quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

29 de fevereiro: Um ano de vez em quando

29/02/2012 - 11:15 | Enviado por: Lucyanne Mano


"Bissexto.
Vale a pena reparar na singularidade cíclica
de fevereiro. Toda vez que o cardinal do ano
é divisível por 4, o mês de fevereiro
se enriquece de um dia,fica cismando, até,
que pode chegar a 30,
quem sabe se, caprichando, vai até 31, mas qual: 
o gás é fraco, e fevereiro só repete a façanha daí a quatro anos, 
tempo que, antigamente,
 dava para renovar as caras na presidência das repúblicas". 
Drummond de Andrade

Na sua origem, o ano bissexto é bastante explícito: um ajuste entre o calendário convencional e o tempo de translação da Terra em volta do Sol, o que faz com que o nascer no dia 29 de fevereiro aconteça de quatro em quatro anos. Mas esta peculiaridade fica também a mercê de suposições, superstições e crendices. Muitas histórias lhe são atribuídas, sem que se saiba ao certo de onde (e como) se originaram.


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Fonte: JBlog

"Martelo das Bruxas" orientou séculos de perseguição às mulheres


Monge alemão Heinrich Kramer possuía o que se define hoje como uma estrutura psicológica neurótica. Ele concentrou a misoginia de sua época num tratado para caça às bruxas. DW conversa com a historiadora Irene Franken.
Katharina Henot foi a primeira. Depois que, em 1627, a influente comerciante foi condenada e executada por "magia maléfica", iniciou-se uma avalancha de processos por bruxaria na cidade alemã de Colônia: nos três anos seguintes, pelos menos 24 mulheres foram acusadas e mortas.
Cento e quarenta anos antes, um monge dominicano estabelecera os fundamentos para identificação e perseguição às feiticeiras, naquilo que hoje se chamaria um best-seller: o Martelo das Bruxas –Malleus maleficarum ou Der Hexenhammer. O tratado compilava o saber e os medos da época, fornecendo os argumentos necessários àqueles que acreditavam na caça às bruxas.
Hoje, o Conselho Municipal de Colônia se ocupa da reabilitação oficial de Katharina Henot. A Deutsche Welle conversou com a historiadora Irene Franken, natural da cidade renana, sobre um dos livros mais infames jamais publicados.
Deutsche Welle: Em 1486, o monge dominicano Heinrich Kramer redigiu o Martelo das Bruxas. O que ele contém exatamente?
Katharina Henot (dir.) representada na torre da prefeitura de Colônia
Irene Franken: Do ponto do vista do conteúdo, o Hexenhammer se compunha por três partes. Primeiro explicava-se como identificar bruxas – ou melhor "magas", pois a palavra "bruxa" [Hexe, em alemão] ainda não era reconhecida e difundida de forma ampla. Na segunda parte do livro, Kramer enumerava, através de histórias exemplares, o que essas supostas magas eram capazes de fazer para prejudicar as pessoas. E, na terceira parte, explicava como deviam transcorrer os processos contra essas mulheres malvadas.
Que processos eram esses?
Os processos da época mudaram de perfil, através desse livro. Até então, quem denunciava alguém corria, ele mesmo, perigo de ir preso, até o processo ter-se concluído. Com seu Martelo das Bruxas, Heinrich Kramer cuidou para que se pudesse denunciar sem ser inculpado ou punido, caso as acusações fossem falsas.
Via de regra, todo o esclarecimento do caso era entregue a juízes eruditos – ou por vezes laicos – que então se encarregavam da busca por indícios. Não era permitido nenhum tipo de assistência legal – como sabemos por um caso em Colônia, onde uma comerciante tentou apelar para seu advogado. E as acusadas – pois eram geralmente mulheres – se viam diante de um esquadrão masculino que não hesitava a mandar despi-las, na procura por supostas marcas de bruxa, as quais então serviam como indício para sua "natureza mágica".
O que se sabe sobre o monge Heinrich Kramer?
Execução em Dernburg, 1555
Ele fora designado pelo Papa como inquisidor no sul da Alemanha. De fontes isoladas, sabemos que nem sempre foi bem sucedido em suas incursões a diversas cidades, onde afixava uma nota ou cartaz à porta das igrejas, exigindo a denúncia de todas as "magas". Em certos casos, ele chegou a ser expulso sob pancadas. Parece ter sido uma espécie de ato de vingança, ele iniciar essa campanha contra as mulheres, através do Martelo das Bruxas.
É certo que esse livro não é o primeiro a focalizar tão fortemente nas mulheres a temática da bruxaria, mas é o que faz isso da forma mais explícita e veemente. O livro é também entremeado de máximas sexuais. Pode-se partir do princípio que Kramer temia as mulheres.
Na qualidade de monge, ele não conhecia quase nenhuma, pois entrara para o mosteiro ainda criança. No Martelo há repetidas alusões a fazer desaparecer os membros dos homens com um passe de mágica, a torná-los impotentes e coisas semelhantes. Pode-se, portanto, deduzir que Heinrich Kramer possuía uma estrutura fundamental neurótica.
A que público se dirigia o Martelo das Bruxas?
Ele é redigido em latim e, em princípio, se dirigia a especialistas, sobretudo teólogos. Mas, aí, ele chegou também a muitos juristas e conselheiros municipais, que o utilizaram para se informar sobre a matéria. Não é que antes não existissem livros sobre o tema, mas Heinrich Kramer simplesmente compilou suas teses a partir de inúmeros autores, de mais de 100 fontes, as quais ele, em parte, menciona: são outros teólogos, mas também a Bíblia e livros de direito da época.
Como o tratado foi divulgado?
Martelo das Bruxas se beneficiou da invenção da imprensa, e do fato de ser possível divulgar textos em tiragem bem alta. Certa vez tive um original na mão: é um livro mínimo. Ao todo foram publicadas 29 edições. Ele não atingiu apenas a Alemanha, mas foi empregado em toda a Europa. Contudo muitos países também se distanciaram do livro, o rejeitaram. Como a Itália e a Espanha, por exemplo – justamente aqueles que associamos com a Inquisição.
Até que ponto o Martelo instigou a caça às bruxas?
Exemplar do 'Hexenhammer' em exposição sobre as últimas bruxas do Baixo Reno
Não tanto quanto pensam algumas pessoas, hoje. O Martelo das Bruxas não desencadeou imediatamente uma gigantesca avalancha de perseguição: mais correto seria dizer que ele foi a reação a uma onda de perseguição no século 15. Mas a maior onda de caça às bruxas na Europa só começou no século 17, quando o livro já contava mais de um século. Ele ainda era relevante, mas também havia alternativas, na época.
Não se pode dizer que a obsessão com as feiticeiras tenha sido atiçada com força extraordinária apenas pelo Hexenhammer. Porém ele forneceu uma base de argumentação e, sobretudo, também uma certa segurança jurídica. De posse desse livro, qualquer alcaide ou conselheiro podia se informar sobre a forma de instituir um processo por bruxaria, e assim se sentia assegurado. Via de regra, eram homens eruditos que liam esse livro. Clérigos o empregavam em seus sermões e havia traduções para leigos, através das quais as ideias básicas do Martelo eram mais amplamente difundidas.
Por que as teses do tratado encontraram solo tão fértil na época?
Eram tempos inseguros. Diversas coordenadas que vigoravam na Europa, até então, haviam perdido a validade. Regiões inteiras estavam realmente na miséria; ocorrera uma pequena Idade do Gelo no século 15; seguiu-se a Reforma de Martinho Lutero, acarretando incertezas religiosas; em parte reinava o medo. Nesse contexto, o Martelo das Bruxas oferecia orientação e segurança. Através dele, parecia possível identificar quem não levava a fé cristã a sério – pois a magia também era interpretada como renegação da fé cristã.
Mas foi justamente o Martelo que permitiu que se denunciasse qualquer pessoa, a qualquer momento. Isso não tornou a situação ainda mais tensa e insegura?
Bruxas são figuras tradicionais no carnaval do sul da Alemanha
O livro contribuiu, acima de tudo, para que se aprofundasse a concepção sobre as mulheres, já existente. Não era um pensar novo. Antes disso, as mulheres já eram apresentadas como o elemento ruim e fraco da sociedade. Mas o Martelo das Bruxasreforçou essa visão. Ele cuidou para que gente que, de alguma forma, era diferente da maioria, fosse mais rapidamente perseguida. A sociedade hegemônica assegurou seus próprios valores ao eliminar os marginais, como diríamos hoje.
Não havia realmente qualquer possibilidade de escapar a uma persecução?
Era muito difícil. Uma vez que a acusação de bruxaria era lançada, só restava ao implicado torcer para que o juiz encarregado possuísse uma boa formação. Quanto mais erudito e culto o juiz, mais brandas eram as sentenças pronunciadas. Pode-se constatar isso na comparação entre as grandes cidades e os povoados, nos quais a decisão cabia a juízes laicos: em geral, estes impunham sentenças bem mais rigorosas.
Quando uma mulher ia às barras do tribunal, ainda era possível os conselheiros, encarregados de decidir sobre a realização do processo, sustarem a ação. Nesses casos, eles eventualmente expulsavam a acusada da cidade, ou decretavam prisão domiciliar, ou a liberavam inteiramente. Uma mulher acusada de feitiçaria, na época, não era automaticamente condenada à morte. Mas, a rigor, havia bem pouco que ela mesma pudesse fazer.
Entrevista: Laura Döing (av)
Revisão: Roselaine Wandscheer
Fonte: Dw-World

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

UPF Editora realiza Feira Interna do Livro




A UPF Editora realiza entre os dias  08/03/2012 (das 15h30min às 19h) e 09/03/2012 (das 11h às 17h), mais uma edição da Feira Interna do Livro. O evento ocorre em frente à Biblioteca Central, no Campus I da Universidade de Passo Fundo (UPF). 

Alunos, professores e funcionários da instituição poderão adquirir diversas obras com condições especiais de pagamento ou desconto (20 a 50%). A feira visa divulgar as obras da UPF Editora e facilitar a aquisição por parte dos alunos. 

Para conhecer as obras da Editora clique aqui.

Seleção de bolsistas e voluntários


PROJETO DE PESQUISA

Projeto: Religiões e religiosidades: possibilidades de pesquisa
Coordenadora: Profa. Gizele Zanotto
Resumo: Este projeto de pesquisa objetiva discutir questões relacionadas às temáticas das religiões e religiosidades pelos vieses teórico-metodológico e empírico no noroeste do Rio Grande do Sul, especialmente no município de Passo Fundo, consagrado como pólo da devoção a Nossa Senhora Aparecida, São Miguel, à menina Elizabete, entre outras manifestações. Assim,a proposta salienta a fluidez do campo religioso brasileiro, em suas múltiplas composições, e avalia a atual situação dos vínculos denominacionais em nossa sociedade local e regional. Os estudos desenvolvidos objetivam aprofundar considerações sobre binômio sagrado/profano, formas de crer e vivenciar as práticas religiosas, sistematizações doutrinárias, organização interinstitucional, interelações de crentes e instituições com a sociedade em geral, bem como as formas de utilização de reflexões sobre práticas religiosas como responsável por alternativas de negociação e preservação de identidades culturais/étnicas.
Neste sentido, o projeto dedicar-se-à ao mapeamento e estudo dos elementos e práticas do crer e viver religioso dos passofundenses. A proposta contempla desde o levantamento númerico e tipológico das religiões e religiosidades identificadas no município, quanto à análise das formas de crença, as doutrinas e as práticas dos fiéis em seu cotidiano. Tal proposta vincula-se a alguns pressupostos básicos, a saber: a) a consideração da importância das crenças para os sujeitos; b) a valorização dos aspectos culturais em sua pluralidade e complexidade; c) a valorização da diferença e da tolerância ao outro, especialmente no âmbito religioso mas também no político, social e econômico; d) a necessidade de aprofundamento teórico-metodológico e analítico sobre as religiões e religiosidades com um todo e, especialmente, em Passo Fundo e região.

Resultados: Produção de fichamentos, pesquisa em fontes primárias, artigos, MIC
Observação: Os acadêmicos serão vinculados ao projeto de pesquisa Religiosidade e Cultura: Possibilidades de Pesquisa, articulado ao Núcleo de Memória e Cultural (NEMEC/PPGH).

SELEÇÃO DE BOLSISTAS E VOLUNTÁRIOS

Exigências para bolsistas: estar cursando História (entre o I e o V nível do curso), participar dos encontros quinzenais de relato sobre o andamento das pesquisas e discussão de texto teórico-metodológicos (cronograma a ser definido). É imprescindível participar dos encontros e discussões para manter o vínculo ao projeto.

Interessados devem procurar diretamente a profa. Gizele Zanotto, 
munidos do histórico escolar atualizado.

Exigências para voluntários:  participar dos encontros quinzenais de discussão de texto teórico-metodológicos (cronograma a ser definido) e, em caso de produção acadêmica, apresentar o andamento da pesquisa aos demais nos encontros. Todos os interessados poderão ser agregados, independentemente de seu vínculo institucional com o curso de História. Interessados devem procurar a profa. Gizele para esclarecimentos.

Modalidades de bolsa: os estudantes serão integrados ao projeto como bolsistas voluntários e, em caso de obtenção de bolsas remuneradas, alguns dos selecionados serão contemplados em função da produção e do atendimento às exigências legais de cada edital. Não há garantias de bolsas pagas neste momento. Serão tentadas as bolsas PIBIC/UPF; CNPq e/ou FAPERGS. Os bolsistas não incluídos nestes programas serão contemplados com PIVIC/UPF.

Mais informações: gizele@upf.br 

1933: Brecht foge da Alemanha


Bertolt Brecht fugiu da Alemanha nazista em 28 de fevereiro de 1933, um dia após o incêndio do Reichstag. O escritor sabia que logo começaria a caça à esquerda e aos opositores do regime de Hitler.
Bertholt Brecht
No dia em que o escritor Bertolt Brecht deixou a Alemanha, em 28 de fevereiro de 1933, a notícia nem sequer saiu no jornal. Ele não anunciara que iria deixar o país, e o tema das manchetes do dia era outro: o incêndio do Reichstag, na véspera.
A polícia responsabilizou a esquerda e logo apresentou o suposto autor do incêndio. Os nazistas aproveitaram para prender um grande número de sindicalistas, socialistas e comunistas, que foram enviados aos primeiros campos de concentração, improvisados para esse fim.
O visionário que conhecia o perigo
Como nenhum outro intelectual, Brecht previra a catástrofe iminente, o que aconteceria se os nazistas assumissem o poder na Alemanha. Sua Lied vom SA-Mann (Canção do homem da SA) deixa transparecer toda a sua clarividência.
Nela, ele descreve como a depressão no final da década de 1920, as batalhas de rua e as eternas crises de governo culminariam nas barbáries do Terceiro Reich. "Dormi de fome, com o estômago roncando. Pegando no sono ouvi gritarem: 'Acorda Alemanha'. E vi muitos marcharem gritando 'Vamos ao Terceiro Reich!' Eu não tinha nada a perder e fui com eles, sem me importar para onde."
Em 1933, aconteceu o que se temia e Adolf Hitler tornou-se chanceler do Reich. No mais tardar, após a tenebrosa marcha com tochas pelo Portão de Brandemburgo, em Berlim, em honra ao novo detentor do poder, ficou claro que a sombria intuição de Brecht logo se transformaria em realidade.
O êxodo dos intelectuais
Não demorou muito e começou o êxodo dos intelectuais alemães. Nem todos, porém, quiseram ou puderam fugir a tempo, como o detentor do Prêmio Nobel da Paz Carl von Ossietzky, que foi levado a um campo de concentração e morreu em consequência das torturas.
Outros, como o escritor Erich Kästner, se retiraram da vida pública e assim sobreviveram ao "reino de mil anos" que Hitler pretendia instituir. A história, contudo, se lembra mais dos que quiseram conseguiram escapar: Albert Einstein, os escritores Lion Feuchtwanger, Thomas Mann, Erich Maria Remarque, os músicos Kleiber, Busch, Klemperer e muitos outros.
Brecht foi um dos primeiros a deixar o país, por saber o que o aguardava quando o partido de Hitler começasse a colocar em prática suas ameaças. Num poema em prosa, ele expôs as razões de sua perseguição: "Quando me forçaram ao exílio, os jornais publicaram que foi por uma poesia minha, ridicularizando o soldado da Primeira Guerra Mundial. Agora, quando eles preparam uma nova guerra mundial, decididos a superar as monstruosidades da última, é quando se persegue ou se mata gente como eu, por delatar os seus atentados".
A lenda do soldado morto
A poesia a que Brecht se refere, que teria inspirado o ódio dos nazistas, é Legende vom toten Soldaten(Lenda do soldado morto), um poema pacifista que se refere à Primeira Guerra Mundial.
Como faltassem soldados ao exército do Império Alemão, decidiu-se desenterrar um soldado que morrera, vesti-lo com um novo uniforme e arranjá-lo para que passasse pelo exame médico e fosse mandado de volta ao front. Sob os aplausos do clero e dos representantes do grande capital, o defunto foi enviado ao campo de batalha para morrer como herói.
Os nazistas não odiavam apenas o poeta Bertolt Brecht, odiavam também o seu pacifismo e o fato de ele ser comunista. Na sua Balada da árvore e dos galhos, de 1931, Brecht antecipou o comportamento assassino das hordas nazistas, no dia em que pudessem agir livremente.
Fuga para a Dinamarca
Com sua visão, Brecht decidiu fugir assim que soube do incêndio do prédio do Reichstag. Um dia depois, na manhã de 28 de fevereiro de 1933, deixava Berlim em direção a Praga. Da capital da então Tchecoslováquia foi a Viena, de lá até a Suíça e a seguir para a Dinamarca, onde se radicou por alguns anos.
O exílio o levaria ainda à Finlândia e aos Estados Unidos. O autor de A Ópera dos três vinténs e de outras obras inesquecíveis conseguiu escapar de Berlim antes de começar a primeira onda de prisões do novo regime, que afundaria a Alemanha e o mundo numa guerra sem precedentes.
  • Autor Dirk Kaufmann (ns)
    Fonte: DW-World

28 de fevereiro de 1994: Governo cria a URV, pedra fundamental do Plano Real

28/02/2012 - 06:00 | Enviado por: Lucyanne Mano
O governo editou a medida provisória que criou a Unidade Real de Valor, que entraria em vigor em março, com valor no intervalo de US$ 0,80 a US$ 1.0. Além de estabelecer regras de conversão de valores, a medida determinou o lançamento de uma nova moeda, o Real (que só seria lançada de fato em junho do mesmo ano). A decisão relativa à edição da MP do Plano Real foi tomada em uma reunião ministerial no dia 27, realizada no Palácio do Planalto por convocação do então Presidente da República, Itamar Franco, a qual durou mais de oito horas. Nessa reunião também ficou decidido que a nova MP permitiria ao ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, intervir em casos de abusos por parte de especuladores de preços. Porque, segundo ele, as medidas do governo contra a inflação não teriam efeito sem o apoio da sociedade, deixando impune os especuladores, como aconteceu no Plano Cruzado (de 1986).

“Daqui pra frente, trabalhador nenhum terá o salário menor do que o custo de vida”, declarou Fernando Henrique ao dar detalhes sobre o novo plano econômico, informando que não haveria mais perdas salariais a partir de março. “Nós mudamos a regra. Mudamos de uma maneira favorável ao trabalhador. Isso tem que ser entendido. Não adianta vir com uma conversa do passado para prever o futuro. Será diferente”, acrescentou o futuro Presidente da República.

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Fonte: JBlog

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Seca moderada foi suficiente para levar os maias ao colapso

RICARDO BONALUME NETO
DE SÃO PAULO

O colapso da civilização maia, da América Central, ocorreu devido a uma modesta queda nos níveis de chuva da região, suficiente para reduzir drasticamente a população durante um declínio que durou cerca de 200 anos.

É o que afirma um novo estudo dos registros climáticos antigos. Os dados ajudam a entender como o colapso pôde ocorrer gradualmente, em vez de acontecer de modo dramático e repentino.

A nova pesquisa contraria a hipótese de que a crise dessa civilização teria começado a partir de uma seca intensa entre os anos 800 e 1000 da Era Cristã.

Editoria de arte/Folhapress

MISTÉRIO
O declínio da avançada civilização maia, que tinha uma forma de escrita e produziu grandes monumentos de pedra, como palácios e pirâmides, sempre foi algo misterioso para os arqueólogos.

Alguns pesquisadores especularam que o colapso poderia ter sido causado por guerras ou revoltas de camponeses.

Outros têm explicações ecológicas, como a queda da capacidade do ambiente de sustentar uma população com água e alimento.

Martín Medina-Elizalde, do Centro de Investigação Científica do Yucatán, México, e Eelco Rohling, da Universidade de Southampton, Reino Unido, publicaram seus achados na edição desta sexta-feira da revista americana "Science".

QUÍMICA
Eles usaram a análise de variantes de elementos químicos em sedimentos em lagos da região da península de Yucatán e em uma estalagmite (formação rochosa criada pelo gotejar de água e minerais depositados em cavernas). Ambos são fontes importantes de dados sobre as chuvas e a evaporação ocorridas no passado.

Para Rohling, as reduções na chuva "representam apenas de 25% a 40% na chuva anual. Mas foram grandes o bastante para a evaporação se tornar dominante sobre a queda de chuva, e a disponibilidade de água foi rapidamente reduzida. Os dados sugerem que a principal causa foi uma redução da atividade de tempestades de verão".

A falta de água afetaria tanto o campo quanto as cidades. O verão era a principal estação para o cultivo. E o armazenamento de água nas cidades também seria afetado. Secas em anos subsequentes causariam o abandono de centros urbanos.

"Apesar das evidências sugerindo que a mudança climática não explica completamente os complexos eventos geográficos e sociopolíticos do período do declínio maia, registros de paleoclima e evidências arqueológicas sugerem que a época foi pontuada por uma série de eventos de seca, que provavelmente provocaram significativas rupturas na sociedade", dizem os autores do estudo.

Curiosamente, segundo eles, a redução de chuva teria sido semelhante àquela que poderá ocorrer na mesma região, de acordo com estudos atuais, por conta do aquecimento global.
Segundo Medina-Elizalde, "há diferenças, mas o alerta é claro. O que parece ser uma redução menor na disponibilidade de água pode levar a problemas importantes e duradouros". Outras regiões no mundo com clima parecido poderão ter problemas semelhantes. "Hoje temos o benefício dessa consciência e temos de levá-la em conta."

Fonte: Folha

Unesco premia pesquisador da cultura árabe no Brasil


Entrevista com João Baptista Vargens, primeiro brasileiro a receber o prêmio Unesco-Sharjah, em reconhecimento pela promoção da cultura árabe no mundo. O escritor e pesquisador dedica-se ao tema há quase 40 anos.
Nesta segunda-feira (27/02), o brasileiro João Baptista de Medeiros Vargens receberá o 10º prêmio Unesco-Sharjah, na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris. Criada em 1998, por iniciativa da União dos Emirados Árabes, a premiação valoriza contribuições para o desenvolvimento e a difusão da cultura árabe no mundo.
A cada edição do prêmio, o reconhecimento a trabalhos artísticos e intelectuais é concedido a uma personalidade de país árabe e uma de outro país. Neste ano, ao lado do escritor e acadêmico libanês Elias Khoury, Vargens foi escolhido. Cada um deles receberá 30 mil dólares.
Vargens, 59 anos, é editor, escritor, tradutor, lexicólogo e professor da língua e cultura árabes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Viveu na Síria, como estudante, e no Marrocos, como professor de língua portuguesa e cultura brasileira, além de ter viajado diversas vezes a outros países árabes.
Interessado na influência do árabe no português, com sua obra, o brasileiro destacou aspectos importantes da presença árabe no Brasil e nos países lusófonos. Um de seus trabalhos mais recentes foi como organizador do Dicionário Árabe-Português, escrito por Alphonse Nagib Sabbagh (Almádena, 2011). Em entrevista à DW Brasil, Vargens fala sobre a premiação e sobre a carreira.
DW Brasil: Como e quando começou seu interesse pela cultura árabe? O senhor é de origem árabe?
João Baptista Vargens: Eu não sou de origem árabe. Sou filho e neto de brasileiros. Meu interesse pela cultura árabe começou na adolescência, ao ler contos ambientados no Oriente Árabe. Mais tarde, o assunto Palestina, a primeira guerra árabe-israelense me fez interessar politicamente pelos árabes. Ao saber que existia um curso Português-Árabe na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fiz vestibular, passei e, em 1974, fiz parte da primeira turma licenciada em português-árabe – éramos apenas dois alunos.
E resolveu aprodundar o tema?
Depois dos quatro anos de graduação, fiz dois anos de especialização e, mais tarde, ganhei uma bolsa de estudos e fiquei dois anos em Damasco, na Síria, onde estudei no Instituto de Ensino de Árabe para estrangeiros.
Qual o peso da cultura árabe no Brasil?
Há duas vertentes poderosíssimas. A primeira delas é que, com a presença árabe na Península Ibérica, há cerca de 800 anos, os portugueses trouxeram a influência dessa cultura ao colonizarem o Brasil. E hoje em dia temos cerca de 12 milhões de árabes-descendentes no Brasil. Os árabes começaram mascateando e avançaram Brasil adentro. Encontramos seus descendentes desde na Amazônia até em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os árabes estão presente na política, na música, na culinária – quem não conhece quibe e esfiha no Brasil?
Quando começou a imigração árabe no Brasil?
Começou na metade do século 19, a partir de três visitas que o imperador Dom Pedro 2º fez ao chamado "Crescente Árabe". Passou pelo Egito, Líbano, Síria e Palestina. Ele gostou do que viu, do povo, da cultura, e concedeu vantagens para que essas pessoas viessem para o Brasil. O grande momento da imigração árabe foi, então, no final do século 19 e início do século 20.
Há também uma grande influência de palavras árabes no idioma português, certo?
Temos cerca de 3 mil arabismos, a maioria por conta da presença árabe na Península Ibérica. Outros surgiram após expedições portuguesas. No início do século 15, em 1415, Portugal chegou a Ceuta e recolheu lá e em outros países árabes algumas palavras. E, no vocabulário do português do Brasil, entraram palavras trazidas em sua maioria pelos libaneses, como as ligadas à culinária: quibe, esfiha, tabule.
O que significa para o senhor ser o primeiro brasileiro a receber o prêmio Unesco-Sharjah?
Soube em outubro passado que meu nome tinha sido indicado pelo Itamaraty. Fiquei muito satisfeito em ser escolhido entre nomes apontados por outros países, porque creio que as duas grande escolas de arabistas brasileiros – da UFRJ e da Universidade de São Paulo (USP) –, receberão, assim, uma visibilidade maior. Então esse prêmio não é só para mim, é para os arabistas do Brasil e para o Brasil também.
Que trabalhos o senhor tem em andamento atualmente?
No ano passado, fiz concurso para professor Titular de Árabe na UFRJ, passei e tomei posse recentemente. Creio que o trabalho mais importante agora, ainda mais após o prêmio Unesco-Sharjah, é que a UFRJ, assim como a USP, tente se aproximar cada vez mais do Ministério de Relações Exteriores. A intenção é que haja um trabalho conjunto entre universidades públicas e o Governo Federal. Acredito que agora, com a recente criação da Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA), surja, para além dos dicionários bilíngues existentes, também um trilíngue – espanhol-português-árabe.
Autora: Luisa Frey
Revisão: Francis França
Fonte: DW-World

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Entrevista: Mídia e censura são temas de estudo de Beatriz Kushnir


Por Flamínio AraripeFortaleza
Beatriz Kushnir é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Na Associação Nacional de História (Anpuh), ela coordena o Grupo de Trabalho de História e Comunicação. Um dos livros de Kushnir, "Maços da Gaveta: Reflexões sobre a Mídia" é uma obra que reúne os trabalhos de 15 autores que pesquisam a história da mídia. Já "Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição. As Polacas e suas Associações de Ajuda Mútua", primeiro livro da autora, foi resultado de sua tese de mestrado na UFF. A tese de doutorado de Kushnir também rendeu um livro: "Cães de Guarda - Jornalistas e Censores , do AI-5 à Constituição de 1988". Neste, a autora tratou de um tema delicado: a colaboração de parte da imprensa com a ditadura militar. Em entrevista ao Globo Universidade, Beatriz Kushnir falou sobre suas obras e sua trajetória acadêmica.
Globo Universidade – Como foi a sua formação acadêmica?
Beatriz Kushnir – Nasci no Rio de Janeiro e estudei em um colégio da comunidade judaica, fruto do XX Congresso do Partido Comunista. Fiquei muito em dúvida entre Jornalismo e História – achava que era muito tímida para as redações. Fiz História na Universidade Federal Fluminense em meados dos anos 1980. Era um curso de bastante excelência. Fiz mestrado também na UFF em um tema que é bastante complicado, sobre mulheres judias prostitutas, as polacas que migraram da virada do século XIX até meados dos anos 20 do século passado. Elas têm sociedade de ajuda mútua no mundo inteiro.
GU – A pesquisa foi feita em que cidades?
BK – Pesquisei no Rio de Janeiro, São Paulo, Santos e Nova York. O diferencial é que elas faziam sociedades de ajuda mútua para se manterem judias. O livro "Baile de Máscaras" foi publicado pela Imago. Quando fui fazer o doutorado, não queria estudar o mesmo tema do judaísmo. Tinha várias ideias do que fazer. No fundo queria trabalhar sobre imprensa alternativa até ler a tese do Bernardo Kucinski – em meados dos anos 1990 aquela tese era muito marcante para tentar mexer em alguma coisa. Fiz um projeto sobre a imprensa clandestina apreendida no Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Tentei entrar para a UFF e para a Unicamp. Passei para as duas e escolhi a Unicamp. Foi um diferencial grande, porque uma universidade paulista é outra história, abre possibilidades. Em lugar nenhum nesse país é assim. A bolsa da Fundação de Apoio à Pesquisa (Fapesp), a agência de fomento de São Paulo, o trata como um profissional muito bem remunerado, valoriza muito o seu trabalho. No meio da pesquisa, eu fui a Brasília e encontrei o acervo do Departamento de Censura de Diversões Públicas. Ao mesmo tempo, comecei a perceber que os dez primeiros censores que foram para Brasília quando a capital foi transferida tinham como profissão o jornalismo. Então, eu quis entender como os jornalistas tinham se tornado censores. No meio dessa história, localizei um jornal em São Paulo que era ligado à Folha de S. Paulo, a Folha da Tarde, que tinha uma redação de tiras, de policiais.
GU – Este foi o tema do seu doutorado?
BK – Sim. A tese, que se chama "Cães de Guarda", dialoga nessa polaridade. Isso foi bom porque resgata um pouco do meu início. Um dos meus primeiros trabalhos foi no Centro de Pesquisas e História do Brasil, o CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. Tive orientação no mestrado de uma pessoa que é muito importante na história política (Angela de Castro Gomes). Foi uma possibilidade de voltar a essa questão. Sempre pego assuntos muito delicados para trabalhar. O historiador tem esse papel social. Lógico que cada um é livre para escolher o assunto que quiser, mas gosto que, de alguma maneira, o meu trabalho interfira na vida cotidiana. Acho que consegui isso tanto na história das polacas como no livro "Cães de Guarda". Fiquei na Unicamp de 1996 a 2001, quando defendi a tese, que foi recomendada para ser dividida em dois livros. Fiquei algum tempo perseguindo essa ideia. O livro saiu em 2004, no ano do aniversário dos 40 anos do Golpe Militar. Foi o quinto melhor livro em Ciências Políticas do Prêmio Jabuti, atrás do livro do Octávio Ianni, terceiro colocado. Foi o ano em que Octávio Ianni faleceu e foi homenageado.
GU – Que outras atividades a senhora exercia nos anos de preparação da tese?
BK – Sempre tive uma vida acadêmica bastante efervescente, mas tive uma vida profissional que acompanhava o ritmo. Nunca fiquei só estudando. Também não sou uma pessoa que tenha ido dar aula muito cedo. Não fiz isso. Trabalhei como pesquisadora todo esse tempo. Realizei trabalhos como free lancer para muitas instituições de pesquisa – para o CPDOC, para a Memória da Eletricidade e para a Biblioteca Nacional. Num determinado momento, eu abri um escritório de consultoria nessa área para trabalhar com cinema e com teatro. Há muitos anos eu trabalho com o Miguel Falabella, com pesquisa histórica para as peças de teatro dele. Fiz a pesquisa para o filme Madame Satã, de Karim Aïnouz, porque a dissertação do meu mestrado tinha muito a ver com isso. Gostava muito de fazer esse tipo de dinâmica. A televisão, o cinema e o teatro têm um impacto muito forte sobre os alunos. É muito difícil para o professor depois dialogar com os alunos que veem aquela imagem amplificada e distorcida da História. Acho muito bacana poder interferir nisso. Em 2002, 2003, quando já havia acabado a tese, Miguel Falabella foi convidado para ser diretor da Rede de Teatro do Rio, que é a maior do gênero na América Latina, e me chamou para ser assessora dele. Pela primeira vez saí da vida acadêmica e desses trabalhos para entrar na burocracia do Estado. Ele dizia “não, você vem três vezes na semana, não tem o menor problema”. Só que não é assim: é uma verba muito alta.
Beatriz Kushnir (Foto: Flamínio Araripe)A pesquisadora já explorou temas como a prostituição e a censura em seus estudos
(Foto: Flamínio Araripe)
GU – Como foi a experiência?
BK – Coordenei a Rede de Teatro com ele. Nesse momento, véspera de 2004, ia fazer 50 anos do suicídio do presidente Getúlio Vargas. O prefeito do Rio na época, César Maia, queria fazer uma homenagem, porque ele tem uma tradição brizolista, então, fiz o memorial. Dirigi o memorial que ficava na Glória, numa praça onde Vargas queimava as bandeiras do Estado para fortalecer a ideia de nação. Em abril de 2005, vim dirigir o Arquivo Geral da Cidade. É uma experiência muito boa, uma forma de juntar toda a vida acadêmica e de pesquisadora para botar literalmente a mão na massa e construir um arquivo com acesso à informação como eu gostaria de ter em outras instituições. Mas é um desafio grande, porque o Estado brasileiro é sucateado há muitos anos. Não tem tradição de concurso nessas áreas. É uma luta bastante grande.
GU – E as pesquisas na universidade?
BK – Não larguei a vida acadêmica. Fiz meu pós-doutoramento júnior na Unicamp e depois na UFF neste período. Trabalhei com uma ilha na Baía da Guanabara, a Ilha das Flores, que teve a primeira hospedaria de imigrantes da cidade e foi várias coisas até ser base política do Cenimar (Centro de Informações da Marinha), de tortura nos anos 1960. Trabalho com esta perspectiva. Desde 2003 dei aula na pós-graduação da Unicamp, na pós-graduação da USP (Universidade de São Paulo) e, há dois anos e meio, dou aula na graduação da UFF ao mesmo tempo em que dirijo o Arquivo. Em junho de 2006, o Arquivo Geral da Cidade e várias outras instituições no eixo Rio-São Paulo foram furtadas por uma quadrilha internacional de roubo de documentos históricos. A quadrilha é coordenada em parte por um rapaz de São Paulo que agora está preso na Polícia Federal. Aí comecei a trabalhar com o mercado de leiloeiros no Rio de Janeiro e procurar entender o furto de bens históricos. É a pesquisa que desenvolvo como professora visitante na UFF, "Sob a Luz de Sódio: Leilões, Furtos e Autenticidade no Comércio do Patrimônio Histórico Carioca" (1933-2008).
GU – Qual a sua linha entre as correntes teóricas da História?
BK – Fui formada numa universidade que tinha um grupo de professores marxistas, então, tenho uma vasta leitura nessa área; como também, nessa mesma época, se tem uma grande influência da Escola dos Annales, da França, com essa noção de outros objetos, trabalhar com classe subalterna, com prostituição. Minha forma de ver a História e de trabalhar é a de juntar todas essas demandas. É uma visão de esquerda, mas não mais uma visão de esquerda de fazer a história dos anos 1970 e do começo dos anos 1980. Mas não é efetivamente uma noção de uma História sem processo. Sou fruto dessa geração de professores que concebia a História nessa perspectiva.
GU – Pode nos falar um pouco mais sobre o livro "Cães de Guarda"?
BK – Foi um livro muito polêmico na época, a imprensa faz um grande silêncio sobre ele. O livro é uma inflexão historiográfica. A historiografia tratava a imprensa como o lugar da resistência à ditadura. O "Cães de Guarda" mostra que entre eles há muito mais colaboração do que resistência. É um livro difícil de digerir. Também para os jornalistas. O livro aponta que há no meio da imprensa a questão da autocensura. O jornal tem um dono, e no jornal do dono só sai o que ele quer, como diria Cláudio Abramo. É sempre uma questão muito delicada para os jornalistas. Por isso que o livro tem uma certa resistência de divulgação na imprensa. Tudo que saiu na imprensa sobre os dois livros está nos blogs Polacas e Cães de Guarda.
Beatriz Kushnir também atuou em pesquisas para o cinema e o teatro (Foto: Flamínio Araripe)Beatriz Kushnir também atuou em pesquisas para o cinema e o teatro (Foto: Flamínio Araripe)
GU – Como nasceu a ideia do seu terceiro livro?
BK – Há muito tempo existem seminários temáticos dentro da Associação Nacional de História (Anpuh), a entidade que reúne os pesquisadores historiadores. Desde 2003 coordeno um seminário temático sobre História e Comunicação. A cada dois anos é realizado o seminário nacional e, nos anos intercalados, o de nível regional – faço o do eixo Rio-São Paulo. Os textos que escrevíamos para o congresso às vezes não eram publicados, o que me dava aflição. Entrei num edital da editora da UFF e chamei 15 pessoas desse grupo que há um tempo participam desses seminários temáticos e trabalham com a questão da mídia. Fizemos um livro chamado "Maços da Gaveta: Reflexões sobre a Mídia". Estamos tirando os maços da gaveta.
GU – Qual o seu trabalho nesta publicação?
BK – Optei por colocar nesse livro um texto que já estava na terceira edição – já voltei a esse tema várias vezes – sobre a questão da legislação de acesso à informação. O Brasil viveu um boom de modernidade no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando Celina Vargas do Amaral Peixoto estava na direção do Arquivo Nacional. Ela faz um grande debate para a constituição da Lei de Arquivos. Nossa Lei de Arquivos foi para a Câmara em 1984 e foi promulgada em 1991. Era uma lei considerada bastante moderna, que estabelece a criação de um Conselho Nacional de Arquivos que faria toda a diretriz de acesso à informação. Esse conselho só foi instalado em 1996, e muito por pressão dos setores militares, que não permitiram o acesso aos documentos dos anos de chumbo. Em 1997, tivemos os primeiros decretos que já regulamentam a classificação dos documentos. Estes setores militares queriam que os documentos ficassem fechados por 60 anos a partir da data da criação do conselho, o que estenderia o prazo por muito tempo. Durante todo o governo Fernando Henrique Cardoso, os setores militares continuam fazendo muita pressão. O então presidente, no dia 27 de dezembro de 2002, às vésperas de deixar o governo, assina um decreto onde dá finalmente aos militares tudo o que eles queriam e que durante oito anos ele segurou. As pessoas não acreditavam muito que o governo Lula fosse encampar essa ideia. Lula não só encampa como faz uma lei, a 11.111 de 2005. Em consequência, muitos documentos que vi na minha tese agora não posso ver mais, porque tem toda uma forma de classificação deles. Eu quis trazer para os jornalistas e para as pessoas que são da área de Comunicação e estão estudando mídia uma reflexão da História nessa questão da legislação. Gosto muito de trabalhar com legislação, mais porque nós, historiadores, nesse momento acabamos trabalhando com o que chamamos história do tempo presente. Para trabalhar com essa história, com essa temporalidade, tem que dominar uma ferramenta de legislação, senão não vai ter acesso à informação. Fico pasma porque todos esses instrumentos jurídicos estão sendo colocados à mesa e a sociedade não discute. Nem jornalistas nem historiadores reivindicam que não se pode fazer assim. A gente conseguiu uma Lei de Arquivo em 1991 e, desde então, a gente vem perdendo terreno por não entrar em combate.
GU – Qual  o maior impasse entre o Jornalismo e a História?
BK – Acho que tem preconceito de ambos os lados. Primeiro, os jornalistas acham que escrevem melhor do que os historiadores. Nem sempre. Depois, os jornalistas que acham que podem entrar na seara da História sem os rigores do método do historiador, se apropriando de uma ideia de ficcionalização dos fatos que me incomoda profundamente. Dizem que botar muita nota de rodapé carrega no texto. Nem tanto. Mas citar uma informação e não dizer de onde tirou, não dá, tem que chegar a um meio termo. O que nós, historiadores, fazemos hoje, é o que se convencionou chamar de história do tempo presente. O que os jornalistas fazem é história do imediato. O que muda nessa ideia de estudos de mídia que eu trabalhei na tese e nesses seminários temáticos que mantenho há muito tempo é olhar para a mídia não como fonte, mas como objeto de reflexão. Não vou pegar os jornais e as matérias para que reforcem uma hipótese que eu tenho, mas vou trabalhar a mídia como um objeto de reflexão. Fui trabalhar com determinado jornal e, ao mapear a sua trajetória, percebi o seu momento de colaboração. Essa foi a grande inflexão da reflexão que os historiadores da mídia estão fazendo, que é perceber a mídia por este viés.
Beatriz Kushnir também atuou em pesquisas para o cinema e o teatro (Foto: Flamínio Araripe)Beatriz Kushnir (Foto: Flamínio Araripe)
GU – O que a pesquisa para teatro e cinema lhe acrescentou no seu trabalho como historiadora?
BK – O meio acadêmico ainda é muito preconceituoso. O mercado de trabalho para o historiador, para o jornalista, para o médico é restrito. Então, é muito importante construir brechas que permitam trabalhar dentro das convicções em que você acredita. Na academia, ainda sinto que esse trabalho de assessoramento, de construção de uma história empresarial, é visto como uma coisa menor, o que é uma grande bobagem. Minha história com o cinema aconteceu muito por acaso. Karim Aïnouz tinha me conhecido em meados dos anos 1990, quando meu livro das polacas estava para sair e ele estava escrevendo a versão do filme Madame Satã. Até que, em 2001, recebi um telefonema da produção dizendo que o filme estava deslanchando e ele tinha contratado uma pessoa que não estava resolvendo. Fui mapear a situação. A produção era de São Paulo e estava filmando no Rio. Tinham a humildade de dizer que não sabiam como se faz. Pude brincar e trazer ideias. Karim quis que os atores tivessem uma formação melhor sobre o que era o Rio que eles estavam trabalhando. Fizemos palestras com ele e os atores contando que Rio de Janeiro era esse. Foi um dos primeiros filmes de Lázaro Ramos. Entrevistei um professor que tinha conhecido Madame Satã e contou que o personagem pintava de vermelho o polegar e o mindinho quando estava preso na Ilha Grande. O fotógrafo Walter Carvalho teve o cuidado de me ligar para dizer que estava querendo usar uma luz fosforescente, mas não sabia se já existia nos anos 1930. Antes, no teatro, eu tinha feito Somos Irmãs, a história de Linda e Dircinha Batista. Depois fiz Carmen Miranda com Miguel Falabella e, em seguida, fiz com ele O Império. É muito gratificante. Teatro e cinema são muito diferentes. O povo do teatro e o povo do cinema são tribos muito diferentes. Depois, no teatro, fiz Olga, com Luiz Fernando Lobo.

Fonte: Globo Universidade

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