedores da 20ª Mostra da Cultura Gaúcha. Após as premiações, será oficialmente encerrada a Semana Farroupilha.